Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

Ezequiel, capaz de seduzir fêmeas ao machio, lhes descobrir insuspeitas delícias das entranhas ignoradas, e capaz de submeter homens embravecidos ao encanto de uma frase de espírito ou duas, já esperava o remoque que depois, como de costume, logo abrandaria na partilha das vivências mundanas, quando, numa naturalidade sorna, o primeiro abria ao outro, com o bisturi de amador batido, a grande, funda e misteriosa fenda feminina, vergada ao hábito de se deitar aberta em cios, derreada de vício ao seu arranque táureo:

– Pelo contrário, Eminência. E pode despachar já.

A liberalidade libertária dos seus costumes bravios fazia justiça à sobriedade seca dos dele, harmonizando-os na paz: o leão deitava-se com o cordeiro. O jacobino, amansado pela efusão estéril do sangue passado e a passada sanha persecutória, irmanava-se com o clérigo austero, legitimado de uma autoridade nova. Alegoria dos tempos! Máxima da Situação. Tinha havido Cova de Iria e o povo redobrava em religiosidades e fervores renovados. Melhor seguir de bem com a torrente fervorosa. A hora repicava por lei, por ordem. Gritava por contas limpas e armas esquecidas por limpar que a Grande Guerra mortificara demasiados jovens e demasiada esperança proles e partos tal como agora a fome racionada desta beligerância gera uma perdição de barrigas pandas como velas e falos hirtos como mastros. Regressava-se, pelo menos na forma, aos velhos cânones do século morto. Telles, em questão de mulheres, não tinha escrúpulos e jamais não mudaria.

– Vá lá, Manel, despacha e condescende!

O Cardeal transmutava-se em Manel assim que o camareiro saía ou a empregada já não pipilava limpezas nem borboleteava as bolachas e o chá por perto. Sentado na sua ampla secretária por trás o retrato grande, impressivo, fresco, de Pio XII , Manel sorria benévolo, a face aureolada de bonomia. Cruzava os dedos sobre o ventre numa antecipação consolada do pecado alheio por narrar. E condescendia. Um hálito grosseiro emanava da cardinalícia boca abrindo à imaginação fronteira o espectro de uma úlcera ansiosa. E a halitose fundia-se ao ar que ali pairava. Naquele gabinete, a santa pestilência somava-se ao odor áspero a décadas de fumo, defumando longos debates de política e filosofia, pira sem fogo a deflagrar nos periódicos, tratados e volumes em estase ou trânsito por aquela biblioteca. Alguma poesia ultra-romântica choramingava ali ainda por vezes e mesmo os toscos frutos literários da república haviam sido por ali digeridos e rebatidos «nos seus pressupostos anticristãos de insídia e dissolução dos costumes.»

– Telles, se te deras ao sigilo, menos mal! O falatório danado que vai pra'aí... Bem sabes o escrúpulo.

Espírito sóbrio, aquele Cardeal! O sigilo, o sigilo... Um espesso secretismo era a alma geral do negócio das almas e bem se sabia quanto daquilo que se encobria na Santa Igreja morria num silêncio estrangulado às mãos do inverosímil, quanto mais as façanhas cobridoras de um alto conselheiro civil. Sob a aura a viscoso colo fêmeo emanada pelo Telles, Manel deixava-se enlanguescer por ali, ao bafo das narrativas facetas e façanhudas daquele. De si, nada saberiam. A castidade afervora o puro intelecto e a extrema racionalidade: era um puro espírito mergulhado em pedagogia e bom exemplo. Não vinha mal nenhum ao mundo se se requebrava de langores pela angelicalidade dos mancebos e o rosto efebo dos efebos, em certas horas de ócio e noite escura. Pregustação do Céu no esconso da fantasia morta que lhe restava. Ternuras platónicas espargidas pelo rebanho fresco de acólitos a aprender a sacra liturgia, insuspeitas moções mortas de tusa que as empregadas haveriam de limpar-poluções. De resto, ninguém o saberia. Nunca. Escondia-o bem, embrutecendo a voz a espaços, na sacristia, impacientando-se, esfregando as mãos em ânsias maceradas. E tudo se sublimava em instrução, catecismo, cartilha e incenso embrulhado em altíssima sapiência e sumo saber. Canto sacro e mistérios da fé. Ardendo de desejos passentos perante os seus arcanjos marmanjos e anjinhos tenrinhos, acordava, sacudia o Tentador afastava da mente Querubins de quatro —, e regressava à santidade casta e austera que as suas responsabilidades pesadamente lhe imputavam hora após hora no túmulo frio da boa moral e a matéria edificante, sobretudo desde a grande hora no ano da graça de 29.

– Diz-me, Telles, a tua bruxa vai de dedo inspirado? Não há cabidela como...

– Bem sei, Eminência, quereis ver o crianço e baptizá-lo. Seja que o vejais.



publicado por joshua às 18:24
um blogue que não é um blogue; uma história a duas mãos; um conto pari passu, trocando o passo; a história de João

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