Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010

Na toca em que Ortega tocava e se fazia tocar, submerso na sinestesia de incensos havaneses e daquele inefável bichanar, forjavam-se friezas novas, mentes capazes de capar, matar em três tempos e no entanto contidas, frias como a espada dos cossacos. Mas também nascia ali o pragmatismo determinado a ter poder com as devidas manhas, decisivas para eclodir triunfante na vida adulta, se lá chegassem. As naturezas moldáveis dos rapazes esgalhavam à mão o por onde começa um Anjo e termina um Demónio com a boca, como ser e fazer uma coisa e outra ao mesmo tempo. Ali, secretamente, o carácter de cada qual dobrava-se à dualidade negra e natural do velho sexo milenar com rapazinhos, cancro ou bênção que ninguém ainda combatera ou perdoara e viv'alma alguma vez denunciara ou condescendera. Não existia. Não tinha chamadoiro a não ser o das maldições de Sodoma e Gomorra, pois era natural vexar homossexuais, maltratá-los torpemente, coisa ou limpeza que não daria em notícia, meter-lhes pelo cu um rabo cortado de porco com as suas cerdas cruéis em farpa impedindo a saída e esperar sentado uma morte infecta e sádica sem remissão a não ser que houvesse coragem para uma hospitalização ainda mais humilhante. A juventude é sádica e demoníaca quando em bando. Na toca, o bando era organizado, hierárquico, e sobretudo divinal na codificação do pecado e da vez de comer. Dos outros rapazinhos Simão não foi diferente, mas o ódio que lhe fermentou até ao mortífero ente que dentro se lhe engendrava, esse foi inteiramente diferente dos demais querubins de quatro. Mesmo estes, na maior parte dos casos, aquiesciam sem relutância ao benefício de se darem em troca de bens para eles tão suculentos quanto perecíveis. Havia ali um desnível de poder, a extrema ignorância aquiesce com tudo, vislumbrava-se a porta para um futuro com estatuto e uma liberdade longe da fome descalça vista e revista especialmente na terrinha, e ninguém pode imaginar a neutralidade do erotismo quando tudo é ainda indefinido e tenro como a placa de cera onde os escravos gregos ensinavam os meninos romanos a cunhar as suas litteras. Nada de novo para Simão. Mesmo na velha Grécia que tresandava a religião e a religiosos, os efebos amavam sobretudo os homens mais álacres e generosos, de cujo espírito fluíam o humor e a leveza dos ditos filosóficos: «Bebe, come à tua vontade...» a prometer mundos e entrando pelos fundos e a cujos corpos a entrega se tornava doce apenas porque cheiravam bem, tinham mão firme e algo a ensinar que libertava. A troca era justa. Os ninguém tornavam-se alguém devidamente fecundados, de sémen e sapiência, por alguém mais alguém e há mais tempo que eles. Mas ali, na toca secreta, lugar frequentado por uma roda viva de poderosos de face petrificada, aves de rapina, um dia eles mesmos cravados de posse e crivados de beijos perfeitamente escanhoados, personalidades acabadas ou arrasados por ninfetas inacessíveis ou submissores de efebos depois de anos submetidos, o segredo estava tão fechado quanto a hermética caixa de Pandora: nasciam de novo para uma vida inteiramente nova todos os iniciados nesse sexo não oficial e no entanto florescente em tantas famílias onde se dormia quatro a quarto ou cinco paralelamente a cinco e nada se interpunha ao endurecimento da natureza, filhas levavam buxo a eito e nada de perguntas quanto a netos e a irmãos tendo por pais irmãos das mães já não tios. A intimidade fazia-se por força da gravidade e amadurecia por força da gravidez. «Mon petit!» As Nações fazem-se nas camas vivas e acabam na recusa procriadora e ninguém é de menos quando a natureza assim ordena. Enfim, Ortega herdara um esconderijo celestial e conservava-o perfeito para negócios e sensações grosseiras que viciavam como álcool e anestesiavam como morfina. Não era estranho cópulas consumadas onde os gemidos pelos desconfortos da penetração se misturavam com o mastigar simultâneo de bolachas, pedaços de chocolate e outras fantásticas dádivas que mãos pródigas prodigalizavam, abrindo disposição a festinhas e festanças. Comer e servir de comida. Simão foi iniciado nestas letras e conformou-se inicialmente com as suas agruras assim como com o leite e o mel inerentes. Tinha as suas armas e as suas aras. Amuava como as moças. Como as moças fazia-se difícil até ser dobrado com qualquer presente certeiro, inteligente. Ortega não pesava com as necessidades corporais comparadas com a leveza de companheiro. Por isso punha a máscara jovial, tinha uma severidade prescritiva, conseguia um ascendente pelo disparar da fala despachada, resposta rápida e assertiva, e não deixava de usar de um bom gosto extraordinário nas gestão dos actos litúrgicos de que o encarregavam: ensinava porque sabia e tinha dilacerações de artista. Sabia calar bispos ignorantes quanto ao dispositivo cerimonial e isso cobria-o de uma aura de prestígio entre os moços mais leais, aspirantes a um poder assim igualmente tão sapiente. Era comum Ortega, Simão e mais um ou dois entrarem n'A Camponeza para um lanche ou uma refeição: era ali, nesses momentos e nessas ocasiões, que as fidelidades mais coesas se forjavam, no matar da fome, no requinte, na sensação de excepção que se atribuíam. Faziam-se homens e lavavam-se muito mais vezes que qualquer mulher conhecida. Quem olhasse para eles nunca descortinaria amantes. Nada a pensar de meros aprendizes da liturgia e de actos amatórios consumados. Conversavam no bichanar das confidências, sabiam e eram postos ao corrente de todas as fragilidades ou anedotas do clero e das respeitabilíssimas entidades da política. Nas antecâmaras da Fé, Ortega, duplamente recto e triplamente erecto, se se visse a sós com algum dos moços, ou no pretexto de se cumprimentarem, tinha uns abraços muito sôfregos e uns beijos muito rentes ao rasgão das bocas resgatadas ao ranho, à cárie e sobretudo às fomes de roedor. Um silêncio meio entontecido tomava conta do moço sob a sua asa de morcego, Quasimodo de Mourão. Contavam-se anedotas, bebia-se vinho do melhor, esqueciam-se avanços e os varar de carnes. Recompunham-se os suores daqueles minutos tão caninos quanto canzanais:

