Quarta-feira, 05 de Janeiro de 2011

O aniversário de Simão foi o que sempre fora. Frio. Naquela solidão imensa, sob a velha redoma de arremedo familiar, amparada pela franca maternidade de mãe-avó que Brigantia acrisolara sublimando a bruxa, bafejada pela comparência do padrinho-cardeal de voz maviosa, cruzes de prata e umas moedas como presentes, tolhida pela face taciturna, bisonha, com que Baltazar encarava os dias. Certo é que este monturo-monstro, quando visto de fora, ganhara ao moço um zelo, um solene afecto pesado e desmedido, ainda que oculto por modos muito pouco humanos, todos de lobo. Simão apenas suspeitava ser Baltazar capaz de lhe dar a vida incondicional. No mais, temia-o prudentemente porque o sabia trazer Ortega tão sob o olho, tão bem guardado para uma hora perdida, fitava-o tão desabrido que nunca se saberia se a lâmina com que finalmente o vazasse o não salpicaria de sangue, a ele, em cujo corpo se entranhava a pátina do esperma e demais imundície babantes do outro, pesadelo que tinha. Homem possante, todo nervura e músculo, de manápula temível, Baltazar tratava dos assuntos impossíveis que lhe encomendavam, questões de honra para as quais era contratado por covardes a fim de que, com a sua persuasão firme e violenta, equilibrasse deves e haveres. Numa mão a navalha, na outra o bastão. Fora esses biscates ocasionais, dava também uma ajuda na lavoura se lha pedissem ou requeressem, que era economia. E pediam. Não se oferecia. Sabia-se valer por três e isso chegava e sobejava para a solicitação que aceitava com um orgulho de Golias, vaidoso da sua valia braçal. Não a negava também porque encontrava um secreto apaziguamento nos suores das colheitas, no odor-orgasmo a terra arada e semeada, na bicheza a rastejar ou a saltitar entre os riachos e as talhadas, nas aves de arribação, que abalavam e voltavam. Caçava. Pescava. Aí, sob a canícula, olhando o azul ferrete do Céu, auto-indulgenciava-se finalmente, pensava com nostalgia na mãe que o marcara pela ternura e o excruciara pelo sofrimento com que se foi, cadáver vivo, esvaído em tosses de sangue, mãe terminal como tantas outras caídas na flor dos anos para desvalimento dos filhos indefesos. Não poderia supor ser ela o único Anjo a velar por si, enternecido e paciente, em todas as horas, especialmente quando se derramava contemplativo entre a natureza e a dureza do trabalho. «Minha querida mãezinha! Tuberculose filha da puta...» E um calafrio estranhava-se-lhe na carne com as imagens dela, indeléveis e mudas, a correrem-lhe como numa tela no mais fundo dos cornos. Chorava e transpirava então numa alegria de alívio. Ao longe, vacas mugiam numa prosaica sintonia e um crepitar de galos escarninhos, de repente a estralejar cantadoria, emoldurava-lhe a saudade e o queixume. Calos da sachola, mão nodulosa segurando o duro arado. Semear. Colher. Horas raras. Horas belas. Nas demais, embuçado pelas tavernas e antros, tratava de outras sementeiras. Como bom agente do Diabo que sempre fora, farejava a fome e a sede de outra coisa trazia a vontade de comer outra coisa , em homens mal casados, inclinados a outro gosto, e acabava implorado a dar-lhes o sonho gemente e passento de se oferecerem finalmente em modo fêmeo ao macho final. Final também porque nem sempre estas histórias acabavam bem. Corpo estranho na cidade, arredio de gente, Baltazar fizera umas mortes, forçadas pelo mais pequeno assomo de indiscrição daqueles a quem saciara. Descobrira mesmo nelas, surpreendido pelo próprio talento natural, um prazer tão próximo do estertor de se vir ou fazer vir os que lhe demandavam o serviço empalador. Enigmas da cidade secreta e subterrânea. A avidez gloriosa do amor que se gloria de si mesmo destrói tantas vezes a bênção de um saciar discreto a contento de dois ou três de cada vez. Aí, havia de operar ao bisturi interruptor e a sequência dos eventos levava a limpezas perfeitas. De resto, não eram homens para que os respeitasse um migalho que fosse e muito menos eram homens para ele. Esse papel viril e reprodutor a sociedade impusera-lho, fazendo-lhes o casamento curativo da má estirpe efeminada. Depois suscitara-lhes filhos. Era, porém, a crucifixão das suas mulheres, essas máquinas lúbricas, sem corpo que lhes canse por foder: à noite, madrugada adentro, pela tarde, pela manhã, ao fim da tarde, depois do almoço, a seguir ao jantar, entre a palha, entre o milho, ao pé do lameiro, ao pé do ribeiro, no monte, na arrecadação, na cagadeira, na cozinha, no pinhal, sobre um tufo de trigo, limpando-se, levantando-se e siga com a instrução do dia. Sofriam elas uma castidade ressequida que matava, ora inseguras, conformadas com a secura da procura dos seus corpos, ora sublimando esse rarear varador com chiste e ironia por anos de malditrimónio a fio. Baltazar, amante de homens, dominava-lhes as carnes pelo hábil jogo de mãos compressoras e aquela força de submeter, virar e revirar reses, sem um suspiro de esforço, enquanto arfava decidido, todo intuitivo, eficaz como uma máquina de tear no ir e no voltar. Mas dominava-lhes as mentes também, pelo temor incutido, pelo terror infundido, um olhar de demónio, seguro de si como deus ou quimera, a força, o gosto de magoar sem magoar, e nada mais afrodisíaco que esse enleio. Perante o espectro de qualquer publicidade indesejada, mal Baltazar a farejasse, valia mais morrer e morrer era o pedido que lhe faziam, num acesso de remorso, desespero ou vergonha. Ele abafava essa agonia e também sossegava. Não tinha fé nem religião e até andara nas lides jacobinas colocando umas sotainas na linha. Se entrava em Igrejas, forçado pela tutela que o Frutuoso lhe imputara e à velha, e se ajoelhava era com escárnio e para troçar daquela quinquilharia santeira que não se importara, em tempos, de escaqueirar e escaqueirara. Sob esse enxofre de blasfemo feliz, amara um Padre de aflitiva carência que o cobria de beijos sôfregos, lhe dava galinhas, presentes de um tal requinte que a petrificada coisa arvorada em coração dentro dele não deixava de sorrir o sorriso da lisonja e da vaidade: «Saliva por mim, o padre tolaço!». Um terceiro metido nesse jogo pôs o arranjo em perigo. O Padre negociou. O intruso apertou os dois. Baltazar deu-lhe sumiço para nunca mais. A paz e o ferro frio de fornicarem ficaram com eles porque o terceiro, já cadáver, pairava ainda mais insinuante. Fornicar ou o sublime efémero para almas desenganadas. O século penetrara a Igreja mas agora seguir cada qual o seu caminho. Enfim, Simão. Catorze anos feitos. O poder de sentenciar aquela trindade, dera-o Frutuoso a Simão. Fizera-se gente. Até aí, bebé que se aquecera no meio de dois corpos a frialdade do seu abandono, criança que lançara o pião e papagueara latins de calças novas e cu dolente. Brigantia e Baltazar? Nada mais que uma cumplicidade telepática, sem remoques, sem discussões, fraterna e funcional como se um fosse o cabo e o outro a lâmina. A mão de Frutuoso manejava-os a medo, mas não lhes falava a medo. Legar em Simão a saída daqueles, reformá-los, cumprida a sua missão, mal disfarçava menos o escrúpulo que esse temor difuso:

