Sexta-feira, 04 de Fevereiro de 2011

Pela janela do seu quarto, entregue à aragem que só o casario intrincado da Graça exala, Simão olhou a paisagem fechada à sua frente, nada mais que um edifício pardo, alto, esparsas janelas, ao longo dos beirais alguns vasos tombados, esquecidos, marcados pela pátina do tempo e do desleixo, flores ressequidas, alguma peça de roupa pendia abandonada, recolhendo o afago do último calor outonal. Por vezes, o filho acidental de Ezequiel Telles mergulhava a cismar vagamemente submerso no vozear indistinto da telefonia, melodias de alma que confirmavam, na fatalidade das coisas necessárias, o comodismo e a prudência ordeira portugueses: a canção e o fado canção embalavam o Regime e ditavam o o único registo digno de nostálgico. Privilégio raro, esse, uma telefonia, que o padrinho doutor cardeal lhe concedera a título de prémio só condicionado pelos bons resultados da instrução, o que efectivamente lograra. Passava agora muitas horas no quarto. Estudava pouco. Mas esforçava-se por fazer todas as leituras que pudesse, maratonas de evasão e vocabulário, ensaios de sonho pelas palavras fora. Quem sabe um dia ombreasse em sapiência com o sapiente Leão, espécie de totem tutelar, marcando-lhe finalmente um caminho e ideais de excelência letrada entre latins, teologias e filosofias. Era o seu quarto. Local de silêncio, de confrontação de si consigo mesmo. De pensar muito em mulheres numa embriaguez masturbatória infindável, sequencial, sucessiva. Na verdade, depurava-se, causticava as carnes que cedera sem saber outro caminho, alijava o denso veneno vazado por Ortega, que se convertera, a pouco e pouco, em nada mais que esse espectro vão de que nunca deveria ter passado. Não era assim tão simples. Nunca seria assim tão simples. Dera rumo a Baltazar ao abrir-lhe culpa e paradeiro aos outros, ao policial. Isso doía-lhe. Escolhera salvá-lo, ao bisonho protector, daquela ambiguidade sempre pronta a secretas violências de zelo em atenção à sua pessoa, mas nunca soubera se fora mesmo capturado, exilado ou até morto, pois não era homem para se consentir em gaiolas, apresado como mercadoria. Na verdade, um ano antes, Seabra e os dois pides haviam efectivamente navegado nos ondulados caminhos campestres de terra batida que bordejam Cardigal, entre milheirais ressequidos e avenidas sombrias de frondosos pinhos mansos cinquentenários, à procura da taberna do Badalhoco, perdendo tempo, aqui e além, atascando o automóvel que paralisava nos trilhos semi-enlameados que gerações de bois e de homens haviam sulcado. No ar, um aroma terroso, a erva agreste, a buxo silvestre. Ao longe, o bruxulear indeciso de lâmpadas e lamparinas, nos pequenos aglomerados de casas, competiam com as estrelas, numa noite onde a Via Láctea resplandecia, ovas desentranhadas de um grande peixe rasgado, petrificado, no imenso oceano cósmico. Encostado a um grosso pilar de madeira, na tasca do Badalhoco, efectivamente, Baltazar titubeava, ébrio, afastado agora dos jogadores nos últimos transes do dominó, antes de recolherem às suas casas. Fantasiava fazer sangue e banquetear-se do terror infundido, como última coisa que vissem. Imaginava como, numa fúria imprevista e sem sentido, liquidaria todos aqueles inúteis, um a um, ali, no lusco-fusco, digladiando-se ao jogo, pagando-lhe jarros de vinho apenas pela covardia de não trocarem palavra com ele, Adamastor recalcado. Não tinha amigos. Mas tinha o seu facalhão. Outros usassem a covarde moeda burilada e mais cortante que qualquer lâmina, recurso covarde de ajuste de contas nas feiras e nos despiques de homens. Tê-la e ser apanhado com ela era ordem de prisão. Óbolo traiçoeiro, muitas mortes se fizeram assim, vítimas consumadas sem prova e sem castigo, de repente por terra agarradas ao rosto ou ao gasganete, em caso extremo, sem grito nem palavra pronunciada que denunciasse o agressor. Depois uma morte breve, rematando em consolo e sossego, breves estertores num corpo exangue. Golpe traiçoeiro que desfeia o rosto, jugular aberta nos convenientes apertos grosseiros da multidão de paus e de homens aglomerada nas feiras, ajustando preço de gado, pichel de tinto. Feita a morte, a discreta moeda assassina era atirada ao pó e siga com o viver que é dívida resolvida, honra vingada, cornos compensados. Lá fora, os três pides. Seabra, Simões e Sampaio, assomavam certos de que, andanças andadas, o Badalhoco só poderia ser ali. Era. A coisa deveria ser tecida com refinamento e absoluta prudência, pois a presa tinha calibre e notória periculosidade. Lá dentro, Baltazar ébrio, abria o rasgão de um sorriso alarve, amarelo, abandonado, afastara-se dos transes vocais das últimas jogadas de dominó. À distância, continuava a conceber fantasias de sangue. Com que prazer de terror lhes disferiria a morte, a esses covardes, que lhe pagavam jarros de vinho em troca de não lhe dirigirem qualquer palavra, qualquer convite, relegado Adamastor sem Tétis, hermafrodita rocha, a que se abraçasse nas longas noites vazias. Foi Simões quem ficou