Sábado, 11 de Dezembro de 2010

Detive-me. Olhar-me, olhando o microhumano falecido no seu nicho. Por 360º de torção, o meu pescoço espectral esfaqueia de paz esse teatro de me chorarem. Roçar-me nele, roçar-me nela, no pai etílico, na mãe côncava, resumir-lhes a década no fulgurante hiato de mim, daqui, da patética hora inicial a enterrar. Odor a químicos, suspiros de sacristia, arfares e bichanares de velório, fui maquilhado e ressurge a fugitiva carnação carmim de João Por Ser: face, lábios, corpo estirado-egípcio, preparado na alvura tupperware do socavão derradeiro. Imobilidade risonha, suspensa. Interrompida no prazer potencial de longamente afagar o Laboreiro não tido. Ah, fitar com olhos de carne o seu fitar-me súplice por carne! Ah, enternecer-me canino da bravia e selectiva mansidão humana do bicho! Ardem pais por ser pais e outros por não ser, tolhidos se o são. Pairo e vejo: estes dois da recusa de mim singram costas com costas doutros casais ressequidos, casais de brutezas inanes na desesperação das entranhas estéreis, ainda que mil vezes mais miseráveis. Índia. No seio intangível do negro vácuo, contíguo aos entes que são, vejo nítido esse duo que sacrificou num templo um menino de três anos, filho de vizinhos, cerimónia de bruxaria, ritual de fertilidade, paroxismo de loucura. Creram que, pela morte de menino alheio, outro conceberiam próprio, filho negado e renegado pelas próprias vísceras. Kanshiram Nagar, terra ainda verde, no Uttar, já vira de tudo, mas quando Ompal, aborto póstumo, foi encontrado decapitado num templo, com uma de suas mãozitas cortada em pedaços, muitos concluíram ser a vida demasiado curta para todo o asco disponível e todo o encanto suportável. O par seguira o conselho de um homem que se dizia deus, certamente temível e sabedor, carregado de bênçãos e maldições, quando agachado comia ofertado chakli com a ponta dos dedos e, arregalando os olhos, dava a receita. Homem que se anuncie deus e assim passeie pelo Uttar, «só pode ser o último recurso à nossa casta, com os mais piolhosos e ostracizados dos seres, sem acesso à educação para ganhar a vida nem autorização para pensar por nós mesmos». Ompal e eu, João Por Ser, teríamos um belo futuro. Gerado, quisera ser parido pelo desejo destes dois. Parido por obra e graça da natureza, seria já doce continuar ignorante dos seus mistérios à flor do meu merecido colostro. Mas nem um minuto.



publicado por joshua às 12:14
um blogue que não é um blogue; uma história a duas mãos; um conto pari passu, trocando o passo; a história de João

Cadáveres esquisitos

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