Sexta-feira, 04 de Fevereiro de 2011

Pela janela do seu quarto, entregue à aragem que só o casario intrincado da Graça exala, Simão olhou a paisagem fechada à sua frente, nada mais que um edifício pardo, alto, esparsas janelas, ao longo dos beirais alguns vasos tombados, esquecidos, marcados pela pátina do tempo e do desleixo, flores ressequidas, alguma peça de roupa pendia abandonada, recolhendo o afago do último calor outonal. Por vezes, o filho acidental de Ezequiel Telles mergulhava a cismar vagamemente submerso no vozear indistinto da telefonia, melodias de alma que confirmavam, na fatalidade das coisas necessárias, o comodismo e a prudência ordeira portugueses: a canção e o fado canção embalavam o Regime e ditavam o o único registo digno de nostálgico. Privilégio raro, esse, uma telefonia, que o padrinho doutor cardeal lhe concedera a título de prémio só condicionado pelos bons resultados da instrução, o que efectivamente lograra. Passava agora muitas horas no quarto. Estudava pouco. Mas esforçava-se por fazer todas as leituras que pudesse, maratonas de evasão e vocabulário, ensaios de sonho pelas palavras fora. Quem sabe um dia ombreasse em sapiência com o sapiente Leão, espécie de totem tutelar, marcando-lhe finalmente um caminho e ideais de excelência letrada entre latins, teologias e filosofias. Era o seu quarto. Local de silêncio, de confrontação de si consigo mesmo. De pensar muito em mulheres numa embriaguez masturbatória infindável, sequencial, sucessiva. Na verdade, depurava-se, causticava as carnes que cedera sem saber outro caminho, alijava o denso veneno vazado por Ortega, que se convertera, a pouco e pouco, em nada mais que esse espectro vão de que nunca deveria ter passado. Não era assim tão simples. Nunca seria assim tão simples. Dera rumo a Baltazar ao abrir-lhe culpa e paradeiro aos outros, ao policial. Isso doía-lhe. Escolhera salvá-lo, ao bisonho protector, daquela ambiguidade sempre pronta a secretas violências de zelo em atenção à sua pessoa, mas nunca soubera se fora mesmo capturado, exilado ou até morto, pois não era homem para se consentir em gaiolas, apresado como mercadoria. Na verdade, um ano antes, Seabra e os dois pides haviam efectivamente navegado nos ondulados caminhos campestres de terra batida que bordejam Cardigal, entre milheirais ressequidos e avenidas sombrias de frondosos pinhos mansos cinquentenários, à procura da taberna do Badalhoco, perdendo tempo, aqui e além, atascando o automóvel que paralisava nos trilhos semi-enlameados que gerações de bois e de homens haviam sulcado. No ar, um aroma terroso, a erva agreste, a buxo silvestre. Ao longe, o bruxulear indeciso de lâmpadas e lamparinas, nos pequenos aglomerados de casas, competiam com as estrelas, numa noite onde a Via Láctea resplandecia, ovas desentranhadas de um grande peixe rasgado, petrificado, no imenso oceano cósmico. Encostado a um grosso pilar de madeira, na tasca do Badalhoco, efectivamente, Baltazar titubeava, ébrio, afastado agora dos jogadores nos últimos transes do dominó, antes de recolherem às suas casas. Fantasiava fazer sangue e banquetear-se do terror infundido, como última coisa que vissem. Imaginava como, numa fúria imprevista e sem sentido, liquidaria todos aqueles inúteis, um a um, ali, no lusco-fusco, digladiando-se ao jogo, pagando-lhe jarros de vinho apenas pela covardia de não trocarem palavra com ele, Adamastor recalcado. Não tinha amigos. Mas tinha o seu facalhão. Outros usassem a covarde moeda burilada e mais cortante que qualquer lâmina, recurso covarde de ajuste de contas nas feiras e nos despiques de homens. Tê-la e ser apanhado com ela era ordem de prisão. Óbolo traiçoeiro, muitas mortes se fizeram assim, vítimas consumadas sem prova e sem castigo, de repente por terra agarradas ao rosto ou ao gasganete, em caso extremo, sem grito nem palavra pronunciada que denunciasse o agressor. Depois uma morte breve, rematando em consolo e sossego, breves estertores num corpo exangue. Golpe traiçoeiro que desfeia o rosto, jugular aberta nos convenientes apertos grosseiros da multidão de paus e de homens aglomerada nas feiras, ajustando preço de gado, pichel de tinto. Feita a morte, a discreta moeda assassina era atirada ao pó e siga com o viver que é dívida resolvida, honra vingada, cornos compensados. Lá fora, os três pides. Seabra, Simões e Sampaio, assomavam certos de que, andanças andadas, o Badalhoco só poderia ser ali. Era. A coisa deveria ser tecida com refinamento e absoluta prudência, pois a presa tinha calibre e notória periculosidade. Lá dentro, Baltazar ébrio, abria o rasgão de um sorriso alarve, amarelo, abandonado, afastara-se dos transes vocais das últimas jogadas de dominó. À distância, continuava a conceber fantasias