Domingo, 30 de Janeiro de 2011

Era uma segunda-feira.

Ortega, vindo dos infernos, entrou pelo quarto de Simão adentro e atirou-lhe com um jornal à cara. Assim o acordou, assim lhe perguntou: – Foste tu que escreveste isto, Cabrão? Simão, já nada estremunhado, tal o estranho por rever o seu carrasco, ergueu o diário e, com surpresa, viu escritos os pensares que, com tanto afinco, guardava. Com chamada de primeira página, sob o título “Correio de Leitor Ignoto – um caso de polícia”, e entremeando estranha imagem, assim se dizia:

 

«M. Ortega: descrente que mas publiquem em jornal de tamanha tiragem, dirijo-te estas palavras sabendo que o faço a alguém cujos neurónios entraram em guerra fratricida e bastarda ao ponto de só te restar um (o mais escasso e ligeiro) — lamentavelmente, o que te sobrou está meio metro acima do habitat natural, desfruta de cauda acelerante e tem como ambição única irromper em merda por cagar. Ciente disso, mas porque te quero mostrar ao mundo, avanço.

Perante o espelho aldrabão que te dá as trombas a ver, munido do tal espermatozóide mascarado de neurónio, ousaste querer fazer a minha história. Por fortuna minha e essência tua, não o conseguiste. És uma espécie de rei midas da merda: transformas em trampa tudo aquilo em que tocas. Fui a excepção à tua regra, não me pudeste assemelhar à tua essência estéril. Entraste em mim, mas não pela alma.


És uma peçonha, sim. Porém, essa dor que te atenta e que tentas, para te aliviar a mágoa, passar para os outros, nesse corrilho que lideras e de que me fizeste sócio, esse beliscão na alma que não tens, são só teus. Olha para trás. Olha para o teu reles viver e para tempo que levas desde o nascer. Traduzes-te num zero abaixo da nula referência. Algo numericamente impossível. Não chegas a ser nada, portanto. Um dia que te atinjam com um espelho fiel, morrerás em agonia — envenenado pela verdade que a representação te dá.

O teu problema, bobo das cortes dos meus tempos, é que tu próprio não receberás dos teus apaniguados mais do que o do vento malcheiroso dos cus que profanaste.

No entanto, verdade seja dita, estás cada vez mais acompanhado – não partiram o cabrão do molde. E pudeste deixar apóstolos. Que farão por fazer a outros o que me fizeste a mim.

Porém, nem eu sou Quixote nem tu és moinho de vento. Ousaste pensar que tudo ficaria assim? Menosprezaste-me!, serei o teu degredo, professor!»


Simão, sereno, ergueu-se – ia de cãs, porém, o gaiato de quinze anos –, e olhou aquele corpo sem-cabeça que, de pé, se rastejava pela barriga. – Não, garnisé, sendo minhas, não são minhas estas palavras. Fizeste demasiados inimigos. Agora sai do meu quarto, como há muito saíste de dentro de mim. Em menos de um ai tenho aqui quem te mate, se eu próprio não o fizer. Foge enquanto podes, infame. Fá-lo por mim, que a tua vida é minha. Deste desabafo impresso que me atiraste à cara, retiro que tenho concorrência. Matar-te ou mandar-te matar já aqui seria como perder-me por metade. Foge de mim, cão, e esconde-te de quem tão bem te relatou. Dou-te um ano de avanço. E faz por te manter vivo, criatura do demo, que como me quiseste para ti, quero-te agora só para mim.


Quando Brigantia entrou, estranhou a janela aberta. Que se havia peidado, disse-lhe Simão. E por ali ficou a história, com Simão a tentar adivinhar quem seria o seu competidor. Dois matadores e um só homem para matar.



publicado por Rogério Costa Pereira às 10:00
Domingo, 23 de Janeiro de 2011

Interrompo por instantes estas memórias que João (lembram-se dele?) nunca teve, para tomar de peito o K-12 e contar de como Oliveira ordenou às suas polícias prioridade absoluta na resolução desse assunto. Embora o assassino designado pelo regime tivesse sido devidamente arrecadado, o verdadeiro capador ainda andava a monte. De ânimos já civilizados pela segurança gritada pelos jornais, um décimo terceiro castrado seria visto pela bicharada como uma racha no regime

