Domingo, 23 de Janeiro de 2011

Interrompo por instantes estas memórias que João (lembram-se dele?) nunca teve, para tomar de peito o K-12 e contar de como Oliveira ordenou às suas polícias prioridade absoluta na resolução desse assunto. Embora o assassino designado pelo regime tivesse sido devidamente arrecadado, o verdadeiro capador ainda andava a monte. De ânimos já civilizados pela segurança gritada pelos jornais, um décimo terceiro castrado seria visto pela bicharada como uma racha no regime

Seabra Cavaco, já entre as suas vinhas e vinhos do Douro, foi arrancado à aposentadoria e orientado para a questão. Possuía fama de incorruptível e infalível, o sujeito. Tinha de excêntrico o facto de ter mandado gravar em todos os seus cartões, e mesmo no seu distintivo, sentença que ele mesmo, guarda-do-guarda, mandou transitar em julgado."Para serem mais honestos do que eu têm que nascer duas vezes". A mesma fama, a mesma frase, que maldisse quando a mulher lhe gritou o nome da janela. Que o senhor presidente estava ao telefone. Correu para o telefone em espera, maldizendo as pernas que lhe demoravam os instantes. A sua vontade, porém, corria no sentido oposto. Assim chegou Cavaco ao telefone, assim lhe chegou o desejo à estação de comboios – Um bilhete para Paris. Diria. Diria, mas não disse. De telefone na mão, o Cavaco das pernas que correm desencontradas recebeu as instruções. Que escolhesse os seus homens. Tinha um mês para descobrir o K-12. E tinha um minuto para impedir o K-13. Se uma ou outra coisa sucedessem, tal seria compreendido, asseverou Oliveira. Afinal, o tempo corria contra o relógio. Um relógio com doze ponteiros dos segundos a empurrarem-se ordenadamente uns de encontro aos outros – Não te preocupes, Cavaco, se a coisa correr mal tenho já aqui forma de te redimires. Um tal de Amílcar Cabral, de Bissau, andava há meses a pedir um emissário da metrópole. “Peço homem honrado com quem se possa conversar sobre o futuro”. Cavaco mijou-se; ainda só era 1955, mas até no Douro já se sabia o que realmente queria esse Cabral.

Em menos de um fósforo, Cavaco estava às portas de Lisboa. Sejamos claros, Cavaco estava à porta onde o seu faro de homem nascido vez e meia o tinha levado, após se inteirar, junto de quem por lá andava e lhe devia vidas de honra, de como andavam as coisas pela cabeça do império.

Tocou duas vezes à campainha. Era um homem religioso, Cavaco, e custava-lhe estar ali. De olhos cerrados, olhou os céus cor-de-cinza e pediu que viesse um qualquer criado que lhe dissesse que o Senhor não estava em casa. Pensou duas vezes e lembrou-se que não ia à confiança, que em boa-hora havia escolhido hora em que Frutuoso haveria de estar a dar a hóstia, ou outra coisa qualquer!, aos seus tutelados. Porém, a verdade é que nem Oliveira entenderia que ele, de todas as portas de Lisboa, houvesse escolhido aquele portão de grades para bater. Mas, como nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, ia certo que era por ali mesmo que havia que começar. Levava três nomes, todos recomendados pelo seu delfim e sucedâneo, Lopes Santana.

Ortega, Baltasar, Brigantia.

E mais um!, este sussurrado ao telefone com o velho código numérico que ele próprio havia inventado e ensinado a Santana. 23128844411. Assim o ouviu, assim o converteu em língua de gente; tremeu! – 23128844411? Uma pinóia, Santana, mangas comigo! – Que não, que não; que pela sua saúde e honra e por tudo quanto lhe devia; De Santana para Cavaco; E que começasse por aí, pelo 23128844411; Na morada já dada. Cavaco tremeu e começou a ver-se em Bissau. À mesa de Amílcar. Como entrada.

- Sim?, ouviu da boca duma desgraçada desengraçada de mamas caídas que se lhe apresentou por detrás das grades do portão. – Boas tardes, senhora Brigantia [que faro!], é esta a casa do Cardeal Frutuoso, positivo? Chamo-me Comissário-Inspector-Reformado-Cavaco. Hei-de querer falar consigo mais tarde, mas para já abra-me este portão, que venho de mandado passado pelo Comissário-Inspector-Lopes; E traga-me o menino Simão [23=S; 12=I; 88=M; 444=A com til; 11=O].

Ambos tremeram. Ela por ela e pelo menino; ele por causa dela. Cavaco, anjo do céu, t(r)emeu o estranho tremer que cheirou em Brigantia e, contra os seus purgantes e habituais costumes (estamos, não o esqueçamos, perante o mais sério dos homens), palavreou o que um dia houvera visto escrito numa placa duma Igreja herege: – Tende calma, senhora, por vezes Deus deixa a tempestade destruir, outras vezes deixa a criança acalmar a tempestade; Chamai Simão e dizei-lhe apenas que tem Cavaco ao portão. E não me chameis tempestade.

Brigantia nem tugiu. De peito Nobre e cara Alegre, correu que nem Coelho, fazendo de conta que acorria ao apelo do suserano do Lopes.



publicado por Rogério Costa Pereira às 10:00
um blogue que não é um blogue; uma história a duas mãos; um conto pari passu, trocando o passo; a história de João

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