de sangue. Com que prazer de terror lhes disferiria a morte, a esses covardes, que lhe pagavam jarros de vinho em troca de não lhe dirigirem qualquer palavra, qualquer convite, relegado Adamastor sem Tétis, hermafrodita rocha, a que se abraçasse nas longas noites vazias. Foi Simões quem ficou incumbido de se dirigir ao bojudo tasqueiro. Penetrando no antro, pediu vinho e, sob o pretexto de uma notícia familiar urgente, historiou-lhe uma necessidade discreta qualquer, intimou-o, persuasivo, a sinalizar ali esse Baltazar desconhecido pelo qual vinha a mando alheio. Entre chouriços e garrafões de vinho amontoados, no lusco-fusco que ressaltava o negrume das paredes e do vetusto travejamento onde um magro presunto semi-desossado baloiçava, o tasqueiro, lúcido o suficiente para perceber a má casta daquele inquiridor, dardejou um discreto movimento de olhos clarificador. Simões voltou a sair, entornada a tigela de tinto que lhe tingira os lábios e enodoara o colarinho. Rodando um olhar desprezivo e estudioso pelo interior, abalou. Dentro, só os mais sóbrios estudaram o vulto forasteiro, regressando à jogada depois de menearem a cabeça interrogativos por um esclarecimento do Badalhoco. Nada. Cá fora, no veículo, os três conferenciavam. «Isto tem de ser feito à distância, evitando a manápula desse matador de invertidos.» Por Sampaio, um sádico por lapidar e verdadeiramente impressionado com a limpeza daqueles doze sodomitas, era irromper já pela taberna e cair de chofre sobre o fulano que haveria de ceder sob as rijas pauladas, os pontapés, os socos e a punção soporífera do chumaço de chumbo, farto daquelas doze horas campestres, ridículas, e aspirando a que ainda nessa madrugada afundasse a grossa e voraz porra entre as suculentas pernas da sua fogosa e insaciável fêmea Cármen. Simões, muito austero e com misteriosos pudores e repugnâncias carnais misteriosas com mulheres ou homens, estava por tudo e em geral seguia o parecer do chefe que, ali, era Seabra e determinava cautela. Simões era pela cautela. A noite avançava. Um levíssimo fio de lua, fino e agudo como a foice mais afiada, depunha-se no horizonte enquanto um denso odor a pinho largamente inspirado infundia qualquer complementar doçura espiritual indescritível que só os ares sinestésicos do sul conferem. Após a saída, um após outro, dos frequentadores do Badalhoco, assomava finalmente o volume sombrio, desajeitado e cambaleante de Baltazar. Apenas deu um ou dois passos toscos, logo se acenderam faróis, despejando sobre ele uma massa de luz acusadora. Em reflexo, um zunido agudo eclodiu-lhe bem dentro do cérebro. Levantou o braço para conter a ofuscação até acomodar o olhar ao veículo enquanto três portas se abriam em cânone e depois batiam numa cadência seca de tiro descompassado. Dos três vultos, um veio postar-se sete passos à sua frente. Um cartão indistinto brandido e o epíteto identificador, abriu os lábios numa voz arrastada e regougada: «O melhor era o sr.... Baltazar, não é?!... O melhor era o sr. Baltazar levantar os bracinhos, manter-se pacífico e preparar-se para acompanhar-nos a bem.» Baltazar abriu um sorriso insolente, mostrava as palmas invitativas, convidando-os à ousadia de se aproximarem. Simões e Sampaio deslocavam-se lentamente, ladeando-lhe os flancos, garroteando-lhe quaisquer linhas de fuga ou de avanço desprevenido. O primeiro com um pequeno chumaço de chumbo revestido de couro almofadado, óptimo para fazer adormecer, o qual afagava; o segundo com um bastão lavrado em conciso azinho, peça que embalava ironicamente como a um bebé; Seabra apalpava ostensivamente a arma. Baltazar estava pronto para triturá-los com as suas mãos nuas. Não queria nem amava outra coisa senão brincar com aqueles três de ar tão citadino e funcionarial. Seabra pensava no castigo que teria caso falhasse. Media a oportunidade de investir certeiro sem subestimar a arte possante daquele que, presumia-se, degolara e castrara doze. «Antes ele que eu nas ressequidas ilhas de África.» Não queria suscitar, naquele lugar, com o deflagrar de um disparo preventivo ainda mais curiosidade somada ao medo local ou quem sabe uma invasão de linchamento. Por isso, apontando com o queixo, ordenou que se preparassem para qualquer coisa de mais drástico. Nada de desperdiçar golpes. Teria de ser qualquer coisa de exacto e económico, aproveitando a natural turvação dos reflexos daquele. A um sinal, investiram os três. Seabra com uma negaça. Simões e Sampaio batendo rijos. Baltazar ainda agarrara o sólido bastão de azinho, mas duas pancadas do chumaço na nuca e esse Adamastor, pegador de touros e amante de homens, tombava desacordado. Mais trabalho tiveram em arrastá-lo para o automóvel, depois de bem amarrado e amordaçado.



