Sábado, 15 de Janeiro de 2011

20 de Outubro.

Frutuoso havia solicitado ao seu vizinho de sempre, o sucedimento moderno de Dei Gratia Rex Portugaliae, a antecipação do almoço semanal. Tinha algo de grave para lhe dizer. Temia, porém, que o concílio desse em cisma, tamanhas eram as revelações que levava. Ia, no entanto, imbuído dos seus melhores valores cristãos, como quem vai pela paz. Ia contar-Lhe de Simão e do seu infortúnio. De como não podia deixar à sorte o filho da sua irmã, morta como já nos foi ordenado. Naturalmente, e como não andava nisto há dois dias, esperava do lado de lá um relatório completo, súmula de investigação. Ousava, ainda assim, acreditar ter corrompido (assim mesmo o pensou, enquanto se benzia), libra-aqui, ego te absolvo acolá, o pidesco e fiel relatório. Frutuoso não era um homem qualquer, tinha a sua influência, e, confiemos, ia confiante e à confiança.

Porém, entrou no palácio e tremeu. Que o raio do secretário tinha penteado novo – onde agora o sucedâneo de parafina assegurava o risco à direita, recordava um cabelo sem margem. Mau agoiro, pensava. Pensava...! Ia o pensar a três-quartos e veio-lhe a Maria de Cristo. Dobrou-se diferente do que nela era habitual e beijou-lhe o beatíssimo anel, coisa que só fazia em casos últimos, antes de confissões de coisas graves, como ter olhado de soslaio o rabo do jardineiro. Lá fora ladrava, à tripa-forra, um cão, negócio com o regime que por ali nunca tinha ouvido. Demasiadas coincidências. Oliveira demorava-se. Nisto, veio o penteadinho justificar-se. Que o Senhor andava de volta de um carpinteiro que tinha vindo para lhe calibrar o cadeirão, insistente em chiar. Que eram só mais 5 minutinhos:  Quer vexa reverendíssima eminência uma aguinha? Uma água?, mas que merda, tenho ar de quem está de garganta seca? Um clister te dava eu. E dava! Ia para o mandar à merda mais à aguinha, quando o cão ladrou outra vez:  Manel? Entra, anda sentar-te no meu cadeirão velho. Está como novo. Ora senta-te! Ai, porra, que era o Oliveira. Agora havia confundido o ladrar do cão com a voz do dono. Isto prometia. A puta da bruxa devia de estar a botar feitiço.

Entrou e disse. Oliveira, rapaz, então agora mandas-me esperar? Que segredos há numa cadeira? Até parece que é coisa de vida ou morte. Nem sei porque não compras outra. Que apego insano, pá. É só um pouso para o rabo. De remendo em remendo, ainda acabas por te magoar.

Oliveira passeava-se de charuto aceso. [– Estou fodido!, então agora o beato fuma?] É melhor que incenso, este cubano que a bófia sacou a um comuna. Fedia, o carpinteiro que me veio olear a silha, mas é tipo de confiança. Tenho aqui assento para a vida. Por aqui não me desencadeiram eles. E riram ambos, sabedores de que nunca uma cadeira de deitaria mãos à História. Ainda que se desencadeirasse com o cu do dono em pleno descanso.

Peidou-se de alívio, o Frutuoso. Disfarçadamente, levou a mão ao cu e dali ao nariz. Era coisa que o acalmava.

Precisas então de falar comigo, amigo. Conta coisas. Já sei que tens um sobrinho, que o demónio te levou a irmã. Já pus gente a investigar a acontecimento, como sabes. Os meus sentidos pêsames e condolências por essas coisas todas, mas nunca tinha ouvido falar dessa Cândida. Afastas-te demasiado do século, meu caro. A família também importa, padre, e farei questão em que te redimas com esse teu sobrinho Simão. Não fosses tu quem és e mandava-te confessar.

Peidou-se de conforto, o Frutuoso. E, desta vez, nem disfarçou. O perfume passeou-se pela sala.

Escapou-se-te um, Manel. Cheiras a saúde. Quanto ao Simão, devias tê-lo trazido, há que o mostrar. Olha lá, e quem me aconselhas para o Interior, agora que me mataram o Mello? Ouviste falar dos doze capados? Levaram-me um ministro e dois conselheiros.

Frutuoso desceu à comezinha realidade política. Claro que já sabia que o Mello era um dos doze, e, tendo em conta os interstícios das confissões que lhe ouvia, nem sequer o havia estranhado. Aconselhou-lhe o Vasconcellos; pelo menos tinha em comum com o antecessor a anódina repetição da consoante erecta. Era homem que percebia de interiores e tinha como vantagem ser quase vizinho do capo di tutti capi, pois havia nascido em Santa Comba Dão, perto do Vimioso. Tinha, como defeito de somenos, um aperto de mão à laia de sardinha mole. E assim ficou!, Artur de Vasconcellos ia para o Interior.

Isto assente, embrenharam-se na conversa do K-12 – um modernaço dum jornalista tinha-se saído com essa parangona e a moda havia pegado. Oliveira disse-lhe que já tinha indicado à sua polícia um suspeito. Bem vistas as coisas, e tendo em conta o carácter do sujeito em questão, entre os mais-que-poucos milhares de habitantes de Lisboa, havia de ser um comuna. E em sendo um desses, o capador só podia ser aquele que ambos sabiam. E, em não sendo, azar!, matavam-se dois coelhos duma só cajadada e sempre era menos uma maçada. O cardeal disse que estava a coisa bem vista, sim senhor, mas que, pela saúde dos ministros e da demais gente de bem, a modos que convinha descobrir quem era o verdadeiro capador.

No caminho para casa, Frutuoso ia de cabeça no K-12. Há três-quinze dias que a coisa havia começado. Ficar-se-ia por aí?, pelo simbolismo dos doze?, ou seria o princípio de um escalar à desgarrada? Olhou acima, reparou que estava no capítulo 13, e sentiu um arrepio. Encolheu-se ainda mais no seu sobretudo de caxemira, rezando por abrigo.



publicado por Rogério Costa Pereira às 00:46
um blogue que não é um blogue; uma história a duas mãos; um conto pari passu, trocando o passo; a história de João

Cadáveres esquisitos

de XIII em XIII
do Amor
Google Groups
Adira à mailing list e receba os capítulos antes de eles serem escritos
Email:
Veja o grupo por dentro