Seabra Cavaco, já entre as suas vinhas e vinhos do Douro, foi arrancado à aposentadoria e orientado para a questão. Possuía fama de incorruptível e infalível, o sujeito. Tinha de excêntrico o facto de ter mandado gravar em todos os seus cartões, e mesmo no seu distintivo, sentença que ele mesmo, guarda-do-guarda, mandou transitar em julgado."Para serem mais honestos do que eu têm que nascer duas vezes". A mesma fama, a mesma frase, que maldisse quando a mulher lhe gritou o nome da janela. Que o senhor presidente estava ao telefone. Correu para o telefone em espera, maldizendo as pernas que lhe demoravam os instantes. A sua vontade, porém, corria no sentido oposto. Assim chegou Cavaco ao telefone, assim lhe chegou o desejo à estação de comboios – Um bilhete para Paris. Diria. Diria, mas não disse. De telefone na mão, o Cavaco das pernas que correm desencontradas recebeu as instruções. Que escolhesse os seus homens. Tinha um mês para descobrir o K-12. E tinha um minuto para impedir o K-13. Se uma ou outra coisa sucedessem, tal seria compreendido, asseverou Oliveira. Afinal, o tempo corria contra o relógio. Um relógio com doze ponteiros dos segundos a empurrarem-se ordenadamente uns de encontro aos outros – Não te preocupes, Cavaco, se a coisa correr mal tenho já aqui forma de te redimires. Um tal de Amílcar Cabral, de Bissau, andava há meses a pedir um emissário da metrópole. “Peço homem honrado com quem se possa conversar sobre o futuro”. Cavaco mijou-se; ainda só era 1955, mas até no Douro já se sabia o que realmente queria esse Cabral.

Em menos de um fósforo, Cavaco estava às portas de Lisboa. Sejamos claros, Cavaco estava à porta onde o seu faro de homem nascido vez e meia o tinha levado, após se inteirar, junto de quem por lá andava e lhe devia vidas de honra, de como andavam as coisas pela cabeça do império.

Tocou duas vezes à campainha. Era um homem religioso, Cavaco, e custava-lhe estar ali. De olhos cerrados, olhou os céus cor-de-cinza e pediu que viesse um qualquer criado que lhe dissesse que o Senhor não estava em casa. Pensou duas vezes e lembrou-se que não ia à confiança, que em boa-hora havia escolhido hora em que Frutuoso haveria de estar a dar a hóstia, ou outra coisa qualquer!, aos seus tutelados. Porém, a verdade é que nem Oliveira entenderia que ele, de todas as portas de Lisboa, houvesse escolhido aquele portão de grades para bater. Mas, como nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, ia certo que era por ali mesmo que havia que começar. Levava três nomes, todos recomendados pelo seu delfim e sucedâneo, Lopes Santana.

Ortega, Baltasar, Brigantia.

E mais um!, este sussurrado ao telefone com o velho código numérico que ele próprio havia inventado e ensinado a Santana. 23128844411. Assim o ouviu, assim o converteu em língua de gente; tremeu! – 23128844411? Uma pinóia, Santana, mangas comigo! – Que não, que não; que pela sua saúde e honra e por tudo quanto lhe devia; De Santana para Cavaco; E que começasse por aí, pelo 23128844411; Na morada já dada. Cavaco tremeu e começou a ver-se em Bissau. À mesa de Amílcar. Como entrada.

- Sim?, ouviu da boca duma desgraçada desengraçada de mamas caídas que se lhe apresentou por detrás das grades do portão. – Boas tardes, senhora Brigantia [que faro!], é esta a casa do Cardeal Frutuoso, positivo? Chamo-me Comissário-Inspector-Reformado-Cavaco. Hei-de querer falar consigo mais tarde, mas para já abra-me este portão, que venho de mandado passado pelo Comissário-Inspector-Lopes; E traga-me o menino Simão [23=S; 12=I; 88=M; 444=A com til; 11=O].

Ambos tremeram. Ela por ela e pelo menino; ele por causa dela. Cavaco, anjo do céu, t(r)emeu o estranho tremer que cheirou em Brigantia e, contra os seus purgantes e habituais costumes (estamos, não o esqueçamos, perante o mais sério dos homens), palavreou o que um dia houvera visto escrito numa placa duma Igreja herege: – Tende calma, senhora, por vezes Deus deixa a tempestade destruir, outras vezes deixa a criança acalmar a tempestade; Chamai Simão e dizei-lhe apenas que tem Cavaco ao portão. E não me chameis tempestade.

Brigantia nem tugiu. De peito Nobre e cara Alegre, correu que nem Coelho, fazendo de conta que acorria ao apelo do suserano do Lopes.



publicado por Rogério Costa Pereira às 10:00
Sábado, 15 de Janeiro de 2011

20 de Outubro.

Frutuoso havia solicitado ao seu vizinho de sempre, o sucedimento moderno de Dei Gratia Rex Portugaliae, a antecipação do almoço semanal. Tinha algo de grave para lhe dizer. Temia, porém, que o concílio desse em cisma, tamanhas eram as revelações que levava. Ia, no entanto, imbuído dos seus melhores valores cristãos, como quem vai pela paz. Ia contar-Lhe de Simão e do seu infortúnio. De como não podia deixar à sorte o filho da sua irmã, morta como já nos foi ordenado. Naturalmente, e como não andava nisto há dois dias, esperava do lado de lá um relatório completo, súmula de investigação. Ousava, ainda assim, acreditar ter corrompido (assim mesmo o pensou, enquanto se benzia), libra-aqui, ego te absolvo acolá, o pidesco e fiel relatório. Frutuoso não era um homem qualquer, tinha a sua influência, e, confiemos, ia confiante e à confiança.