publicado por joshua às 23:24
Domingo, 30 de Janeiro de 2011

Era uma segunda-feira.

Ortega, vindo dos infernos, entrou pelo quarto de Simão adentro e atirou-lhe com um jornal à cara. Assim o acordou, assim lhe perguntou: – Foste tu que escreveste isto, Cabrão? Simão, já nada estremunhado, tal o estranho por rever o seu carrasco, ergueu o diário e, com surpresa, viu escritos os pensares que, com tanto afinco, guardava. Com chamada de primeira página, sob o título “Correio de Leitor Ignoto – um caso de polícia”, e entremeando estranha imagem, assim se dizia:

 

«M. Ortega: descrente que mas publiquem em jornal de tamanha tiragem, dirijo-te estas palavras sabendo que o faço a alguém cujos neurónios entraram em guerra fratricida e bastarda ao ponto de só te restar um (o mais escasso e ligeiro) — lamentavelmente, o que te sobrou está meio metro acima do habitat natural, desfruta de cauda acelerante e tem como ambição única irromper em merda por cagar. Ciente disso, mas porque te quero mostrar ao mundo, avanço.

Perante o espelho aldrabão que te dá as trombas a ver, munido do tal espermatozóide mascarado de neurónio, ousaste querer fazer a minha história. Por fortuna minha e essência tua, não o conseguiste. És uma espécie de rei midas da merda: transformas em trampa tudo aquilo em que tocas. Fui a excepção à tua regra, não me pudeste assemelhar à tua essência estéril. Entraste em mim, mas não pela alma.


És uma peçonha, sim. Porém, essa dor que te atenta e que tentas, para te aliviar a mágoa, passar para os outros, nesse corrilho que lideras e de que me fizeste sócio, esse beliscão na alma que não tens, são só teus. Olha para trás. Olha para o teu reles viver e para tempo que levas desde o nascer. Traduzes-te num zero abaixo da nula referência. Algo numericamente impossível. Não chegas a ser nada, portanto. Um dia que te atinjam com um espelho fiel, morrerás em agonia — envenenado pela verdade que a representação te dá.

