Domingo, 19 de Dezembro de 2010

Madrugada fria de Novembro. Entre o jantar lá para diante, mais um de tantos, e o oficiar de um baptismo clandestino, isto raro e insólito, a crismante mão cardinalícia esperaria que Telles se persuadisse de um recato novo: um rebento em casa geraria questões de bom governo doméstico e obrigaria a prudências criativas nas velhas rotinas de putanheiro. Havia afinal que empreender com a sua vida o que o catedrático economista firmava em Portugal: austera ordem e exemplar autoridade. Fizesse ele também uma limpeza de contas e do fermento vil dos velhos insurrectos da revolução republicana que mataram Deus e a decência dos costumes, segundo as confidências ezequielianas das quais sabia um terço e logo pelo lado glorioso. Arremedo disso mesmo, de essa moção renovadora, foi o que empreendeu, nesse fim de tarde, o próprio Telles, arreado de reflexões obsessivas pela vida nova em que se via grávido, avó que se sentia do próprio filho. Cão que se traz para casa e lento conquista as afeições da grande frialdade humana, assim o puto entranhava-se-lhe e pedia a frescura de um lar mais escorado. Soterrado de dívidas, porém, aflito de faltas mal disfarçadas e necessitado de recursos que sustentassem os últimos vestígios da opulência antiga, resolveu atalhar conversa com o bando d'A Batalha, homens invisíveis de bombas, sabotagens e corrosões anarcodesesperadas. Fora neles que por várias vezes encontrara os fundos milagrosos para uma liberdade de apertos e uma vida de aparência suficiente. Já no tugúrio, incerto da velha cumplicidade, foi o Urtiga a notar-lhe a lividez, a gaguez de mal intencionado e estendeu-o preventivamente ali mesmo. Haviam tombado cento e noventa centímetros de antiga nobreza renegada. Estava à flor do pó um bigode encorpado, mais ruivo que grisalho, rebrilhando como uma cenoura. Jazia beijando o chão o azul esverdeado eslavo no meio daquelas órbitas brancas a fazer de olhar. Enfim, os reflexos do velho Telles já não eram o que haviam sido. Meio desacordado do arriar de pancada, ainda foi ouvindo: «Estas contas resolvem-se a bem. Pagas e não bufas.» Não lhes interessava, porém, matar a galinha dos ovos de oiro e mesmo a arma que lhe apalparam colada ao corpo, a meio da surra, lha deixaram intacta depois de limpa de munições. Só uma bala permanecera na câmara. Sovaram-no mas não mediram a coça. Encharcado de pancada, teria de concluir o que esses esbirros haviam continuado e ele começado. Cinquenta e quatro anos para acabar aberto e retalhado como um porco e só, como um bicho, sem a dignidade comunitária dos vermes. Esgueirara-se a muito custo para casa e lá se acuara, depois de largado num beco por dois ou três dos d'A Batalha. Algo na sua velha máquina de bombear linfa se descompassara e sabia-se condenado. Não procurou respaldo nem socorro entre os seus. Esgueirou-se discretamente sanguinolento para o quarto. Aos d'A Batalha e demais correlegionários, o economista catedrático no Governo montara-lhes cerco e agora forcejavam por escapar, e, por medida provisória, concebiam os necessários subterfúgios de sobrevivência com financiamento e refinanciamento entre os apertos da velha ambiguidade republicana, que o Telles representava, e a nova ordem ordeira que o casto presidente do Governo ia impondo. Eram os últimos fumos do pífio anarquismo lusitano. O agredido mal se arrastara até à sua câmara íntima, logo se estirara, arrojado para o solo, meio corpo na madeira fria, a outra metade sobre o pêlo ebúrneo e espalmado do urso polar empalhado. De borco, mal respiraria. Por isso, ensaiou voltar-se, virando e revirando, atabalhoado, o próprio corpo e o do urso. Os dentes do empalhado aleatório petrificaram ainda mais o habitual sorriso, encarando o moribundo que ficara sobre o próprio flanco. Ainda achou forças para sorrir de volta, entre tosses e viscosidades sanguíneas cuspilhadas, escarradas:

Grande irmão empalhado dos gelos... Como vais?...

