Sábado, 18 de Dezembro de 2010

Toda a vizinhança já sabia. Era dia de Cardeal na casa do Telles. Ainda hoje, não se sabe como se soube. Teria sido a íntima Brigantia?, o fiel Baltasar? Irrelevância ou sinónimo, verdade seja dita. O que conta é que, à chegada da eminência sua, o vulgo amontoava-se para o mirar, mais do que faria em dia de festa de calendário. Brigantia fazia de Guarda Suíça, distribuindo cachamorrada na turba sedenta do beijo na anelar argola do Principal do reino. Sem passar cartão à turba, lá entrou o Manel do Ezequiel na humilde casa  do Telles (são sempre humildes as casas dos ricos anfitriões), assim se anunciando: – Venho para deitar água ao gentio e comer da bruxa. Telles, Telles?

(antes do educado e cuidadoso e estranhamente ausente Telles, porém!) Voltou Brigantia, e entrou Baltasar, e arrimou o choro daquele a quem o capo de tutti capi vinha para dar o nome de Simão (esse mesmo, fala-se do futuro matador do que havia de ser João – não se perca o fio à meada, que isto de escrever estórias vividas ou ouvidas assemelha-se a procurar loiça na casa de estranhos. Tende pois atenção, doravante, e que vos sirva de emenda este responso).

Baltasar sente um arrepio e Brigantia dois. O berreiro do ainda filho da puta (pois se água abençoada não lhe havia escorrido a fronte, nem os sagrados óleos lhe haviam crucificado a testa) ecoa pela casa. O Cardeal, como se a galega e o maricas matador de putas não fossem gente, de Telles gritado, vai subindo as escadas, de encontro ao vagido.

Abriu a porta que o separava do fado e viu o imundo organismo (semelhante na forma às muitas criancinhas que o seu microfone divino absolvia do pecado original) quase sumido numa poça de sangue que jorrava do cobarde e inominável Telles, o Ezequiel. O sacrílego já não pulsava. E deixava-o, a ele, imperador das sacristias, com o menino nas mãos. Pecou o maior dos pecados, o conselheiro civil, excluindo-se da vida que afinal nunca tinha tido, que se Deus nos destina a todos, este Ezequiel-criatura já vinha norteado ab ovo para o inferno dos que, por vontade própria, ousam substituir-se ao que manda e desmanda nos vires e nos ires.

Sacramentou-o logo ali – ao ora Simão, bem entendido. Do blasfemo cadáver sem honra, infame discípulo de Saul, Aitofel, Zinri e Judas Iscariotes, aproveitou o sangue escorrido. É que, não vendo por ali água que pudesse benzer uma vez, benzeu dez vezes o sangue da maldita criatura que cobardemente havia tomado o lugar de quem decide das nossas horas. Persignou-se, apertou o cilício – "quem crer e for baptizado será  salvo; quem, porém, não crer será condenado" –, e eis o nosso Simão livre de pecado.

Com Simão besuntado de cristianismo (untado de sangue dez vezes absolvido) nos braços, desceu em silêncio, e sorrindo, as escadas que, gritando, havia subido.

Dirigindo-se à galega disse: – Este é Simão, filho de Jonas, irmão de André. Dos da Bíblia, de quem passarás a ser beata devota. Daquelas que, ao apito, se sentam, ajoelham e levantam.

A Baltasar, sem lhe dirigir o olhar ou o discurso directo, mandou que ordenasse a desordem do andar de cima e que atirasse as sobras a uma vala comum. Simão Telles, salvo do pecado pelo sangue do pecador, era agora seu valido.

Ezequiel havia fugido aos agiotas a quem se havia vendido para poder dar futuro a Simão, encarregando o padre, a bruxa e o assassino de criarem Simão. Essa era a história dos três. A oficial resumia-se ao Cardeal e a Simão. Tio e sobrinho.

Lá fora, o pé-rapado, exausto pelas desoras, num charivari de fazer estória, fazia claque pelo beijo no anel.

–  Amanhã, tudo estará tratado. Tratai de meu filho Simão. E tu, bruxa seca, arranja-lhe ama-de-leite. Serve-te destes dinheiros.

E, atirado o vil saco, saiu pelas traseiras. Entretanto, Brigantia, definhava. Incapaz de Simão, com os lábios cheios de beijos pelo Telles que já não era. Do seu Ezequiel que haviam matado. Teria os seus defeitos, Ezequiel, que só se vinha de dedo no cu, mas não era homem de se matar. Ó da guarda, que mo mataram, ousou gritar. Sem voz, para ninguém ouvir.



publicado por Rogério Costa Pereira às 01:53
um blogue que não é um blogue; uma história a duas mãos; um conto pari passu, trocando o passo; a história de João

Cadáveres esquisitos

de XIII em XIII
do Amor
Google Groups
Adira à mailing list e receba os capítulos antes de eles serem escritos
Email:
Veja o grupo por dentro