Domingo, 12 de Dezembro de 2010

Mas as parecenças entre João, filho de traidores da nossa Trindade, e Ompal, azarado vizinho de traidores da alienígena trimúrti, terminam aqui; na circunstância peculiar da morte de seres a quem não deixaram experimentar o arquejo orgástico de quem ama e é amado. Esta é a verdade. Ainda que isto não levante dúvidas (nem pelo tempo do arder dum fósforo!) do amor que Simão e Ester tinham à semente que germinaram e que, por tanto assim ser, impediram de dar flor. Os amores que João não deu, recebeu em demasia dos pais que o mataram – fica já a sentença lavrada e o dedo apontado: os pais que o mataram. Que nem só por acção se mata; e da omissão já o infanticida Simão vai absolvido. Mas se João (ou a suspeita dele) foi amado, oportunidade não teve de amar. Mulher ou homem.

[João] Por circunstâncias cujas explicações aqui não cabem – por insensitivas –, assumo eu, por instantes e antes que me falte a voz que nunca tive, o narrar da minha (só aparentemente) curta história. O facto de ter morrido-de-morte-matada – realidade manifestamente não exagerada e hoje já provada por aresto transitado – é impedimento que contorno com estas vozes de quem me fiz dono.

Nenhuma vida começa ao choque parideiro com a primeira luz. A minha (convenções genésicas à parte) encetou-se era o meu pai filho mantido de meu avô. Família lisboeta de tradição pré-republicana, nos andares de quarenta do único século que por segundos vivi, os Telles eram já uma instituição secular (de século; que de laicos que se ousassem públicos nada constava). Ezequiel Telles – meu avô –, já homem de amar mulheres e guiar homens, era por esses anos conselheiro civil do cardeal do regime. A sua sombra atrasava dos respectivos afazeres (as vénias prolongavam-se por minuto ou mais) as pessoas por quem passava.

Já meu pai, esse!, a quem doravante se referirão pelo nome de baptismo, foi retirado à bordoada das garras e genicas teimosas da mulher de ocasião que numa noite se deixou emprenhar sem pedir licença. Pela teima inopinada em largar o fruto, por ali se ficou, torcida pelo pescoço.  [/João]

Era então 1941.

Na casa dos Telles passavam a ser quatro. Ezequiel e sua afortunadamente estéril governanta galega, Brigantia (alma castrexa, cujas artes estrangeiras faziam a vizindade alcunhá-la de bruxa), Baltasar, o criado de servir e de matar michelas, e o nosso iniciado Simão.

Ezequiel, fruto maduro e tuitivo, que não era homem de abandonar filho seu, ainda que parido por rameira, era agora o concludente resultado da inoportuna concentração de demasiados acasos desviantes. À bruxa e ao Baltasar, assassino e falado esquineiro amante de homens, juntava-se Simão, o filho da puta.

O seu juízo final chegou em forma de súmula encerrada por lacre de anel cardinalício. Rezava assim: “Telles, amanhã será você o assunto do nosso despacho semanal. Dizem-me que o seu viver me apouca. Que esqueceu quem sou, quem serve e quem sirvo.”.



publicado por Rogério Costa Pereira às 03:33
um blogue que não é um blogue; uma história a duas mãos; um conto pari passu, trocando o passo; a história de João

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