Urso e homem, dois sacos espalmados de vento na ordem vária do cosmos, encaravam-se derradeiramente. O segundo deixou-se ficar. Sacou da arma. Só porque transido de dores e estertores, com ossos prometendo um aleijado a partir daí coxeando indignamente, talvez mendigando fellatios pelos lupanares, a face desfeita num brusco decair do velho brio, velha vaidade num deformado acanhado e monstruoso, decidiu só então dar-se o golpe de piedade. Piedade, nome da puta com pergaminhos na velha nobreza, teve afinal quem a vingasse involuntariamente. Sem dor, nem nostalgia, nem mágoa, dispararia. Brigantia e os outros a dar com ele, logo ali alvoroço ante a desgraça, o bebé entre vagidos, nada mais simples: últimas palavras e um tiro enviesado com a arte fria e ensaguentada de Antero, fora o abismo de alma deste, eis quanto bastou para se dar repouso o grande cobridor de Sete Rios, das Sete Colinas e arredores. Uma vida de gastos, mulheres e seus exigentes requintes fizera do Ezequiel um endividado da má vida, uma vítima do excesso, do luxo e do prazer. Acabar, acabasse com estrondo. Em tempos cativara a bruxa, recrutara-a com a sua silhueta alta e incomum e com o faro que tinha por fragilidade e vulnerável na fêmea mais repleta de fortaleza e, por fim, foder a bruxa virginal – há já tanto tempo! – fizera dela nada mais que uma escrava incondicional, absolutamente leal, adorabunda e submissa do seu senhor, guardiã de qualquer incumbência, cúmplice que sempre fora da soma grosseira de íntimas, tidas e mantidas. Para grandes apertos, grandes acidentes.  Ver um rebento medrar na sua esterilidade de mulherengo miserável, isso não. Careceria, pois, de uma renegociação de juros e dívida com o emprestador. Se a negociação recrudescesse e resvalasse, sabia que havia dívidas que morrem assim que morram os credores. Se o credor morresse, morreria o que o estrangulava nesse começo de sonho. Ainda deitara a mão à arma numa convicção frouxa de primeiro assalto. O que o Urtiga e os outros lhe fizeram já se sabe. Vira a luz num 13 de Junho de 1888, o segundo de três filhos. O parto do Telles ocorrera no quarto andar direito do n.º 7 do Largo de São Carlos, em frente à ópera de Lisboa. No número quatro do mesmo prédio, no mesmo dia, à mesma hora, nascia Pessoa o absoluto platónico vazado em espiritualidade poética, masturbativo e íntimo de si mesmo como um cego enquanto se viu capaz de bom sexo furtivo consigo mesmo sem o ónus de se ser fiel porque se concebia vários , vinha também à existência a par de um bruto fodilhão, rei dos fodilhões. Quanto à puta da Piedade, que história a trouxe? Que história a levou? A Ditadura Militar em 1926 e a subsequente ditadura do virginal catedrático de economia limparam imenso esterco de fermento espanhol, nesses grupos anarquistas ramificados com as suas pretensões anacrónicas. Dispersaram-se. Foi então que uma rede de bufarias se provou de uma eficácia inexcedível na desratização dos últimos resistentes. Jornais e pensadores heterodoxos viram-se de repente clandestinos, alvos de perseguições e o País exíguo exiguou-se ainda mais naquele sossego humilde das verdades simples. Quando em 38 se faz o atentado falhado pelo qual se tentara assassinar o santo emergente e infalível do regime, a incompetência revolucionária dos portugueses dera o último suspiro por longas décadas de modorra. Piedade, espécie de assistente corporal e irmã espiritual de esses homens, e Telles requebraram-se na mais agreste e denodada sofreguidão dos corpos precisamente ao logo de esses três anos. Aliviado o último com o disparo percutido, exare-se dela a gesta que lhe é devida.



publicado por joshua às 02:32
Terei mesmo lido isto: "ossos prometendo um aleijado coxeando indignamente mendigando fellatios aos lupanares e a face desfeita garantindo o decair do velho brio"?
Isto é do mais cómico que já li. Acha mesmo que basta alinhavar uns anacronismos estilísticos e uns quilos de pompa para se ser um novo par Eça/Ramalho?
Não. Mas chega-se bem depressa ao pastiche mais entaramelado, ao humor involuntário, à caricatura de Agustina, à prosa pesadona e sem tino.
E olhe que os "cadavres exquis" dos surrealistas não funcionavam assim: quem desenhava não sabia o que o antecessor tinha deixado no papel.
Moi a 22 de Dezembro de 2010 às 15:57

um blogue que não é um blogue; uma história a duas mãos; um conto pari passu, trocando o passo; a história de João

Cadáveres esquisitos

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