Porém, entrou no palácio e tremeu. Que o raio do secretário tinha penteado novo – onde agora o sucedâneo de parafina assegurava o risco à direita, recordava um cabelo sem margem. Mau agoiro, pensava. Pensava...! Ia o pensar a três-quartos e veio-lhe a Maria de Cristo. Dobrou-se diferente do que nela era habitual e beijou-lhe o beatíssimo anel, coisa que só fazia em casos últimos, antes de confissões de coisas graves, como ter olhado de soslaio o rabo do jardineiro. Lá fora ladrava, à tripa-forra, um cão, negócio com o regime que por ali nunca tinha ouvido. Demasiadas coincidências. Oliveira demorava-se. Nisto, veio o penteadinho justificar-se. Que o Senhor andava de volta de um carpinteiro que tinha vindo para lhe calibrar o cadeirão, insistente em chiar. Que eram só mais 5 minutinhos:  Quer vexa reverendíssima eminência uma aguinha? Uma água?, mas que merda, tenho ar de quem está de garganta seca? Um clister te dava eu. E dava! Ia para o mandar à merda mais à aguinha, quando o cão ladrou outra vez:  Manel? Entra, anda sentar-te no meu cadeirão velho. Está como novo. Ora senta-te! Ai, porra, que era o Oliveira. Agora havia confundido o ladrar do cão com a voz do dono. Isto prometia. A puta da bruxa devia de estar a botar feitiço.

Entrou e disse. Oliveira, rapaz, então agora mandas-me esperar? Que segredos há numa cadeira? Até parece que é coisa de vida ou morte. Nem sei porque não compras outra. Que apego insano, pá. É só um pouso para o rabo. De remendo em remendo, ainda acabas por te magoar.

Oliveira passeava-se de charuto aceso. [– Estou fodido!, então agora o beato fuma?] É melhor que incenso, este cubano que a bófia sacou a um comuna. Fedia, o carpinteiro que me veio olear a silha, mas é tipo de confiança. Tenho aqui assento para a vida. Por aqui não me desencadeiram eles. E riram ambos, sabedores de que nunca uma cadeira de deitaria mãos à História. Ainda que se desencadeirasse com o cu do dono em pleno descanso.

Peidou-se de alívio, o Frutuoso. Disfarçadamente, levou a mão ao cu e dali ao nariz. Era coisa que o acalmava.

Precisas então de falar comigo, amigo. Conta coisas. Já sei que tens um sobrinho, que o demónio te levou a irmã. Já pus gente a investigar a acontecimento, como sabes. Os meus sentidos pêsames e condolências por essas coisas todas, mas nunca tinha ouvido falar dessa Cândida. Afastas-te demasiado do século, meu caro. A família também importa, padre, e farei questão em que te redimas com esse teu sobrinho Simão. Não fosses tu quem és e mandava-te confessar.

Peidou-se de conforto, o Frutuoso. E, desta vez, nem disfarçou. O perfume passeou-se pela sala.

Escapou-se-te um, Manel. Cheiras a saúde. Quanto ao Simão, devias tê-lo trazido, há que o mostrar. Olha lá, e quem me aconselhas para o Interior, agora que me mataram o Mello? Ouviste falar dos doze capados? Levaram-me um ministro e dois conselheiros.

Frutuoso desceu à comezinha realidade política. Claro que já sabia que o Mello era um dos doze, e, tendo em conta os interstícios das confissões que lhe ouvia, nem sequer o havia estranhado. Aconselhou-lhe o Vasconcellos; pelo menos tinha em comum com o antecessor a anódina repetição da consoante erecta. Era homem que percebia de interiores e tinha como vantagem ser quase vizinho do capo di tutti capi, pois havia nascido em Santa Comba Dão, perto do Vimioso. Tinha, como defeito de somenos, um aperto de mão à laia de sardinha mole. E assim ficou!, Artur de Vasconcellos ia para o Interior.

Isto assente, embrenharam-se na conversa do K-12 – um modernaço dum jornalista tinha-se saído com essa parangona e a moda havia pegado. Oliveira disse-lhe que já tinha indicado à sua polícia um suspeito. Bem vistas as coisas, e tendo em conta o carácter do sujeito em questão, entre os mais-que-poucos milhares de habitantes de Lisboa, havia de ser um comuna. E em sendo um desses, o capador só podia ser aquele que ambos sabiam. E, em não sendo, azar!, matavam-se dois coelhos duma só cajadada e sempre era menos uma maçada. O cardeal disse que estava a coisa bem vista, sim senhor, mas que, pela saúde dos ministros e da demais gente de bem, a modos que convinha descobrir quem era o verdadeiro capador.