Deixe-os lá estar, Reverendíssimo Padrinho! Por enquanto...

Lá se empandeirasse o filho da puta do preceptor, sim, era serviço. Era mandá-lo para longe, numa viagem, numa missão. Gramática latina, verbos, declinações e foder sem ponta de brincadeira era muito lindo e logo nas festas misturadas, onde se comiam chocolates, se bebia laranjada da boa, gasosa, empalado por uns e felatio in ore com outros. Merda de latim foederativo! Nunca usar os dentes, para nada. Os dentes são gelados e duros. A glande é sensível e precisa de calor e macieza. Babar é o quanto se possa! Sem medo. Quanto mais a coisa ficar besuntada de cuspo, melhor. Não ter vergonha de babar. Concentrar-se na glande. Engolir o membro todo, isso não, que o verdadeiro trabalho dá-se com os lábios e a língua, não com a garganta, e faz-se sobretudo na cabeça. Filho da puta, o mestre destas merdas. Sabia muito. Mas os caminhos do Todo-Poderoso são insondáveis e o certo é que longe da tartufaria do Cabido e das festas de cu lasso, Simão descobrira milagrosamente no Pe. Leão, homem doutíssimo, viajado, missionário, frequentador de bibliotecas e academias europeias, uma luz compadecida e uma fonte de sapiência inspiradoras. Simão não lhe franqueava o coração inteiramente, mas não escondia a admiração. Ouvi-lo era viajar com ele. Demonstrava com limpidez a sua espiritualidade fraternal. Falava do Cristo com a palpitação de O ter visto, tocado e ouvido. E era bondade pura, uma inocência cândida e desconcertante no trato fosse com quem fosse. Apodavam-no de socialista apenas porque lera as ideias dos franceses e gostava de discutir e debater. Antes que se afundasse na fundura de um ódio guardado e sem remissão, «era o Padrinho dar-me aquele doutor».



publicado por joshua às 05:18
um blogue que não é um blogue; uma história a duas mãos; um conto pari passu, trocando o passo; a história de João

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