Sábado, 08 de Janeiro de 2011

Mulher emaranhada de fantasmas, vozes, mas forte como todas as mulheres herdeiras da antiga Gallaecia romana, ambiciosas, da estirpe de Agripina, a Jovem, em quem poder, manha e tragédia se entrelaçavam, eminências pardas em casa administradoras implícitas do campo, da fazenda, dos filhos, das amantes dos seus homens inúteis , Brigantia desde cedo aprendera a esconjurar o mal, mas a repelir involuntariamente qualquer bem maior. Fugira cedo da amarga terra natal, então a mais mísera da Península, onde os perigos da beligerância fratricida, se não se extremavam como noutros pontos, viam pelo menos as coisas piorar em Ferrol e alhures, sobretudo com o Golpe de Estado de 1936, as súas vítimas, a represión, proceso planificado, totalmente político, e, no grupo das vítimas domiciliadas na bisbarra ferrolá, esses setecentos e quinze executados, esses quinhentos represaliados, aquelas execucións nos cemiterios de Canido e Serantes, aquelas centenas de execucións extraxudiciais, no Arsenal Militar com os seus cento e quarenta e três fusilados, por sentenza de consellos de guerra da Armada, ou no castelo de San Felipe, com os seus setenta e um fusilados. Saberia depois como e quem, que lágrimas, que cadáveres, que covardes, que heróis. Evadira-se a tempo da sua Galiza, após envenenar um capitão, para isso intrometendo-se por duas vezes, duas tentativas, num prostíbulo, fazendo-se escolher por ele, atentando contra o embriagado, embruxado por si, tão certeira e calculada que nem perdeu a virgindade guardada com aquele pré-cadáver e que lá ficou espasmódico, espumando, de órbitas reviradas. Ala para Portugal. Vinte e cinco anos, amados e amores para trás, vingara-se da má hora, vingando pai e irmão mais velho seduzidos pela causa, também apanhados pelo torvelinho franquista clarificador. Com ela, ainda nova e fresca, acoitaram-se em Lisboa dois irmãos moços, poucos dias depois misteriosamente mortos no paquete que os levaria ao Rio de Janeiro ao encontro de parentes de segunda geração, e três irmãs, logo embarcadas para o mesmo destino, prontas ao serviço completo em duas das melhores casas da velha elite colonial fluminense, casas cuja cor de pele nunca escurecera e cujos bens nunca minguaram, na qual a maçonaria e a aristocracia pacientemente se haviam miscigenado em paz. Em Lisboa, cidade virgem para ela, virgem, embarcados os seus, começou bem, mas logo se viu na rua, viveu fomes, horas prenhes de angústia, suspirou nos cais, andou perdida sob o azul celeste da promissão lisboeta, mendigando por dias a paga de um labor doméstico, farejando migalhas, sonhando por uma âncora qualquer. Ainda bela, mas já triste e misteriosa, tão nova e no entanto já velha, já vil e ressentida, definhava de dia para dia. Foi Baltazar a dar com ela numa lividez suicida, esfaimada, entregue a uma solidão mortiça de puro desencanto. Dera-lhe o braço ao desembaraçá-la, com sangue efundido, de um abutre refinado biltre no seu assédio e promessas de chulo. Nessa noite, a galega comeria e acalentaria finalmente o corpo numa cama digna e de gente. O paço senhorial do Ezequiel Teles, nada mais que uma casa grande e buliçosa, abria-se-lhe a ela. Foi ficando e jurando ficar. Recados, limpeza, cozinha. Aprendia as rotinas e o serviço entre as demais. Esperta, ascendera a mandar, gradual depositária de responsabilidades e segredos mais pesados, por uma vez do sémen do Teles, tornara-se sua mãe, zeladora, ocasional aperitivo fornicador antes das cavalgadas novas pela cidade, conquistas, mulheres, amantes, coisas em que o Teles se esmerava e prodigalizava. E agora, ainda mais velha, ainda mais vil e ressentida, somente sublimada no ver-se mãe-avó, seguia ali, no automóvel cardinalício, sob um odor a morte que empapava as palavras do outro. Tinha dele instruções muito claras. Obedeceria à palavra ditada porque o começo de ter poder e exercê-lo consiste muitas vezes em simular imediata submissão, acatamento a mandatos dos machos ainda que desconchavados de espírito ou meros cobridores sem estratégia nem casta. Entre um e outra, Simão parecia nem respirar, nostálgico da lição afável e fecunda do padre doutor Leão, ao contrário dos outros e daquele para seu azar, eis um padre assexual, mas não assexuado. No extremo do assento, taciturno e ainda mais lívido, seguia