No caminho para casa, Frutuoso ia de cabeça no K-12. Há três-quinze dias que a coisa havia começado. Ficar-se-ia por aí?, pelo simbolismo dos doze?, ou seria o princípio de um escalar à desgarrada? Olhou acima, reparou que estava no capítulo 13, e sentiu um arrepio. Encolheu-se ainda mais no seu sobretudo de caxemira, rezando por abrigo.



publicado por Rogério Costa Pereira às 00:46
Sábado, 08 de Janeiro de 2011

Mas, enquanto as coisas iam e vinham e se decidiam, enquanto Brigantia, Baltasar e Ortega ficavam no limbo (na altura ainda não dissolvido), e se tomavam decisões acerca do futuro do Padre Leão, havia que ir a Lisboa. Sobrinho e tio. Padrinho e afilhado. Urgia cumprir o destino há muito traçado e jurado entre sangue de pai matado. Aqui (como em alguns “ali” que não são por ora chamados a esta história), Frutuoso ditava a Palavra, ao invés de a espalhar como havia jurado. E, mais do que a ditar – à Palavra –, delegava-a, em forma de destinos a traçar, no seu filho. Nesta porção do pensar, benze-se três vezes e corrige, no seu sobrinho, no seu sobrinho. No filho da sua irmã. E apertava o cilício de metal que usava na coxa sinistra. Pela irmã nunca tida, pelas demais mentiras que havia decidido proclamar. E um pouco mais, porque sempre tinha querido ter um filho; e mais ainda, porque bem sabia que o bucho dos homens não se enchia como os das mulheres quando emprenham, o que esgotava definitivamente as suas possibilidades de, ainda que em pecado, ser pai – ser Pai! Deste pensar vinha outro e havia que fazer mais do que discretamente apertar a penitência mortificante e redentora. Frutuoso movia-se para um esconso e, despido a nu, antecipando o desvio que se seguia, vergastava-se até sangrar por onde tantos tóraxes hirsutos se haviam encostado. Era, mais uma vez, o fantasma daquele cabrão adúltero do Camilo que, Deus queira, havia de estar a arder nos infernos. Aquela “impressão indelével”, a maldita historieta do demo que mão perversa lhe havia deixado ao olhar. E aquela frase!, aquela maldita frase que se lhe pegava à pele que nem sarna. “Semel sepultus, bis mortuus”. Sepultado uma vez, duas vezes morto. Raios partissem o bastardo, que lhe havia traçado o epitáfio há mais de uma centena de anos.

Feitas as rezas, orada Maria e os demais, eis o Primo Cardeal – alma novamente branca – de volta ao conforto do caramanchão onde, mascarado de bonacheirão, aguardava que as armas e bagagens do petiz se aprontassem para a jornada. Distraidamente, como quem aguarda sem poder apressar, Frutuoso ia folheando o Diário de Notícias. De como o país andava bem, das mais-valias do volfrâmio e da guerra grande que já lá ia, de como fulano havia voltado do Brasil após visita prolongada. Na página doze, benzeu-se. E benzeu-se de novo. Ali se falava de um imundo caso havido em Lisboa. Doze homens haviam sido degolados numa só noite. Doze pais de família. Doze fidalgos. Frutuoso reconheceu o nome de nove. Desses, havia sido apresentado a sete. Dos sete, conhecia cinco e havia amado quatro. A dois, mais renitentes, havia mesmo mandado ajoelhar e absolvido dos pecados passados e futuros, o que os descansou e lubrificou.

Falava-se também da água de cal com que o assassino havia regado os cadáveres. E de como também os havia capado. O primus inter pares estremeceu de cagaço, mijou-se de mijo que lhe soube fresquinho – tal a febre que lhe subia –, orou, fechou os olhos e ergueu-se de estrondo, bravateando de um só fôlego:

– Simão!, Simão! Vem já como estás, desinfeliz, que já tiveste tempo de sobra. Dos miseráveis machos, e desse Leão por quem tanto clamas, tratamos depois. Traz mas é a bruxa, que mulher de jeitos dá sempre jeito; e depois logo se vê. E descansa que não me esqueci que te encomendei o sermão dos destinos desses animais.

Tudo dito de um só fôlego e sem respirar – assevera quem viu e avalizo eu, que o ouvi de quem diz histórias à lareira –, que quem tem cu tem medo e o medo dá destes ventos irracionais que fazem o condenado ter urgência em encarar o verdugo. E lá vieram os dois encomendados.

E lá foram os três. A caminho de Lisboa. Brigantia ia de carpideira – orou e chorou e berrou e temeu a cada légua do caminho. Frutuoso, temente da alma castrexa, não a repreendia. A genica da bruja, o espírito da croucha imperava. Esta, simples simples, temia pelo seu menino e tinha saudades (palavra que já sabia dedicar) da sua Finisterra natal. Sabia que se seguia o inferno. Simples simples, deixava-se conduzir, já de peito minado pelos vermes em forma de gente que dentro das suas infecundas entranhas haviam de largar, entre aflições, o que pudessem.

Entretanto, Babel já se via ao longe. Os três fecharam os olhos e pediram. Cada um a quem quis. Cada um por quem quis. Cada um à sua maneira. Frutuoso, que seguia com o valor acrescentado dos doze homens degolados, ciciou um “ai mãezinha”.



publicado por Rogério Costa Pereira às 03:36
Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010

Já Simão, ciente dos pesares e pensares da mãe Brigantia, mas ainda aprendiz do que viesse, com os seus nove anos de estradas e veredas – escasso eufemismo para quem nasceu das poças do sangue dos seus pais, ainda que aquém da idade onde é suposto as memórias se formarem –, digladiava-se entre ser um discípulo do mestre, a quem já sabia (pudera!) as vidas de Miguelito corcunda, ou lutar pelo pouco-mais-que-nada que ia decifrando nos escassos suspiros enlevados de Brigantia. Nesses sonhos – eram sonhos –, e porque gente que é gente exige uma mãe, Simão via Brigantia em forma de ave grande, de garras afiadas de amparo, arrebatando-o para um ninho sem dores.