O teu problema, bobo das cortes dos meus tempos, é que tu próprio não receberás dos teus apaniguados mais do que o do vento malcheiroso dos cus que profanaste.

No entanto, verdade seja dita, estás cada vez mais acompanhado – não partiram o cabrão do molde. E pudeste deixar apóstolos. Que farão por fazer a outros o que me fizeste a mim.

Porém, nem eu sou Quixote nem tu és moinho de vento. Ousaste pensar que tudo ficaria assim? Menosprezaste-me!, serei o teu degredo, professor!»


Simão, sereno, ergueu-se – ia de cãs, porém, o gaiato de quinze anos –, e olhou aquele corpo sem-cabeça que, de pé, se rastejava pela barriga. – Não, garnisé, sendo minhas, não são minhas estas palavras. Fizeste demasiados inimigos. Agora sai do meu quarto, como há muito saíste de dentro de mim. Em menos de um ai tenho aqui quem te mate, se eu próprio não o fizer. Foge enquanto podes, infame. Fá-lo por mim, que a tua vida é minha. Deste desabafo impresso que me atiraste à cara, retiro que tenho concorrência. Matar-te ou mandar-te matar já aqui seria como perder-me por metade. Foge de mim, cão, e esconde-te de quem tão bem te relatou. Dou-te um ano de avanço. E faz por te manter vivo, criatura do demo, que como me quiseste para ti, quero-te agora só para mim.


Quando Brigantia entrou, estranhou a janela aberta. Que se havia peidado, disse-lhe Simão. E por ali ficou a história, com Simão a tentar adivinhar quem seria o seu competidor. Dois matadores e um só homem para matar.



publicado por Rogério Costa Pereira às 10:00
Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011

Seabra entrou. Do lado de fora dos pesados portões em ferro trabalhado, ficaram dois pides, um ao volante, outro de pé, este entre o automóvel e a entrada daquele Hades religioso, estático querubim barrigudo. Imóvel, olhos semicerrados, segurava bogartianamente um cigarro, de gabardina cinzento escura entreaberta, uma mão num bolso com o polegar de fora, à ilharga, a arma assim insinuada. Ambos galfarros expertos no terror sobre comunas efectivos ou putativos e viciados nos calafrios de medo induzidos em quem os reconhecesse de tão desconhecidos, fitando muito, por estarem gastos ou absolutamente recentes nas suas aparições indesejadas, mãos no cachaço dos caçados, afagados a pontapé, metidos dentro, um carro, dois, metidos à Hollywood, em alta velocidade e, mais tarde, no mormaço apertado entre hálitos estranhos à hiena humana que abocanha carniça estilinista-leninista e não larga, engolindo em seco, aquela entrevista de vida ou de morte no buraco da verdade. Na safra das denúncias por inveja, ciúmes, ou qualquer outra razão portuguesa, incluindo a captatio benevolentia benfazeja da Situação, não havia mãos a medir e, à força de persuasão musculada e paciente, lá se ia andando, cantando, chorando e rindo, que a sementeira ideológica vermelha recrudescia, mais madura e vigorosa agora que o velho ditador mais se crispava tanto quanto encanecia. Ao chá oferecido e aceite por aquele obscuro inquisidor, como no seu passado pinóia, Brigantia desejara ter à mão um feitiço de olvido ou um alçapão que o perdesse ou obnubilasse, quem lhe dera deter vivazes tácticas velhas de seduzir, levar aquele chefe a um coito preventivo capaz de o consolar, amenizar-lhe aquele frémito ameaçador, mas o caso era grave e o medo ladrava-lhe dentro, convidando-a à prudência, nada de estratagemas de fêmea, insegura aliás de argumentos demasiado vis e ressequidos. Sabia estar Baltazar no cepo porque embora o Regime fosse subliminarmente grato ao esquineiro por aquela velha e sorna limpeza de pervertidos, panascas, quando sóbrio, era ao mesmo tempo imperativo um controlo de danos que cerceasse a expansão demasiado evidente e falada desse mal higiénico, pois se uma sociedade moralizada nunca poderia albergar rabetas tampouco suportaria assassinos igualmente rabicholas convencidos de ser machos inigualáveis. Afinal, aqueles degenerados mortos provinham das melhores famílias, que diabo. O menino já descia. Ou rapaz, coisa em que por longos minutos de silente colóquio, Seabra hesitou por dentro. A sós, por favor, exigiu com veemência:

– O senhor Simão terá de compreender ao que venho.