o lívido Cardeal, espicaçando o motorista por uma rota mais certeira, «pedal a fundo!». Aflito pelo perigo do contágio escandaloso daquelas mortes, interessava-lhe indagar, saber inteiramente se a partir dos próximos aos seus quatro defuntos amados provinha murmuração que lhe roçasse o anel episcopal ou lhe sujasse a estola. Brigantia agenciaria saber e mais alguém. Seria ela, lacrimosa e oculta, num véu de luto, vestida de negritude, a perscrutar os rostos, a vasculhar nas conversas mortuárias pelo nome pronunciado, aludido, pairante: Frutuoso. Sé. Entraria em homenagem pelas casas de cada qual dos degolados, porque dois dias após as notícias efémeras, as exéquias se apressariam, os cadáveres se aprontariam, mal refeitos e limpos da cal aquosa que lhes desfigurara as carnes, grotesca adstringência petrificada de gárgulas por onde ainda um fio de sangue manaria, se revirados. Ei-la, portanto, espetando os olhos na janela com árvores corredoras, mulheres e homens macilentos de sachola ao ombro. Ei-la mergulhando no medo e na manha de lhe escapar. Interiorizava o papel dado, transida de receios apenas de que tivesse sido Baltazar a mão que rasgara aquelas jugulares, recortara aqueles sexos como se fossem escalpes, chegara-lhe o mínimo sobre o que agitava o Cardeal, «Ah, esas goelas empeçonhadas de veleno sodomita. Quen diría que eran quen eran?!». Fidalgos. Certo é que o afilhado dum demónio e filho do Anjo que era a sua mãe, Baltazar saíra assim que saíra Cardeal e menino, antes de inesperadamente regressarem por ela. No seu mutismo ansioso e madrugador, lobo ao encalço da rês ferida, terá pensado «Se não me permite estraçalhar já o monte de estrume desse Ortega do Diabo, há-de saber-se de onde virá o inferno.» Saíra. E ter saído era tudo quanto Brigantia sabia. De Ortega, nada ouvira havia semanas. «Por suposto estará na Capital, na colleita de sodomizar e dar a sodomizar, Saturno lle parta os cornos, lle coma as tripas, lle vare os ósos, lle dea quebrantado ao tesón, mil veces maldito!» Ortega, efectivamente, não estivera longe nem dos doze liquidados nem do paço episcopal nem tampouco do covil de fornicar. Quantas vezes, dois ódios somados e recíprocos cooperam apenas para que um fim útil ainda que provisório seja alcançado? Ortega e Baltazar. Mediam-se. Um ficaria de pé em devida hora, o outro estendido e de olhar vítreo. Entretanto, porventura, nesse armistício de se comerem com os olhos, nessas tréguas por se liquidarem ou devorarem um ao outro, haviam certamente tratado do problema que sabiam constituir ao seu senhor Frutuoso e lho desenharam nitidamente. Antecipando ambos um exílio decretado, um para longe do prazer duramente conquistado, velado e guardado, esses moços, outro para longe da mais subtil familiaridade com um Simão agora crescido, talvez grato nada mais que agir. Doze castrados. Doze mutilados. Doze Judas dignos de requiem nenhum, nenhum sossego para o flácido Cardeal, amador de quatro de tais homens. Doze genitais dispersos, doze impotências flanando sanguíneas, dadas aos cães, e nunca mais erectos, insaciáveis, sobre os quadris estreitos de adolescentes imberbes, pensaria Baltazar. Não pensaria Ortega. Impossível determinar a justeza daquela suposição, sequer de tal acção, conjunta, complementar ou separada. Chegados e instalados. Horas após, entretanto, Brigantia haveria de calcorrear os caminhos da cidade, odiosa babel, rumo às exactas moradas, um por um, dos doze, somente daqueles quatro tidos e tomados pelo Cardeal, coisa que nem sabia nem supunha:

Quero que escutes, mulher, o quanto possas. O menor ciciar do meu nome. A menor alusão ao Paço Episcopal, de alguém do Cabido.

Concluiu ela temer o clérigo nada mais que o escândalo e que para que a desgraça daquele sangue não caísse sobre ele, dispusera remediações, tomara medidas. Apenas isso. E foi assim que chorando ranhos, bradando e rindo, entrou naqueles lares varados pelo opróbrio e repletos de estupor. Sondava aqueles ares pesarosos e aqueles fumos de ócio enlutado como uma sibila. Abria-se toda, espertando os sentidos, a colectar murmúrios, olhares, suspiros.



publicado por joshua às 21:22
um blogue que não é um blogue; uma história a duas mãos; um conto pari passu, trocando o passo; a história de João

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