O acordar, de cu dormente e pesaroso, ao lado do seu sôfrego mestre, era-lhe aflitivo. À luz do dia, Simão caía no terreno alagadiço de fundo margoso a que a sua realidade se resumia. Existência a que podia dar um nome: Ortega! “ – Miguel Ortega, odeio-te como, em pescador, a peixe ensardinhado, batido pelo mar, mordido pelos caranguejos!”

Passou mais um ano. Ais de um ano. O império de activismo pro-pedófilo de Ortega começava a dar nas vistas e nos ouvidos da capital do império. Ortega não se bastava com o acto, fazia dele uma religião cujo deus morreu empalado em defesa da neutralização social da efebofilia (especializava-se, o arremedo).

Inevitavelmente, das bocas que ouvem do diz-que-sim, a afronta arrimou aos sentidos do Cardeal. Este, lúbrico curioso e indefectível de Ortega; este, protegedor e patrocinador de Simão. Este! que mantinha aquele arriscando o eventual sacrifício deste. A Brigantia e Baltasar, embora à vista de quem vê desconsiderá-los mais fosse impossível, confiava-lhes o não-vá-o-diabo-tecê-las.

E, assim, lá foram os quatro para Cardigal, lugar a meio dia de Lisboa (medida de cavalo-cansado) – urgia afastá-los (afastar Ortega), que havia um sobrinho de catorze anos (e, seguramente, incontaminado de e pelos fundos), órfão de já e de depois, que vinha a caminho.

Cardigal era mato e pouco mais. Tojo, uma casa grande e uma casa pequena e uma igreja e meia dúzia de casebres. O dono da casa menor era o príncipe da casa maior onde se exibe a cruz das súplicas. Na casa grande couberam, por cinco anos, Ortega, Baltasar, Brigantia e Simão. Longe das vistas do tio Cardeal e do regime que haveria de sublimar o sobrinho. Mas perto, demasiado perto, das dores de cu de Simão, e dos ascos e rancores silentes e cobardes de Brigantia e Baltasar.

– É matá-lo, dizia Baltasar; – É ter calma, retorquia Brigantia, que a morte que lhe antevejo é bem mais penosa do que a goela cortada que lhe reservas.

Simão faz hoje 14 anos e o tio vem pelo sobrinho.

Para os outros é o dia do queira-deus-e-a-ver-vamos. Para Simão, já cientista de parentelas cardinalícias, era o dia do cá-calharás. Brigantia, Baltasar e Ortega vão saber o que o Cardeal lhes reserva, embora certos de que o seu fado seria gritado pelas goelas de outro. Não se enganaram, que o Cardeal era criatura justa, homem de designar juízo em quem sabia tê-lo.

– E a estes, Simão, que faço?

– Ouviste, criatura?, que faço a estes?



publicado por Rogério Costa Pereira às 04:40
Domingo, 26 de Dezembro de 2010

Isto dito, explicado o Telles pai, desvelada a nobreza da sua desonra, cuida agora contar de Simão, filho de Ezequiel, pai que haveria de ser do João que nunca foi – ou que apenas foi pelos parcos segundos que levaram seu pai a desentranhá-lo e arrebentá-lo de encontro às lajes de pedra que por ali estavam à mão. Simão, o ainda filho da puta (que o Cardeal não arranjara tempo para o desemputanhar com águas exorcizadas, tamanho o atrás descrito), passa a ter Baltasar por pai e Brigantia por mãe.

Isto aqui para nós, que a verdade a dar à história seria bem diferente e já estava traçada. Aos catorze anos seria apresentado ao regime e a Lisboa como sobrinho do Cardeal Manuel Frutuoso. Simão de Frutuoso Telles. Filho de Cândida Frutuoso, irmã de Manuel, e Artur Telles, visconde de Lousado (afidalgado rótulo que o regime republicano haveria de legitimar). Colhidos da vida por uma besta assassina que noite dentro lhes havia irrompido pelo palácio. De Lousado a Lisboa, as léguas eram suficientes para fazer passar por verdade a intrujice. E assim – tio recebe sobrinho órfão –, justificado ficaria o acolhimento que o íntimo da nada parda eminência haveria de dar ao sobrevivente aristocrata. Esta história, a oficial, não vamos mais para aqui chamá-la, mesmo porque a dita se pode ler em qualquer biografia do Patriarca. “A sua bondade ficou também demonstrada quando, em (…) acolheu o visconde de Lousado, seu sobrinho órfão, (…)”

Voltemos ao que realmente sucedeu. Quem criou Simão e lhe limpou as merdas e os ranhos, isso, foram Baltasar e Brigantia. Relegados, porém, ao lugar de criados do menino, que Manuel não era homem de entregar o seu futuro sobrinho social nas mãos sujas de sangue, suor e sémen de serviçais de má-fama – bembonda ter permitido que uma não-sei-quantas sem nome viesse dar a alva teta ao menino (e só essa alva teta, que ele lambia após beijar a testa do menino que mamava, o desviava de lhe dar caminho – à dona da alva teta).