Quem não deve não treme menos. Simão não tinha nada que lhe pesasse, nem maçã roubada, nem chouriço furtado da mercearia, nem vidro partido por bola de farrapos rematada estouvadamente. Nada. E não suspeitava o porquê daquela inquisição:

– Compreendo mal. Diga-me o senhor...

– Chame-me Seabra, agente policial!

– ... Pois... diga-me o senhor Seabra.

– Você sabe que esses doze fidalgos... esses mortos, o conheciam bem, não sabe?

Certamente Baltazar esmerara-se no rapto e liquidação, um a um, de esses frequentadores de rapazes, penetradores do seu Simão. Se não podia tratar do coiro curvado do Miguelito Ortega, trataria dos demais devassos, ele que conhecia a peçonha viciosa por dentro para a poder odiar ainda com maior veemência e fervor. Aquela submissão indigna e asquerosa, sabendo bem o que era e o que não era, não a poderia perdoar pelo filho do senhor morto, Ezequiel Teles, tão solene e tão viril, tão limpo de beatices e cínicas duplicidades. A arte laminada das suas sevícias e o tratamento final não deixara muitas dúvidas aos homens que espreitavam o crime. Nunca se sabe. Há sempre imitadores escrupulosos destes artistas. Em todo o caso, uma palavra dada pelo rapaz e a sentença ficaria lavrada, pequena confirmação para que tudo se tramitasse pelo melhor.

– O menino servia-lhes de pasto, não era?! E o seu tutor, onde pára?!

Era. A atracção por moças, mulheres, fêmeas, latejava-lhe fortíssima, nesses dias de inusitado sossego, numa definição ainda mais intensa, feromonas de Brigantia exameando os ares do habitáculo. Reconhecia que lhes servira e porventura serviria ainda de pasto se não fosse forte, mas mulher isso não era ele. «Eu não sou mulher, agente Seabra! Não sou. Já não sou!». Fechava-se o cerco. Baltazar liquidara tais fazedores de mulheres, tais inversores de homens. Era necessário que parasse de matar.

– Não lhe façam mal.

O torcionário e o rapaz fixaram o olhar num passe do mesmo estupor silente com que primeiramente se haviam encarado, antes de o rapaz baixar os olhos e irromper a fungar lágrimas ranhosas, despedida de criança. Na verdade, um zelo cego movia Baltazar pelo seu tutelado e por isso farejava cada recanto e sabia-lhe o rasto e quem dele e dos outros fazia repasto. Simão sabia-se seguido e sacudia o embaraço em transito para o antro de chocolates e sodomias. Essa filigrana de medos semeada pelo Regime dera uma objectividade rara ao quotidiano comum e ao mesmo tempo que um cansaço engendrava aspirações libertárias confusas, disciplinara também os corações sob a providencial paternidade do sexagenário Oliveira, o santacombadense, aliás, não queria mais que reunir sob as suas asas esse mar de povo cansado de pensar-se. Ele pensava por todos eles ao dar preventiva caça ao génio do mal comunista anticristão. Baltazar, sem o saber jamais, agia pontualmente como agente pide porque de quando em quando limpava perversores, panascas, enrabadores de putos, coirões, depois de os comer à canzana, óleo vertido sobre cóccix, depois de os seviciar com artes torcionárias, coisa e requinte que nem uma polícia organizada engendraria. Belo exemplo de como limpar Lisboa com tão discreto denodo e eficácia de paradigma. Houvesse mais como ele para seduzir certos intelectuais menos dados à paroquialidade regimental. Mas era hora de fechar a complacência com o touro Baltazar. Seabra estava ali para estancar o mal útil ao Regime, o mal benéfico aos costumes. Matá-lo, não. E muito menos ainda se se desse o caso que o moço Simão intercedia por ele. Executá-lo seria simples. Complicado somente era gerir remorsos em bons católicos executores, demais a mais uma ingratidão por tão estrénuos serviços. Exilá-lo, sim. Havia, de resto, desde 1936 um lugar de descanso e educação para simpáticos dos soviéticos. O mais temido. Aquele cujo nome gerava um engolir em seco por ser um misterioso abismo por onde se sumiam obnubilados opositores e descomportados. Um sítio precioso no Ultramar insular africano e que daria uma belíssima arena de persuasão corpórea. Ali, o esquineiro poderia amar os comunas que quisesse e complementar aquela formidável e inaudita pulsão sádica com a mais garantida paz de espírito com tanto mar e tanta sede, tanto mar e tanta fome.