incumbido de se dirigir ao bojudo tasqueiro. Penetrando no antro, pediu vinho e, sob o pretexto de uma notícia familiar urgente, historiou-lhe uma necessidade discreta qualquer, intimou-o, persuasivo, a sinalizar ali esse Baltazar desconhecido pelo qual vinha a mando alheio. Entre chouriços e garrafões de vinho amontoados, no lusco-fusco que ressaltava o negrume das paredes e do vetusto travejamento onde um magro presunto semi-desossado baloiçava, o tasqueiro, lúcido o suficiente para perceber a má casta daquele inquiridor, dardejou um discreto movimento de olhos clarificador. Simões voltou a sair, entornada a tigela de tinto que lhe tingira os lábios e enodoara o colarinho. Rodando um olhar desprezivo e estudioso pelo interior, abalou. Dentro, só os mais sóbrios estudaram o vulto forasteiro, regressando à jogada depois de menearem a cabeça interrogativos por um esclarecimento do Badalhoco. Nada. Cá fora, no veículo, os três conferenciavam. «Isto tem de ser feito à distância, evitando a manápula desse matador de invertidos.» Por Sampaio, um sádico por lapidar e verdadeiramente impressionado com a limpeza daqueles doze sodomitas, era irromper já pela taberna e cair de chofre sobre o fulano que haveria de ceder sob as rijas pauladas, os pontapés, os socos e a punção soporífera do chumaço de chumbo, farto daquelas doze horas campestres, ridículas, e aspirando a que ainda nessa madrugada afundasse a grossa e voraz porra entre as suculentas pernas da sua fogosa e insaciável fêmea Cármen. Simões, muito austero e com misteriosos pudores e repugnâncias carnais misteriosas com mulheres ou homens, estava por tudo e em geral seguia o parecer do chefe que, ali, era Seabra e determinava cautela. Simões era pela cautela. A noite avançava. Um levíssimo fio de lua, fino e agudo como a foice mais afiada, depunha-se no horizonte enquanto um denso odor a pinho largamente inspirado infundia qualquer complementar doçura espiritual indescritível que só os ares sinestésicos do sul conferem. Após a saída, um após outro, dos frequentadores do Badalhoco, assomava finalmente o volume sombrio, desajeitado e cambaleante de Baltazar. Apenas deu um ou dois passos toscos, logo se acenderam faróis, despejando sobre ele uma massa de luz acusadora. Em reflexo, um zunido agudo eclodiu-lhe bem dentro do cérebro. Levantou o braço para conter a ofuscação até acomodar o olhar ao veículo enquanto três portas se abriam em cânone e depois batiam numa cadência seca de tiro descompassado. Dos três vultos, um veio postar-se sete passos à sua frente. Um cartão indistinto brandido e o epíteto identificador, abriu os lábios numa voz arrastada e regougada: «O melhor era o sr.... Baltazar, não é?!... O melhor era o sr. Baltazar levantar os bracinhos, manter-se pacífico e preparar-se para acompanhar-nos a bem.» Baltazar abriu um sorriso insolente, mostrava as palmas invitativas, convidando-os à ousadia de se aproximarem. Simões e Sampaio deslocavam-se lentamente, ladeando-lhe os flancos, garroteando-lhe quaisquer linhas de fuga ou de avanço desprevenido. O primeiro com um pequeno chumaço de chumbo revestido de couro almofadado, óptimo para fazer adormecer, o qual afagava; o segundo com um bastão lavrado em conciso azinho, peça que embalava ironicamente como a um bebé; Seabra apalpava ostensivamente a arma. Baltazar estava pronto para triturá-los com as suas mãos nuas. Não queria nem amava outra coisa senão brincar com aqueles três de ar tão citadino e funcionarial. Seabra pensava no castigo que teria caso falhasse. Media a oportunidade de investir certeiro sem subestimar a arte possante daquele que, presumia-se, degolara e castrara doze. «Antes ele que eu nas ressequidas ilhas de África.» Não queria suscitar, naquele lugar, com o deflagrar de um disparo preventivo ainda mais curiosidade somada ao medo local ou quem sabe uma invasão de linchamento. Por isso, apontando com o queixo, ordenou que se preparassem para qualquer coisa de mais drástico. Nada de desperdiçar golpes. Teria de ser qualquer coisa de exacto e económico, aproveitando a natural turvação dos reflexos daquele. A um sinal, investiram os três. Seabra com uma negaça. Simões e Sampaio batendo rijos. Baltazar ainda agarrara o sólido bastão de azinho, mas duas pancadas do chumaço na nuca e esse Adamastor, pegador de touros e amante de homens, tombava desacordado. Mais trabalho tiveram em arrastá-lo para o automóvel, depois de bem amarrado e amordaçado.



publicado por joshua às 23:24
e compacto

fragrância tem pouca
bolas qué longo a 22 de Maio de 2011 às 02:10

Então esta história morreu?
Ana a 3 de Junho de 2011 às 09:35

Voltaremos assim que outros afazeres nos não torrem os cérebros e que alguma dor imprevista se deixe sepultar no oceano do nosso subconsciente.

um blogue que não é um blogue; uma história a duas mãos; um conto pari passu, trocando o passo; a história de João

Cadáveres esquisitos

de XIII em XIII
do Amor
Google Groups
Adira à mailing list e receba os capítulos antes de eles serem escritos
Email:
Veja o grupo por dentro