Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011

Seabra entrou. Do lado de fora dos pesados portões em ferro trabalhado, ficaram dois pides, um ao volante, outro de pé, este entre o automóvel e a entrada daquele Hades religioso, estático querubim barrigudo. Imóvel, olhos semicerrados, segurava bogartianamente um cigarro, de gabardina cinzento escura entreaberta, uma mão num bolso com o polegar de fora, à ilharga, a arma assim insinuada. Ambos galfarros expertos no terror sobre comunas efectivos ou putativos e viciados nos calafrios de medo induzidos em quem os reconhecesse de tão desconhecidos, fitando muito, por estarem gastos ou absolutamente recentes nas suas aparições indesejadas, mãos no cachaço dos caçados, afagados a pontapé, metidos dentro, um carro, dois, metidos à Hollywood, em alta velocidade e, mais tarde, no mormaço apertado entre hálitos estranhos à hiena humana que abocanha carniça estilinista-leninista e não larga, engolindo em seco, aquela entrevista de vida ou de morte no buraco da verdade. Na safra das denúncias por inveja, ciúmes, ou qualquer outra razão portuguesa, incluindo a captatio benevolentia benfazeja da Situação, não havia mãos a medir e, à força de persuasão musculada e paciente, lá se ia andando, cantando, chorando e rindo, que a sementeira ideológica vermelha recrudescia, mais madura e vigorosa agora que o velho ditador mais se crispava tanto quanto encanecia. Ao chá oferecido e aceite por aquele obscuro inquisidor, como no seu passado pinóia, Brigantia desejara ter à mão um feitiço de olvido ou um alçapão que o perdesse ou obnubilasse, quem lhe dera deter vivazes tácticas velhas de seduzir, levar aquele chefe a um coito preventivo capaz de o consolar, amenizar-lhe aquele frémito ameaçador, mas o caso era grave e o medo ladrava-lhe dentro, convidando-a à prudência, nada de estratagemas de fêmea, insegura aliás de argumentos demasiado vis e ressequidos. Sabia estar Baltazar no cepo porque embora o Regime fosse subliminarmente grato ao esquineiro por aquela velha e sorna limpeza de pervertidos, panascas, quando sóbrio, era ao mesmo tempo imperativo um controlo de danos que cerceasse a expansão demasiado evidente e falada desse mal higiénico, pois se uma sociedade moralizada nunca poderia albergar rabetas tampouco suportaria assassinos igualmente rabicholas convencidos de ser machos inigualáveis. Afinal, aqueles degenerados mortos provinham das melhores famílias, que diabo. O menino já descia. Ou rapaz, coisa em que por longos minutos de silente colóquio, Seabra hesitou por dentro. A sós, por favor, exigiu com veemência:

– O senhor Simão terá de compreender ao que venho.

Quem não deve não treme menos. Simão não tinha nada que lhe pesasse, nem maçã roubada, nem chouriço furtado da mercearia, nem vidro partido por bola de farrapos rematada estouvadamente. Nada. E não suspeitava o porquê daquela inquisição:

– Compreendo mal. Diga-me o senhor...

– Chame-me Seabra, agente policial!

– ... Pois... diga-me o senhor Seabra.

– Você sabe que esses doze fidalgos... esses mortos, o conheciam bem, não sabe?

Certamente Baltazar esmerara-se no rapto e liquidação, um a um, de esses frequentadores de rapazes, penetradores do seu Simão. Se não podia tratar do coiro curvado do Miguelito Ortega, trataria dos demais devassos, ele que conhecia a peçonha viciosa por dentro para a poder odiar ainda com maior veemência e fervor. Aquela submissão indigna e asquerosa, sabendo bem o que era e o que não era, não a poderia perdoar pelo filho do senhor morto, Ezequiel Teles, tão solene e tão viril, tão limpo de beatices e cínicas duplicidades. A arte laminada das suas sevícias e o tratamento final não deixara muitas dúvidas aos homens que espreitavam o crime. Nunca se sabe. Há sempre imitadores escrupulosos destes artistas. Em todo o caso, uma palavra dada pelo rapaz e a sentença ficaria lavrada, pequena confirmação para que tudo se tramitasse pelo melhor.

– O menino servia-lhes de pasto, não era?! E o seu tutor, onde pára?!

Era. A atracção por moças, mulheres, fêmeas, latejava-lhe fortíssima, nesses dias de inusitado sossego, numa definição ainda mais intensa, feromonas de Brigantia exameando os ares do habitáculo. Reconhecia que lhes servira e porventura serviria ainda de pasto se não fosse forte, mas mulher isso não era ele. «Eu não sou mulher, agente Seabra! Não sou. Já não sou!». Fechava-se o cerco. Baltazar liquidara tais fazedores de mulheres, tais inversores de homens. Era necessário que parasse de matar.

– Não lhe façam mal.

