Domingo, 30 de Janeiro de 2011

Era uma segunda-feira.

Ortega, vindo dos infernos, entrou pelo quarto de Simão adentro e atirou-lhe com um jornal à cara. Assim o acordou, assim lhe perguntou: – Foste tu que escreveste isto, Cabrão? Simão, já nada estremunhado, tal o estranho por rever o seu carrasco, ergueu o diário e, com surpresa, viu escritos os pensares que, com tanto afinco, guardava. Com chamada de primeira página, sob o título “Correio de Leitor Ignoto – um caso de polícia”, e entremeando estranha imagem, assim se dizia:

 

«M. Ortega: descrente que mas publiquem em jornal de tamanha tiragem, dirijo-te estas palavras sabendo que o faço a alguém cujos neurónios entraram em guerra fratricida e bastarda ao ponto de só te restar um (o mais escasso e ligeiro) — lamentavelmente, o que te sobrou está meio metro acima do habitat natural, desfruta de cauda acelerante e tem como ambição única irromper em merda por cagar. Ciente disso, mas porque te quero mostrar ao mundo, avanço.

Perante o espelho aldrabão que te dá as trombas a ver, munido do tal espermatozóide mascarado de neurónio, ousaste querer fazer a minha história. Por fortuna minha e essência tua, não o conseguiste. És uma espécie de rei midas da merda: transformas em trampa tudo aquilo em que tocas. Fui a excepção à tua regra, não me pudeste assemelhar à tua essência estéril. Entraste em mim, mas não pela alma.


És uma peçonha, sim. Porém, essa dor que te atenta e que tentas, para te aliviar a mágoa, passar para os outros, nesse corrilho que lideras e de que me fizeste sócio, esse beliscão na alma que não tens, são só teus. Olha para trás. Olha para o teu reles viver e para tempo que levas desde o nascer. Traduzes-te num zero abaixo da nula referência. Algo numericamente impossível. Não chegas a ser nada, portanto. Um dia que te atinjam com um espelho fiel, morrerás em agonia — envenenado pela verdade que a representação te dá.

O teu problema, bobo das cortes dos meus tempos, é que tu próprio não receberás dos teus apaniguados mais do que o do vento malcheiroso dos cus que profanaste.

No entanto, verdade seja dita, estás cada vez mais acompanhado – não partiram o cabrão do molde. E pudeste deixar apóstolos. Que farão por fazer a outros o que me fizeste a mim.

Porém, nem eu sou Quixote nem tu és moinho de vento. Ousaste pensar que tudo ficaria assim? Menosprezaste-me!, serei o teu degredo, professor!»


Simão, sereno, ergueu-se – ia de cãs, porém, o gaiato de quinze anos –, e olhou aquele corpo sem-cabeça que, de pé, se rastejava pela barriga. – Não, garnisé, sendo minhas, não são minhas estas palavras. Fizeste demasiados inimigos. Agora sai do meu quarto, como há muito saíste de dentro de mim. Em menos de um ai tenho aqui quem te mate, se eu próprio não o fizer. Foge enquanto podes, infame. Fá-lo por mim, que a tua vida é minha. Deste desabafo impresso que me atiraste à cara, retiro que tenho concorrência. Matar-te ou mandar-te matar já aqui seria como perder-me por metade. Foge de mim, cão, e esconde-te de quem tão bem te relatou. Dou-te um ano de avanço. E faz por te manter vivo, criatura do demo, que como me quiseste para ti, quero-te agora só para mim.


Quando Brigantia entrou, estranhou a janela aberta. Que se havia peidado, disse-lhe Simão. E por ali ficou a história, com Simão a tentar adivinhar quem seria o seu competidor. Dois matadores e um só homem para matar.



publicado por Rogério Costa Pereira às 10:00
um blogue que não é um blogue; uma história a duas mãos; um conto pari passu, trocando o passo; a história de João

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