Mestre Ortega, pode vir gente... Oxalá viesse gente...

Que murmuraste?

Era proibido murmurar. Havia pressa em que acabasse. Por isso, a experiência ditava um grito de estilo a estimular uma pressa que se vinha ou haveria por força de se vir:

Fode, fode, fode, filho da puta!

Se não era dito, era pensado, que «Deus não gosta de palavras más, obscenas». Ninguém haveria de interromper aquele frémito habitualmente demorado por falta de estrias naturais onde a natureza as não meteu e onde os óleos e as exiguidades nunca bastavam, mãos postas naqueles pequenos flancos. E as anedotas abençoavam aquela mesa n'A Camponeza, como a do brasileiro e da portuguesa que se apaixonaram e amavam muito. Depois dos coitos, ele perguntava, entre cigarros, se ela não tomaria banho e ela respondia que já havia tomado. Ele insistia. Invariavelmente ela respondia que já tinha tomado. Nessa manhã. Eventualmente, ele perderia todo o interesse. Eles, não. Ali eram muito limpos e o banho uma regra depois daquelas coisas. Brigantia achava o menino um regalo. Zelava por ele como uma fotografia do seu femeeiro senhor. Não era ruívo. Tinha, porém, um cabelo claro, quase loiro, um nariz adunco de judeu morgado do Norte de Portugal, o seu Simão. Já não era uma criança e isso custava-lhe.



publicado por joshua às 01:12
um blogue que não é um blogue; uma história a duas mãos; um conto pari passu, trocando o passo; a história de João

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