E assim, como se esta história não tivesse já personagens suficientes, eis que se apresenta o enviado de Manuel, preceptor de Simão. Miguel Ortega.

Será suficiente anunciá-lo, para assim justificar o devir de Simão, como o dono da verdade absoluta, aquela da qual todos os outros foram despojados aquando de um infeliz episódio com uma serpente e uma maçã. Total nas convicções - feitas de infâmias, cobardia e despeito –, o mestre Ortega deitava as cartas de forma imponente e ia sempre a jogo, ainda que não lhe conhecesse as regras.

Paradoxalmente, só assim era fora do seu habitat natural. Assim que dobrava as fronteiras de Mourão (uma vez por mês), curvava a espinha e voltava aos seus derreados e arqueados estados naturais (o que lhe aliviava a dor de se fazer passar por gente). Ali, na quasi transmontana aldeia-mãe, Mestre Ortega era o Miguelito corcunda.

Passado o lenitivo fim-de-semana, voltava a Lisboa. À procura de alimento, afastava-se do seu cativeiro redentor. Obrigava a coluna ao estado erecto que copiava dos humanos, censurando as pavorosas dores que tal lhe causava. Passados alguns dias, teso que nem gente – transido de sofrimento –, culpava o único espelho que tinha em casa pela imagem torcida que todas as noites lhe voltava. E, de curtas memórias, ajudado pelo padecimento, confiava cegamente no tamanho e na perpetuidade da sombra que o sol mentiroso lhe afiançava.

Fora de Mourão, Miguelito, feito mestre, vende-se por menos de trinta moedas. Quando alguém não repara nele e se coloca entre si e aquele sol enganador, que o faz ver-se tão grande, sai-se com ameaços entredentes disto e daquilo. Nunca esquece. Morde pela calada, mas quer fazer de conta que tem tomates. Planta opinião como quem ateia as chamas dum auto de fé.

Sempre com fome, Ortega é todo um sistema judicial. Na sua caverna, para além de tocar rapazinhos, faz teatros de marionetas digitais em que os dedos do pirete são os juízes. Ventríloquo manhoso, lança as vozes que decide aos deditos que manipula. No fim, com voz bebida, põe na boca do juiz as palavras que quer: “culpados! sois todos culpados!”

Quando encontra quem o alimente longe daquele maldito espelho que o minimiza, afeiçoa-se. Deixa-se haver. Faz de conta que aceita ser a voz do dono que, longe daquele espelho mentiroso, lhe dá ração.

Ortega (assentemos nesta graça, que Miguelito e mestre já sabemos que também é) tem de provar que é corajoso – só assim lhe dão de comer – e, para isso, faz, apresenta e vende sopa da pedra, aceitando por bons os ingredientes podres que os homens-bons atiram ao lixo. Mas há quem coma daquilo e lamba os beiços, gulosos de putrefacção. E pedem para repetir, que está muito boa, que assim mesmo é que é. País duma merda. E Ortega incha como flato embargado. Fica quase do tamanho da sombra que o engana.

O Ortega que Manuel Frutuoso haveria de escolher era enorme. Levava imensa gente à toca que arranjou, longe do quartinho com espelho. E aplaude. E aplaudem-no. E aplaudem-se uns aos outros. Ali, na toca sem reflexos, de espinhas torcidas e caudas desveladas, decide-se o país. E bichanam, para que ninguém os ouça. Têm esse cuidado. Tem esse cuidado, Ortega.

Acasalada a fome com a vontade de comer, foi neste homem encantador que Manuel decidiu depositar o futuro de Simão.

Oito anos passados, tinha Simão quase nove, Ortega justifica-se perante o seu amado dono, Dom Manuel, a quem odiava. Que se era certo que Simão ainda não reconhecia as letras, ainda menos os números, Ortega via animadores sinais de recuperação. Que o atraso havia de ser por o menino ser filho de puta. Que nesses estados, pese embora o baptismo, as coisas levam mais tempo. Asseverava animadores sinais de recuperação. Apelava à confiança de Dom Manuel e lembrava a determinação que ele, Ortega – vencedor da sua própria paralisia (isto só pensava) –, tinha em vencer o natural estupor de Simão.

Mas se ambos tinham a consciência da realidade de Simão, já fervilhava de podre a aceitação da máscara que haviam de lhe impor. E, diabos o curvassem em Lisboa (tarefa impossível), se não havia de fazer de Simão um seu igual, garantia-se Ortega. “Après moi, le déluge”, como sempre dizia. Se Manuel havia escolhido Ortega, este, sem que aquele o soubesse, havia escolhido Simão como seu sucessor – o seu novo moi. Simão de Frutuoso Telles (y Ortega), o que haveria de arrastar deste Portugal os íntegros e os virtuosos.

