Domingo, 26 de Dezembro de 2010

Isto dito, explicado o Telles pai, desvelada a nobreza da sua desonra, cuida agora contar de Simão, filho de Ezequiel, pai que haveria de ser do João que nunca foi – ou que apenas foi pelos parcos segundos que levaram seu pai a desentranhá-lo e arrebentá-lo de encontro às lajes de pedra que por ali estavam à mão. Simão, o ainda filho da puta (que o Cardeal não arranjara tempo para o desemputanhar com águas exorcizadas, tamanho o atrás descrito), passa a ter Baltasar por pai e Brigantia por mãe.

Isto aqui para nós, que a verdade a dar à história seria bem diferente e já estava traçada. Aos catorze anos seria apresentado ao regime e a Lisboa como sobrinho do Cardeal Manuel Frutuoso. Simão de Frutuoso Telles. Filho de Cândida Frutuoso, irmã de Manuel, e Artur Telles, visconde de Lousado (afidalgado rótulo que o regime republicano haveria de legitimar). Colhidos da vida por uma besta assassina que noite dentro lhes havia irrompido pelo palácio. De Lousado a Lisboa, as léguas eram suficientes para fazer passar por verdade a intrujice. E assim – tio recebe sobrinho órfão –, justificado ficaria o acolhimento que o íntimo da nada parda eminência haveria de dar ao sobrevivente aristocrata. Esta história, a oficial, não vamos mais para aqui chamá-la, mesmo porque a dita se pode ler em qualquer biografia do Patriarca. “A sua bondade ficou também demonstrada quando, em (…) acolheu o visconde de Lousado, seu sobrinho órfão, (…)”

Voltemos ao que realmente sucedeu. Quem criou Simão e lhe limpou as merdas e os ranhos, isso, foram Baltasar e Brigantia. Relegados, porém, ao lugar de criados do menino, que Manuel não era homem de entregar o seu futuro sobrinho social nas mãos sujas de sangue, suor e sémen de serviçais de má-fama – bembonda ter permitido que uma não-sei-quantas sem nome viesse dar a alva teta ao menino (e só essa alva teta, que ele lambia após beijar a testa do menino que mamava, o desviava de lhe dar caminho – à dona da alva teta).

E assim, como se esta história não tivesse já personagens suficientes, eis que se apresenta o enviado de Manuel, preceptor de Simão. Miguel Ortega.

Será suficiente anunciá-lo, para assim justificar o devir de Simão, como o dono da verdade absoluta, aquela da qual todos os outros foram despojados aquando de um infeliz episódio com uma serpente e uma maçã. Total nas convicções - feitas de infâmias, cobardia e despeito –, o mestre Ortega deitava as cartas de forma imponente e ia sempre a jogo, ainda que não lhe conhecesse as regras.

Paradoxalmente, só assim era fora do seu habitat natural. Assim que dobrava as fronteiras de Mourão (uma vez por mês), curvava a espinha e voltava aos seus derreados e arqueados estados naturais (o que lhe aliviava a dor de se fazer passar por gente). Ali, na quasi transmontana aldeia-mãe, Mestre Ortega era o Miguelito corcunda.

Passado o lenitivo fim-de-semana, voltava a Lisboa. À procura de alimento, afastava-se do seu cativeiro redentor. Obrigava a coluna ao estado erecto que copiava dos humanos, censurando as pavorosas dores que tal lhe causava. Passados alguns dias, teso que nem gente – transido de sofrimento –, culpava o único espelho que tinha em casa pela imagem torcida que todas as noites lhe voltava. E, de curtas memórias, ajudado pelo padecimento, confiava cegamente no tamanho e na perpetuidade da sombra que o sol mentiroso lhe afiançava.

Fora de Mourão, Miguelito, feito mestre, vende-se por menos de trinta moedas. Quando alguém não repara nele e se coloca entre si e aquele sol enganador, que o faz ver-se tão grande, sai-se com ameaços entredentes disto e daquilo. Nunca esquece. Morde pela calada, mas quer fazer de conta que tem tomates. Planta opinião como quem ateia as chamas dum auto de fé.

Sempre com fome, Ortega é todo um sistema judicial. Na sua caverna, para além de tocar rapazinhos, faz teatros de marionetas digitais em que os dedos do pirete são os juízes. Ventríloquo manhoso, lança as vozes que decide aos deditos que manipula. No fim, com voz bebida, põe na boca do juiz as palavras que quer: “culpados! sois todos culpados!”

Quando encontra quem o alimente longe daquele maldito espelho que o minimiza, afeiçoa-se. Deixa-se haver. Faz de conta que aceita ser a voz do dono que, longe daquele espelho mentiroso, lhe dá ração.

Ortega (assentemos nesta graça, que Miguelito e mestre já sabemos que também é) tem de provar que é corajoso – só assim lhe dão de comer – e, para isso, faz, apresenta e vende sopa da pedra, aceitando por bons os ingredientes podres que os homens-bons atiram ao lixo. Mas há quem coma daquilo e lamba os beiços, gulosos de putrefacção. E pedem para repetir, que está muito boa, que assim mesmo é que é. País duma merda. E Ortega incha como flato embargado. Fica quase do tamanho da sombra que o engana.

O Ortega que Manuel Frutuoso haveria de escolher era enorme. Levava imensa gente à toca que arranjou, longe do quartinho com espelho. E aplaude. E aplaudem-no. E aplaudem-se uns aos outros. Ali, na toca sem reflexos, de espinhas torcidas e caudas desveladas, decide-se o país. E bichanam, para que ninguém os ouça. Têm esse cuidado. Tem esse cuidado, Ortega.

Acasalada a fome com a vontade de comer, foi neste homem encantador que Manuel decidiu depositar o futuro de Simão.

Oito anos passados, tinha Simão quase nove, Ortega justifica-se perante o seu amado dono, Dom Manuel, a quem odiava. Que se era certo que Simão ainda não reconhecia as letras, ainda menos os números, Ortega via animadores sinais de recuperação. Que o atraso havia de ser por o menino ser filho de puta. Que nesses estados, pese embora o baptismo, as coisas levam mais tempo. Asseverava animadores sinais de recuperação. Apelava à confiança de Dom Manuel e lembrava a determinação que ele, Ortega – vencedor da sua própria paralisia (isto só pensava) –, tinha em vencer o natural estupor de Simão.

Mas se ambos tinham a consciência da realidade de Simão, já fervilhava de podre a aceitação da máscara que haviam de lhe impor. E, diabos o curvassem em Lisboa (tarefa impossível), se não havia de fazer de Simão um seu igual, garantia-se Ortega. “Après moi, le déluge”, como sempre dizia. Se Manuel havia escolhido Ortega, este, sem que aquele o soubesse, havia escolhido Simão como seu sucessor – o seu novo moi. Simão de Frutuoso Telles (y Ortega), o que haveria de arrastar deste Portugal os íntegros e os virtuosos.

E veio este a ser o pai de João.



publicado por Rogério Costa Pereira às 01:54
um blogue que não é um blogue; uma história a duas mãos; um conto pari passu, trocando o passo; a história de João

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