Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2011

Oliveira meteu-se a observar o amigo cardeal enquanto, numa espécie de halo ou borrifo luminoso purpurado, o visitante deslizava dali. Pela janela, afastando com o indicador a suave cortina, pôde, com um certo gozo, medi-lo enquanto entrava na limusina do Paço Episcopal, dobrando-se todo, ágil, como se fosse rematar uma bola imaginária, logo desaparecendo dentro, com o chauffeur de cabeça servil de fora, aguardando, a luva branca manchada ou desbotada segurando a porta, robusto e grisalho, ali, especado, depois batendo com ela, metálica, seca; depois entrando ele pelo lado da sua competência; depois a ignição; depois o arranque, o deslizar lento, quase contemplativo, pelo macadame. Estava mais velho o douto e viajado clérigo, constatou o santacombadense. Um peso misterioso avultava do seu olhar triste, fatigado por este mundo e pelo outro, mal disfarçadas olheiras, a pele macilenta de níveo círio, marcas de quem se mortifica de vigílias. Suspirou. «Velho peidorrento! Um bom caralho é o que é!, coitado! A velhice já lhe ronda a virtude!» O Presidente do Conselho embrenhava-se meticulosamente nos trâmites da História Nacional, matéria regulada e reguada. Sabia que envelhecer azedara génios políticos e estropiara as melhores esperanças de bem mandar. Por causa disso medrara em Portugal a cizânia do caos, desorganizando-o, adiando o reencontro místico entre o nosso feitio lírico e a nossa bonomia natural, prática, laboriosa, o melhor que nos ficou dos romanos. Este é um Povo que da vida ambiciona só a ociosidade da Ilha dos Amores, escola devassa de um poeta que perdeu as estribeiras: só ele para imaginar uma ilha sexual onde os nossos marinheiros têm coitos com angélicas mulheres, se deitam com ninfas, com deusas. E é isto a dissidência hoje. Querer a Ilha como prémio de absolutamente nada. Haveria por força de domar esta pulsão, ensinar o amor ao trabalho, acostumar esse desejo de ócio nos mares longínquos ao que a terra provê e ao realismo dos gastos, da vida habitual serena e humilde. A república trouxera anacrónicas paixões e contra-paixões, tanto se forcejou copiar e transpor das franças modelos incompatíveis com a velha humildade merceeira com que fomos à Índia e por lá ficámos, quando outros chegados depois de nós de lá já saíram. Voltara a sentar-se no seu cadeirão maciço e retirava agora da gaveta, fechada a duas chaves, ilustrações com mulheres dentro. Babava que se perdia com a inocência das ninfetas. Todas as suas poluções nocturnas e diurnas, todos os seus zelos encaminhava-os para o angélico feminino, sobretudo quando, calado, dava-se contemplar essas meninas que certas senhoras sociais faziam questão de lhe apresentar a fim de que as abençoasse ou as desejasse ou as visse viçosas no caule virginal, esses lírios fecundos sobre os quais haveria de assentar o Portugal com que sonhou. Por dentro bem que emporcalhava de lubricidade essa pureza, mas isso era o seu segredo, a sua fraqueza. Misérias. Soubera a saga romanceada de Dolores Haze. Chegara-lhe às mãos excertos da suculenta narrativa transgressora do escritor russo nos states. «Que transe de génio! Delicioso crime! Pungente verdade!» Verdade sobre a mais contundente das duplicidades! Quem lhe dera esse adentramento na fundura refusiva de uma moça adolescente como Dolores. Sabia que a violência do mando era puro gozo, uso de todas as armas da coacção para adelgaçar recusas, para dobrar caprichos. «Como é que ele se chama?» Isso! Nabokov, lembrava-se. Conversas oficiosas de embaixada! «Não pode, não deve ser comuna! Ah, perverter tenta porque é arte, é o belo interdito. Não é fácil resistir ao ápice do prazer: nada mais que a arte de domar cavalos humanos, constringi-los, confiná-los. Pudesse ensaiar um desvio da norma derramada do confessionário!» Sonhava e dormitava. A tarde caía. Sentia-se mais satisfeito a despachar sem ter de atender