E veio este a ser o pai de João.



publicado por Rogério Costa Pereira às 01:54
Sábado, 18 de Dezembro de 2010

Toda a vizinhança já sabia. Era dia de Cardeal na casa do Telles. Ainda hoje, não se sabe como se soube. Teria sido a íntima Brigantia?, o fiel Baltasar? Irrelevância ou sinónimo, verdade seja dita. O que conta é que, à chegada da eminência sua, o vulgo amontoava-se para o mirar, mais do que faria em dia de festa de calendário. Brigantia fazia de Guarda Suíça, distribuindo cachamorrada na turba sedenta do beijo na anelar argola do Principal do reino. Sem passar cartão à turba, lá entrou o Manel do Ezequiel na humilde casa  do Telles (são sempre humildes as casas dos ricos anfitriões), assim se anunciando: – Venho para deitar água ao gentio e comer da bruxa. Telles, Telles?

(antes do educado e cuidadoso e estranhamente ausente Telles, porém!) Voltou Brigantia, e entrou Baltasar, e arrimou o choro daquele a quem o capo de tutti capi vinha para dar o nome de Simão (esse mesmo, fala-se do futuro matador do que havia de ser João – não se perca o fio à meada, que isto de escrever estórias vividas ou ouvidas assemelha-se a procurar loiça na casa de estranhos. Tende pois atenção, doravante, e que vos sirva de emenda este responso).

Baltasar sente um arrepio e Brigantia dois. O berreiro do ainda filho da puta (pois se água abençoada não lhe havia escorrido a fronte, nem os sagrados óleos lhe haviam crucificado a testa) ecoa pela casa. O Cardeal, como se a galega e o maricas matador de putas não fossem gente, de Telles gritado, vai subindo as escadas, de encontro ao vagido.

Abriu a porta que o separava do fado e viu o imundo organismo (semelhante na forma às muitas criancinhas que o seu microfone divino absolvia do pecado original) quase sumido numa poça de sangue que jorrava do cobarde e inominável Telles, o Ezequiel. O sacrílego já não pulsava. E deixava-o, a ele, imperador das sacristias, com o menino nas mãos. Pecou o maior dos pecados, o conselheiro civil, excluindo-se da vida que afinal nunca tinha tido, que se Deus nos destina a todos, este Ezequiel-criatura já vinha norteado ab ovo para o inferno dos que, por vontade própria, ousam substituir-se ao que manda e desmanda nos vires e nos ires.

Sacramentou-o logo ali – ao ora Simão, bem entendido. Do blasfemo cadáver sem honra, infame discípulo de Saul, Aitofel, Zinri e Judas Iscariotes, aproveitou o sangue escorrido. É que, não vendo por ali água que pudesse benzer uma vez, benzeu dez vezes o sangue da maldita criatura que cobardemente havia tomado o lugar de quem decide das nossas horas. Persignou-se, apertou o cilício – "quem crer e for baptizado será  salvo; quem, porém, não crer será condenado" –, e eis o nosso Simão livre de pecado.

Com Simão besuntado de cristianismo (untado de sangue dez vezes absolvido) nos braços, desceu em silêncio, e sorrindo, as escadas que, gritando, havia subido.

Dirigindo-se à galega disse: – Este é Simão, filho de Jonas, irmão de André. Dos da Bíblia, de quem passarás a ser beata devota. Daquelas que, ao apito, se sentam, ajoelham e levantam.

A Baltasar, sem lhe dirigir o olhar ou o discurso directo, mandou que ordenasse a desordem do andar de cima e que atirasse as sobras a uma vala comum. Simão Telles, salvo do pecado pelo sangue do pecador, era agora seu valido.

Ezequiel havia fugido aos agiotas a quem se havia vendido para poder dar futuro a Simão, encarregando o padre, a bruxa e o assassino de criarem Simão. Essa era a história dos três. A oficial resumia-se ao Cardeal e a Simão. Tio e sobrinho.

Lá fora, o pé-rapado, exausto pelas desoras, num charivari de fazer estória, fazia claque pelo beijo no anel.

–  Amanhã, tudo estará tratado. Tratai de meu filho Simão. E tu, bruxa seca, arranja-lhe ama-de-leite. Serve-te destes dinheiros.

E, atirado o vil saco, saiu pelas traseiras. Entretanto, Brigantia, definhava. Incapaz de Simão, com os lábios cheios de beijos pelo Telles que já não era. Do seu Ezequiel que haviam matado. Teria os seus defeitos, Ezequiel, que só se vinha de dedo no cu, mas não era homem de se matar. Ó da guarda, que mo mataram, ousou gritar. Sem voz, para ninguém ouvir.



publicado por Rogério Costa Pereira às 01:53
Domingo, 12 de Dezembro de 2010

Mas as parecenças entre João, filho de traidores da nossa Trindade, e Ompal, azarado vizinho de traidores da alienígena trimúrti, terminam aqui; na circunstância peculiar da morte de seres a quem não deixaram experimentar o arquejo orgástico de quem ama e é amado. Esta é a verdade. Ainda que isto não levante dúvidas (nem pelo tempo do arder dum fósforo!) do amor que Simão e Ester tinham à semente que germinaram e que, por tanto assim ser, impediram de dar flor. Os amores que João não deu, recebeu em demasia dos pais que o mataram – fica já a sentença lavrada e o dedo apontado: os pais que o mataram. Que nem só por acção se mata; e da omissão já o infanticida Simão vai absolvido. Mas se João (ou a suspeita dele) foi amado, oportunidade não teve de amar. Mulher ou homem.

