Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010

Já Simão, ciente dos pesares e pensares da mãe Brigantia, mas ainda aprendiz do que viesse, com os seus nove anos de estradas e veredas – escasso eufemismo para quem nasceu das poças do sangue dos seus pais, ainda que aquém da idade onde é suposto as memórias se formarem –, digladiava-se entre ser um discípulo do mestre, a quem já sabia (pudera!) as vidas de Miguelito corcunda, ou lutar pelo pouco-mais-que-nada que ia decifrando nos escassos suspiros enlevados de Brigantia. Nesses sonhos – eram sonhos –, e porque gente que é gente exige uma mãe, Simão via Brigantia em forma de ave grande, de garras afiadas de amparo, arrebatando-o para um ninho sem dores.

O acordar, de cu dormente e pesaroso, ao lado do seu sôfrego mestre, era-lhe aflitivo. À luz do dia, Simão caía no terreno alagadiço de fundo margoso a que a sua realidade se resumia. Existência a que podia dar um nome: Ortega! “ – Miguel Ortega, odeio-te como, em pescador, a peixe ensardinhado, batido pelo mar, mordido pelos caranguejos!”

Passou mais um ano. Ais de um ano. O império de activismo pro-pedófilo de Ortega começava a dar nas vistas e nos ouvidos da capital do império. Ortega não se bastava com o acto, fazia dele uma religião cujo deus morreu empalado em defesa da neutralização social da efebofilia (especializava-se, o arremedo).

Inevitavelmente, das bocas que ouvem do diz-que-sim, a afronta arrimou aos sentidos do Cardeal. Este, lúbrico curioso e indefectível de Ortega; este, protegedor e patrocinador de Simão. Este! que mantinha aquele arriscando o eventual sacrifício deste. A Brigantia e Baltasar, embora à vista de quem vê desconsiderá-los mais fosse impossível, confiava-lhes o não-vá-o-diabo-tecê-las.

E, assim, lá foram os quatro para Cardigal, lugar a meio dia de Lisboa (medida de cavalo-cansado) – urgia afastá-los (afastar Ortega), que havia um sobrinho de catorze anos (e, seguramente, incontaminado de e pelos fundos), órfão de já e de depois, que vinha a caminho.

Cardigal era mato e pouco mais. Tojo, uma casa grande e uma casa pequena e uma igreja e meia dúzia de casebres. O dono da casa menor era o príncipe da casa maior onde se exibe a cruz das súplicas. Na casa grande couberam, por cinco anos, Ortega, Baltasar, Brigantia e Simão. Longe das vistas do tio Cardeal e do regime que haveria de sublimar o sobrinho. Mas perto, demasiado perto, das dores de cu de Simão, e dos ascos e rancores silentes e cobardes de Brigantia e Baltasar.

– É matá-lo, dizia Baltasar; – É ter calma, retorquia Brigantia, que a morte que lhe antevejo é bem mais penosa do que a goela cortada que lhe reservas.

Simão faz hoje 14 anos e o tio vem pelo sobrinho.

Para os outros é o dia do queira-deus-e-a-ver-vamos. Para Simão, já cientista de parentelas cardinalícias, era o dia do cá-calharás. Brigantia, Baltasar e Ortega vão saber o que o Cardeal lhes reserva, embora certos de que o seu fado seria gritado pelas goelas de outro. Não se enganaram, que o Cardeal era criatura justa, homem de designar juízo em quem sabia tê-lo.

– E a estes, Simão, que faço?

– Ouviste, criatura?, que faço a estes?



publicado por Rogério Costa Pereira às 04:40
Isto é tudo muito, muito bom.
Gualter Ego a 3 de Janeiro de 2011 às 19:55


:)
Paulinha a 4 de Janeiro de 2011 às 16:05

um blogue que não é um blogue; uma história a duas mãos; um conto pari passu, trocando o passo; a história de João

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