Sábado, 08 de Janeiro de 2011

Mas, enquanto as coisas iam e vinham e se decidiam, enquanto Brigantia, Baltasar e Ortega ficavam no limbo (na altura ainda não dissolvido), e se tomavam decisões acerca do futuro do Padre Leão, havia que ir a Lisboa. Sobrinho e tio. Padrinho e afilhado. Urgia cumprir o destino há muito traçado e jurado entre sangue de pai matado. Aqui (como em alguns “ali” que não são por ora chamados a esta história), Frutuoso ditava a Palavra, ao invés de a espalhar como havia jurado. E, mais do que a ditar – à Palavra –, delegava-a, em forma de destinos a traçar, no seu filho. Nesta porção do pensar, benze-se três vezes e corrige, no seu sobrinho, no seu sobrinho. No filho da sua irmã. E apertava o cilício de metal que usava na coxa sinistra. Pela irmã nunca tida, pelas demais mentiras que havia decidido proclamar. E um pouco mais, porque sempre tinha querido ter um filho; e mais ainda, porque bem sabia que o bucho dos homens não se enchia como os das mulheres quando emprenham, o que esgotava definitivamente as suas possibilidades de, ainda que em pecado, ser pai – ser Pai! Deste pensar vinha outro e havia que fazer mais do que discretamente apertar a penitência mortificante e redentora. Frutuoso movia-se para um esconso e, despido a nu, antecipando o desvio que se seguia, vergastava-se até sangrar por onde tantos tóraxes hirsutos se haviam encostado. Era, mais uma vez, o fantasma daquele cabrão adúltero do Camilo que, Deus queira, havia de estar a arder nos infernos. Aquela “impressão indelével”, a maldita historieta do demo que mão perversa lhe havia deixado ao olhar. E aquela frase!, aquela maldita frase que se lhe pegava à pele que nem sarna. “Semel sepultus, bis mortuus”. Sepultado uma vez, duas vezes morto. Raios partissem o bastardo, que lhe havia traçado o epitáfio há mais de uma centena de anos.

Feitas as rezas, orada Maria e os demais, eis o Primo Cardeal – alma novamente branca – de volta ao conforto do caramanchão onde, mascarado de bonacheirão, aguardava que as armas e bagagens do petiz se aprontassem para a jornada. Distraidamente, como quem aguarda sem poder apressar, Frutuoso ia folheando o Diário de Notícias. De como o país andava bem, das mais-valias do volfrâmio e da guerra grande que já lá ia, de como fulano havia voltado do Brasil após visita prolongada. Na página doze, benzeu-se. E benzeu-se de novo. Ali se falava de um imundo caso havido em Lisboa. Doze homens haviam sido degolados numa só noite. Doze pais de família. Doze fidalgos. Frutuoso reconheceu o nome de nove. Desses, havia sido apresentado a sete. Dos sete, conhecia cinco e havia amado quatro. A dois, mais renitentes, havia mesmo mandado ajoelhar e absolvido dos pecados passados e futuros, o que os descansou e lubrificou.

Falava-se também da água de cal com que o assassino havia regado os cadáveres. E de como também os havia capado. O primus inter pares estremeceu de cagaço, mijou-se de mijo que lhe soube fresquinho – tal a febre que lhe subia –, orou, fechou os olhos e ergueu-se de estrondo, bravateando de um só fôlego:

– Simão!, Simão! Vem já como estás, desinfeliz, que já tiveste tempo de sobra. Dos miseráveis machos, e desse Leão por quem tanto clamas, tratamos depois. Traz mas é a bruxa, que mulher de jeitos dá sempre jeito; e depois logo se vê. E descansa que não me esqueci que te encomendei o sermão dos destinos desses animais.

Tudo dito de um só fôlego e sem respirar – assevera quem viu e avalizo eu, que o ouvi de quem diz histórias à lareira –, que quem tem cu tem medo e o medo dá destes ventos irracionais que fazem o condenado ter urgência em encarar o verdugo. E lá vieram os dois encomendados.

E lá foram os três. A caminho de Lisboa. Brigantia ia de carpideira – orou e chorou e berrou e temeu a cada légua do caminho. Frutuoso, temente da alma castrexa, não a repreendia. A genica da bruja, o espírito da croucha imperava. Esta, simples simples, temia pelo seu menino e tinha saudades (palavra que já sabia dedicar) da sua Finisterra natal. Sabia que se seguia o inferno. Simples simples, deixava-se conduzir, já de peito minado pelos vermes em forma de gente que dentro das suas infecundas entranhas haviam de largar, entre aflições, o que pudessem.

Entretanto, Babel já se via ao longe. Os três fecharam os olhos e pediram. Cada um a quem quis. Cada um por quem quis. Cada um à sua maneira. Frutuoso, que seguia com o valor acrescentado dos doze homens degolados, ciciou um “ai mãezinha”.



publicado por Rogério Costa Pereira às 03:36
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