aqueles visitantes ponderosos, sem ter de fabricar conversas ou, pior, escutá-las nos monólogos em que se transformavam tantas vezes. Era sempre a mesma coisa. Chegava e sobrava o seu telefone para verificar a magna murmuração correctiva dos costumes e das ideias daninhas, em devido tempo posta a rolar, com a qual, pelo bem e pelo mal, se ceifavam comunas tresmalhados, bombistas, terroristas, boicotadores, apóstolos de uma propaganda ratazana, resistente pachorra de ir andando a minar o País de um minar pequenino, mas também se fabricavam ostracismos cirúrgicos, fontes de desmoralização em espíritos demasiado livres onde ainda havia espaço para o medo e a prudência. Contentava assim os americanos e mantinha são os ares domésticos. Suspirava! «O meu combate é por Deus, os portugueses percebem-no e se não percebem eu ajudo-os. Não foi por acaso ter nascido!» Achava-se bom samaritano de um País a quem faltara pastor por demasiado tempo. Ele, o ungido, anunciado por Bandarra, preparado por Pascoaes, garantido por Vieira, humilde, casto, viril, misterioso, taciturno, mostrara já o caminho e continuaria a mostrá-lo. Um pouco de medo, um pouco de honra incutida, trabalho, simplicidade e bolinha baixa. Não era preciso mais. Pena que no ano da graça de 1955, na flor desbotada do Outono, estas revistas ilustradas de mulheres não sejam ainda revistas com mulheres, mas isso trata-se. Estimulavam-no. Pecado, diziam os padres. «Um pouco de cor e sensualidade, qual seria o mal? Para quem goza da virtude da fortaleza não haveria mal nenhum.» Era dia de consolo por sua mão. Uma saída furtiva à retrete do palácio do Governo e aliviar-se-ia. Era costume. Primeiro, fezes. Depois, sémen. Dava-lhe gozo o secretismo misterioso das duas necessidades justapostas, mas não sobrepostas. «E quem seria, como seria esse Simão?» Estranho o arranjo do cardeal, um sobrinho-afilhado com catorze anos. Catorze perigos. Gostava de conhecê-lo, sentir-lhe o carácter, ver se a têmpera portuguesa, generosa e humilde, desponta nele, se sabia as declinações, ou se, pelo contrário, eram as leituras perversas a moldá-lo. Esses funcionários de Igreja asseguram a virtude da obediência do populacho grunho que a Virgem de Fátima fez o favor de reunir em redil comportado, garantem-lhe as qualidades morais da submissão, respeito, temor bíblico, grande profilaxia do fogo do Inferno dado de graça a quem recuse dar a este César o que a César é devido. Tudo. Deus sempre se contentou com pouco, vidas miseráveis, onde o banho rareia e o ranho é o segundo líquido amniótico, as unhas sujas escriturárias de regos à sachola, ignorando outras escrituras, outras leituras, que semear, colher, fornicar e parir. Comovia-se com a simplicidade do português prático, enfatize-se, ignorante, mas repleto de sabedoria para os gastos e para as fomes, capaz de sobriedade e de fome, no único e sagrado tabernáculo familiar. Adiante do gabinete à esquerda, ao fundo do corredor, Oliveira sentara-se no cubículo por sua higiene. Um odor a sabão comum, verbena e lixívia fundia-se no ar, dando embora lugar ao fedor sólido que mergulhava sonoro, liquidescente, no vaso, digerido pastel de nata, digerida saladinha, o robalinho, certamente os espargos, os grelos, sempre com pressa de sair. Horas de ouro, aquelas no seu cubículo filosófico em homenagem às suas entranhas patrióticas, merdíferas vias. Uma revista na mão, um jornal ao pé. «Os óculos, porra?!» Deixara-os no gabinete. Costumava limpar-se a O Século, um jornal dócil e mais ainda a respectiva emanaçãozinha Ilustração Portugueza. Tinha boas páginas acetinadas para a delicada hemorróida. Não havia melhor nem mais macio. Na alva ceroula esmaecia, em tom cinza leve, caracteres da tinta de impressão. Na grossa cueca, à frente, um halo acastanhado, palimpsesto de urinas, associava-se harmoniosamente ao halo amarelo incolor das suas secreções seminais. Não era de muitos banhos nem de grandes trocas