[João] Por circunstâncias cujas explicações aqui não cabem – por insensitivas –, assumo eu, por instantes e antes que me falte a voz que nunca tive, o narrar da minha (só aparentemente) curta história. O facto de ter morrido-de-morte-matada – realidade manifestamente não exagerada e hoje já provada por aresto transitado – é impedimento que contorno com estas vozes de quem me fiz dono.

Nenhuma vida começa ao choque parideiro com a primeira luz. A minha (convenções genésicas à parte) encetou-se era o meu pai filho mantido de meu avô. Família lisboeta de tradição pré-republicana, nos andares de quarenta do único século que por segundos vivi, os Telles eram já uma instituição secular (de século; que de laicos que se ousassem públicos nada constava). Ezequiel Telles – meu avô –, já homem de amar mulheres e guiar homens, era por esses anos conselheiro civil do cardeal do regime. A sua sombra atrasava dos respectivos afazeres (as vénias prolongavam-se por minuto ou mais) as pessoas por quem passava.

Já meu pai, esse!, a quem doravante se referirão pelo nome de baptismo, foi retirado à bordoada das garras e genicas teimosas da mulher de ocasião que numa noite se deixou emprenhar sem pedir licença. Pela teima inopinada em largar o fruto, por ali se ficou, torcida pelo pescoço.  [/João]

Era então 1941.

Na casa dos Telles passavam a ser quatro. Ezequiel e sua afortunadamente estéril governanta galega, Brigantia (alma castrexa, cujas artes estrangeiras faziam a vizindade alcunhá-la de bruxa), Baltasar, o criado de servir e de matar michelas, e o nosso iniciado Simão.

Ezequiel, fruto maduro e tuitivo, que não era homem de abandonar filho seu, ainda que parido por rameira, era agora o concludente resultado da inoportuna concentração de demasiados acasos desviantes. À bruxa e ao Baltasar, assassino e falado esquineiro amante de homens, juntava-se Simão, o filho da puta.

O seu juízo final chegou em forma de súmula encerrada por lacre de anel cardinalício. Rezava assim: “Telles, amanhã será você o assunto do nosso despacho semanal. Dizem-me que o seu viver me apouca. Que esqueceu quem sou, quem serve e quem sirvo.”.



publicado por Rogério Costa Pereira às 03:33
Sábado, 11 de Dezembro de 2010

Voltei da escuridão.

Belisquei-me com cuidado ao reentrar – ainda me lembrava como tinha sido, havia pouco mais de dez anos. O cheiro e o sabor da morte. Agora já não. Havia de estar toda a gente a rir. Havia de ter sido só um sonho mau. Dez anos são um flato num elevador vazio. Que seria feito do meu pai? Fígado marinado, morto por certo. O meu bom carrasco. E a mãe, agarrada ao caixão, sem vida própria, feliz por ser a escolhida pelo casamento que já não era – entre as teúdas e manteúdas, pobres delas, herança em vida, deserdadas na morte.

Bati na madeira da porta. Na porta de madeira. Ao de leve. Sempre eram dez anos. Morto e enterrado. Já tinha passado tempo que chegasse para descerem esta podridão às entranhas fecundas da terra. Para que florescesse em cardos e malmequeres. Bati. E bati outra vez. Ouvi passos. Morto recuei, morto de medo.

Abriu-se a porta para a escuridão. A minha luz. Entra, meu filho, estamos todos à tua espera. Dez anos dela.

Carpideiras em cada canto. As mesmas de há dez anos. Algumas já cadáveres. Choram por dinheiros. Centavos por lágrima, pintos por gritos de pesar. O mesmo cheiro nauseabundo; que a morte, ainda que empalhada no tempo dos rigores literários, cheira sempre igual. O caixão estava ao canto, branco e pálido. De cor e de pesar. E era de meio metro, o meu.

Esta é a minha a história. Nado vivo por segundos – morto à luz da lei e dos costumes de antanho.

Minto!, que esta é a história da minha mãe e do meu pai.Portas adentro, lá estava eu. Eu e todos eles. Nós todos. Os mortos e os vivos, parados no tempo. Mortos por enterrar. Fugiram-me da morte. Da minha. Aquelas pessoas paradas no tempo. À espera do seu morto por chorar. À minha espera.

A dele, que das entranhas dela me arrancou e me lançou à sorte do chão de pedra. E a dela.

Nasci e morri em 1971.

Era para me ter chamado João.



publicado por Rogério Costa Pereira às 00:11
um blogue que não é um blogue; uma história a duas mãos; um conto pari passu, trocando o passo; a história de João

Cadáveres esquisitos

de XIII em XIII
do Amor
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