– Claro que não. Não lhe tocaremos com um dedo, se o pedes. Mas ficas a saber que ele vai viajar. Fica tranquilo. Talvez nunca mais o tornes a ver... Está bem assim?

Simão era sensível somente àquele vulto que sempre calado velava por ele, lhe dera a estalada da regra, lhe trazia romãs a partir de Setembro, lhe mostrara pássaros esquisitos de passagem, o sítio onde ovos pequeninos de melro aos três e quatro adormeciam nos ninhos silvestres, recordava as amoras e os espinhos para as levar para casa às sacadas, o baraço de arame com que caçavam láparos à boca das tocas, aventuras de silêncio, conversas todas feitas com os olhos vivos de um e brutais do outro. Ora, impunha-se uma localização do eventual e conveniente castrador K-12, profilaxia de um k-13. «Cardigal...», balbuciou Simão. Muito bem. Colocou o chapéu. Acenou. Saíu. Transpôs o portão. Ao reentrar no automóvel, disse logo ali com raiva: «Cardigal, Cardigal, onde caralho é Cardigal? Ó Simões, vais telefonar ali na esquina para os serviços centrais e pergunta-lhes isso a ver se terminamos estar merda ainda hoje.» As tabernas limítrofes conheciam bem a capacidade de acomodação vínica de Baltazar. Por temor e assombro, não faltava quem lhe oferecesse um jarro de tinto, e as proezas vinárias sucediam-se, entre umas lascas de lombo assado embebidas no molho das bifanas ao lume, metidas num enorme pão de tipo alentejano. Encostava-se a ver o dominó ruidoso dos outros, com ele por perto mais comedidos, a ver passar as horas até que escurecesse, por vezes um sorriso rasgado de ébria e inexplicável alegria e nenhuma palavra a viv'alma. Entardecia, quando os pides assomaram a Cardigal, foram directos ao assunto à primeira velha com um fardo de gravetos que se lhes deparou. Uma cor rósea sagrava o poente, onde farrapos de nuvens reflectiam as labaredas do último sol, cujo disco hemisférico afundava já entre pinheiros mansos, ofuscando docemente o olhar que o lambesse. Mantiveram os faróis acesos, a ignição viva:

– Alto, mal-encarado? Não sei bem. Ó Jaquim, Jaquiiiiiiiiiiiiiiiiim!

O Jaquim, que estava alapardado do lado de lá do muro doméstico rente ao foçar ruidoso dos porcos e ao cacarejar esganiçado das galinhas em cujas cloacas odorosas gostava de se roçar quando ninguém estava a ver, veio mancando e peidando ao berro da sua velha e, enquanto coçava vergado o toco de osso que tinha por perna, pôde explicar-lhes, servilíssimo, que encontrariam tal indivíduo descomunal na outra freguesia, na Tasca do Badalhoco. Era fácil, bastava perguntar. Se não estivesse lá, perguntassem a um passante. Havia mais tascas na região. Era só peregriná-las. Outro paradeiro não saberia dar-lhes.



