Sábado, 11 de Dezembro de 2010

Voltei da escuridão.

Belisquei-me com cuidado ao reentrar – ainda me lembrava como tinha sido, havia pouco mais de dez anos. O cheiro e o sabor da morte. Agora já não. Havia de estar toda a gente a rir. Havia de ter sido só um sonho mau. Dez anos são um flato num elevador vazio. Que seria feito do meu pai? Fígado marinado, morto por certo. O meu bom carrasco. E a mãe, agarrada ao caixão, sem vida própria, feliz por ser a escolhida pelo casamento que já não era – entre as teúdas e manteúdas, pobres delas, herança em vida, deserdadas na morte.

Bati na madeira da porta. Na porta de madeira. Ao de leve. Sempre eram dez anos. Morto e enterrado. Já tinha passado tempo que chegasse para descerem esta podridão às entranhas fecundas da terra. Para que florescesse em cardos e malmequeres. Bati. E bati outra vez. Ouvi passos. Morto recuei, morto de medo.

Abriu-se a porta para a escuridão. A minha luz. Entra, meu filho, estamos todos à tua espera. Dez anos dela.

Carpideiras em cada canto. As mesmas de há dez anos. Algumas já cadáveres. Choram por dinheiros. Centavos por lágrima, pintos por gritos de pesar. O mesmo cheiro nauseabundo; que a morte, ainda que empalhada no tempo dos rigores literários, cheira sempre igual. O caixão estava ao canto, branco e pálido. De cor e de pesar. E era de meio metro, o meu.

Esta é a minha a história. Nado vivo por segundos – morto à luz da lei e dos costumes de antanho.

Minto!, que esta é a história da minha mãe e do meu pai.Portas adentro, lá estava eu. Eu e todos eles. Nós todos. Os mortos e os vivos, parados no tempo. Mortos por enterrar. Fugiram-me da morte. Da minha. Aquelas pessoas paradas no tempo. À espera do seu morto por chorar. À minha espera.

A dele, que das entranhas dela me arrancou e me lançou à sorte do chão de pedra. E a dela.

Nasci e morri em 1971.

Era para me ter chamado João.



publicado por Rogério Costa Pereira às 00:11
um blogue que não é um blogue; uma história a duas mãos; um conto pari passu, trocando o passo; a história de João

Cadáveres esquisitos

de XIII em XIII
do Amor
Google Groups
Adira à mailing list e receba os capítulos antes de eles serem escritos
Email:
Veja o grupo por dentro