O torcionário e o rapaz fixaram o olhar num passe do mesmo estupor silente com que primeiramente se haviam encarado, antes de o rapaz baixar os olhos e irromper a fungar lágrimas ranhosas, despedida de criança. Na verdade, um zelo cego movia Baltazar pelo seu tutelado e por isso farejava cada recanto e sabia-lhe o rasto e quem dele e dos outros fazia repasto. Simão sabia-se seguido e sacudia o embaraço em transito para o antro de chocolates e sodomias. Essa filigrana de medos semeada pelo Regime dera uma objectividade rara ao quotidiano comum e ao mesmo tempo que um cansaço engendrava aspirações libertárias confusas, disciplinara também os corações sob a providencial paternidade do sexagenário Oliveira, o santacombadense, aliás, não queria mais que reunir sob as suas asas esse mar de povo cansado de pensar-se. Ele pensava por todos eles ao dar preventiva caça ao génio do mal comunista anticristão. Baltazar, sem o saber jamais, agia pontualmente como agente pide porque de quando em quando limpava perversores, panascas, enrabadores de putos, coirões, depois de os comer à canzana, óleo vertido sobre cóccix, depois de os seviciar com artes torcionárias, coisa e requinte que nem uma polícia organizada engendraria. Belo exemplo de como limpar Lisboa com tão discreto denodo e eficácia de paradigma. Houvesse mais como ele para seduzir certos intelectuais menos dados à paroquialidade regimental. Mas era hora de fechar a complacência com o touro Baltazar. Seabra estava ali para estancar o mal útil ao Regime, o mal benéfico aos costumes. Matá-lo, não. E muito menos ainda se se desse o caso que o moço Simão intercedia por ele. Executá-lo seria simples. Complicado somente era gerir remorsos em bons católicos executores, demais a mais uma ingratidão por tão estrénuos serviços. Exilá-lo, sim. Havia, de resto, desde 1936 um lugar de descanso e educação para simpáticos dos soviéticos. O mais temido. Aquele cujo nome gerava um engolir em seco por ser um misterioso abismo por onde se sumiam obnubilados opositores e descomportados. Um sítio precioso no Ultramar insular africano e que daria uma belíssima arena de persuasão corpórea. Ali, o esquineiro poderia amar os comunas que quisesse e complementar aquela formidável e inaudita pulsão sádica com a mais garantida paz de espírito com tanto mar e tanta sede, tanto mar e tanta fome.

– Claro que não. Não lhe tocaremos com um dedo, se o pedes. Mas ficas a saber que ele vai viajar. Fica tranquilo. Talvez nunca mais o tornes a ver... Está bem assim?

Simão era sensível somente àquele vulto que sempre calado velava por ele, lhe dera a estalada da regra, lhe trazia romãs a partir de Setembro, lhe mostrara pássaros esquisitos de passagem, o sítio onde ovos pequeninos de melro aos três e quatro adormeciam nos ninhos silvestres, recordava as amoras e os espinhos para as levar para casa às sacadas, o baraço de arame com que caçavam láparos à boca das tocas, aventuras de silêncio, conversas todas feitas com os olhos vivos de um e brutais do outro. Ora, impunha-se uma localização do eventual e conveniente castrador K-12, profilaxia de um k-13. «Cardigal...», balbuciou Simão. Muito bem. Colocou o chapéu. Acenou. Saíu. Transpôs o portão. Ao reentrar no automóvel, disse logo ali com raiva: «Cardigal, Cardigal, onde caralho é Cardigal? Ó Simões, vais telefonar ali na esquina para os serviços centrais e pergunta-lhes isso a ver se terminamos estar merda ainda hoje.» As tabernas limítrofes conheciam bem a capacidade de acomodação vínica de Baltazar. Por temor e assombro, não faltava quem lhe oferecesse um jarro de tinto, e as proezas vinárias sucediam-se, entre umas lascas de lombo assado embebidas no molho das bifanas ao lume, metidas num enorme pão de tipo alentejano. Encostava-se a ver o dominó ruidoso dos outros, com ele por perto mais comedidos, a ver passar as horas até que escurecesse, por vezes um sorriso rasgado de ébria e inexplicável alegria e nenhuma palavra a viv'alma. Entardecia, quando os pides assomaram a Cardigal, foram directos ao assunto à primeira velha com um fardo de gravetos que se lhes deparou. Uma cor rósea sagrava o poente, onde farrapos de nuvens reflectiam as labaredas do último sol, cujo disco hemisférico afundava já entre pinheiros mansos, ofuscando docemente o olhar que o lambesse. Mantiveram os faróis acesos, a ignição viva:

– Alto, mal-encarado? Não sei bem. Ó Jaquim, Jaquiiiiiiiiiiiiiiiiim!

O Jaquim, que estava alapardado do lado de lá do muro doméstico rente ao foçar ruidoso dos porcos e ao cacarejar esganiçado das galinhas em cujas cloacas odorosas gostava de se roçar quando ninguém estava a ver, veio mancando e peidando ao berro da sua velha e, enquanto coçava vergado o toco de osso que tinha por perna, pôde explicar-lhes, servilíssimo, que encontrariam tal indivíduo descomunal na outra freguesia, na Tasca do Badalhoco. Era fácil, bastava perguntar. Se não estivesse lá, perguntassem a um passante. Havia mais tascas na região. Era só peregriná-las. Outro paradeiro não saberia dar-lhes.



publicado por joshua às 11:39
Que ideia extraordinária. A blogosfera mostra-se uma surpresa a cada dia que passa...Joshua, um personagem multifacetado em mil rostos e vários blogues. Vou seguir este a quatro maos. Tenho só que ir a trás para apanhar  o fio à meada
George Sand a 17 de Fevereiro de 2011 às 20:50

um blogue que não é um blogue; uma história a duas mãos; um conto pari passu, trocando o passo; a história de João

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