de roupa interior, mas não falhava nas horas mais críticas com uma higiene impecável, o corte correcto e a face sempre escanhoada. Nas outras horas, o asseio era um estado de espírito. Terminara. Limpara-se. Agora, de pé, calças descidas, cuecas em baixo, ceroulas também, faria o gosto à mão. Pernas ligeiramente abertas, sacudiria espasmódico, frenético, o seu bastão solteiro por Portugal. Agitava-se. Mulheres como relâmpagos invadiam-lhe o cérebro, as tidas e as por ter, a pele delas, os rubros lábios. Uma avulta. Tira-lhe a blusa, e esgalha, afaga, corre a pele do prepúcio para trás, estica a glande, desespera com ânsias e pressas, olha e cerra as pálpebras para sentir melhor, agora os seios imaginários, beija-os, dá-lhes língua, desce, toca, o umbigo, imagina as mãos nos quadris túrgidos, nas nádegas que imaginariamente enclavinha, corre imaginariamente os dedos pela seda das carnes docemente interditadas. E pronto. Fora rápido. Nunca soubera mais que preliminares consigo mesmo, mau prenúncio, e poluções nas calças quando com elas, tão requisitado era para roçar-se nelas, nos retiros, nos serões, nas festas sociais, escondido num recanto qualquer e logo entregue a um platonismo repleto de vestuário e de saliva mal drenada. Entretanto, Simão atravessava horas foscas. Passava mais tempo com Brigantia como havia muito não sucedia, instalados à pressa nas faldas e imediações do Paço Episcopal. No vai-e-vem para a Instrução, falava mais vezes com o Padre Leão, ficava extasiado com a sua sabedoria e tinha umas ânsias de santidade à imagem daquele homem simples e intenso, magnético e sólido. Em casa, na solidão daquelas horas com livros, tarefas, sossego, e graças àquela espécie de interrupção que o padrinho fizera às rotinas do velhaco Ortega, uma paz aliviada jorrava novamente. Desejava limpar-se do visco com que o haviam conspurcado tantas vezes. Sonhava por evasão e perfeição. Eram as primeiras brumas do Outono. Interessava-se por tudo o que o padre lhe ensinava, em colóquios de enorme liberdade e espontaneidade: música, liturgia, teologia, filosofia, e com ele adorava aprender e cantar os compositores sacros da liturgia, como César Franck, que lhe limpava as entranhas, lhe desentranhava lágrimas e frémitos de alma nas mãos frementes, peças como o Pannis Angelicus, versos longínquos de São Tomás de Aquino. Leão insistia em que o amor autêntico se baseava em opções ponderadas e realistas feitas de longos e pacientes diálogos e Simão, se bem que se agradasse cada vez mais com as moças da cidade, de passeio com as suas mães, e sentisse calores com os olhares reciprocamente dardejados, do que gostava mesmo era de saber mais, cismar, sonhar. Leão dizia que era necessário distinguir emoções fugazes e passageiras de paixões sólidas que continuam no tempo e resistem a todas as provas e provações. Tinha a ideia de que tais paixões só atingem quem tem uma consciência profunda de Deus, quem O escutou, quem compreendeu o que pensa, o que deseja e que projectos tem. O rapaz pulsava perante aquelas palavras. Latejava-lhe a jugular quando o padre atirava, risonho, que a paixão de Deus pelo homem se manifestava em cada página das Escrituras. Simão, se pudesse, se soubesse, queria ser tão feliz, sabedor e convicto como esse padre sem o menor vestígio de intrusão sexual. «Simão, Simão, tens aqui o teu pão com manteiga e o café com leite.» Brigantia zelava sem falhas pelo seu menino. Interrogava-se acerca de Baltazar, que não via desde aquele dia de súbitas pressas. Quem cortara dessa vez com a sua navalha insaciável? A que safras, vindimas, podas de humanos se entregara com o seu imenso podão, esse imenso português, pegador de touros nos seus sonhos, homem que valia por três?



publicado por joshua às 10:28
um blogue que não é um blogue; uma história a duas mãos; um conto pari passu, trocando o passo; a história de João

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