publicado por joshua às 11:39
Domingo, 23 de Janeiro de 2011

Interrompo por instantes estas memórias que João (lembram-se dele?) nunca teve, para tomar de peito o K-12 e contar de como Oliveira ordenou às suas polícias prioridade absoluta na resolução desse assunto. Embora o assassino designado pelo regime tivesse sido devidamente arrecadado, o verdadeiro capador ainda andava a monte. De ânimos já civilizados pela segurança gritada pelos jornais, um décimo terceiro castrado seria visto pela bicharada como uma racha no regime

Seabra Cavaco, já entre as suas vinhas e vinhos do Douro, foi arrancado à aposentadoria e orientado para a questão. Possuía fama de incorruptível e infalível, o sujeito. Tinha de excêntrico o facto de ter mandado gravar em todos os seus cartões, e mesmo no seu distintivo, sentença que ele mesmo, guarda-do-guarda, mandou transitar em julgado."Para serem mais honestos do que eu têm que nascer duas vezes". A mesma fama, a mesma frase, que maldisse quando a mulher lhe gritou o nome da janela. Que o senhor presidente estava ao telefone. Correu para o telefone em espera, maldizendo as pernas que lhe demoravam os instantes. A sua vontade, porém, corria no sentido oposto. Assim chegou Cavaco ao telefone, assim lhe chegou o desejo à estação de comboios – Um bilhete para Paris. Diria. Diria, mas não disse. De telefone na mão, o Cavaco das pernas que correm desencontradas recebeu as instruções. Que escolhesse os seus homens. Tinha um mês para descobrir o K-12. E tinha um minuto para impedir o K-13. Se uma ou outra coisa sucedessem, tal seria compreendido, asseverou Oliveira. Afinal, o tempo corria contra o relógio. Um relógio com doze ponteiros dos segundos a empurrarem-se ordenadamente uns de encontro aos outros – Não te preocupes, Cavaco, se a coisa correr mal tenho já aqui forma de te redimires. Um tal de Amílcar Cabral, de Bissau, andava há meses a pedir um emissário da metrópole. “Peço homem honrado com quem se possa conversar sobre o futuro”. Cavaco mijou-se; ainda só era 1955, mas até no Douro já se sabia o que realmente queria esse Cabral.

Em menos de um fósforo, Cavaco estava às portas de Lisboa. Sejamos claros, Cavaco estava à porta onde o seu faro de homem nascido vez e meia o tinha levado, após se inteirar, junto de quem por lá andava e lhe devia vidas de honra, de como andavam as coisas pela cabeça do império.

Tocou duas vezes à campainha. Era um homem religioso, Cavaco, e custava-lhe estar ali. De olhos cerrados, olhou os céus cor-de-cinza e pediu que viesse um qualquer criado que lhe dissesse que o Senhor não estava em casa. Pensou duas vezes e lembrou-se que não ia à confiança, que em boa-hora havia escolhido hora em que Frutuoso haveria de estar a dar a hóstia, ou outra coisa qualquer!, aos seus tutelados. Porém, a verdade é que nem Oliveira entenderia que ele, de todas as portas de Lisboa, houvesse escolhido aquele portão de grades para bater. Mas, como nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, ia certo que era por ali mesmo que havia que começar. Levava três nomes, todos recomendados pelo seu delfim e sucedâneo, Lopes Santana.

Ortega, Baltasar, Brigantia.

E mais um!, este sussurrado ao telefone com o velho código numérico que ele próprio havia inventado e ensinado a Santana. 23128844411. Assim o ouviu, assim o converteu em língua de gente; tremeu! – 23128844411? Uma pinóia, Santana, mangas comigo! – Que não, que não; que pela sua saúde e honra e por tudo quanto lhe devia; De Santana para Cavaco; E que começasse por aí, pelo 23128844411; Na morada já dada. Cavaco tremeu e começou a ver-se em Bissau. À mesa de Amílcar. Como entrada.

- Sim?, ouviu da boca duma desgraçada desengraçada de mamas caídas que se lhe apresentou por detrás das grades do portão. – Boas tardes, senhora Brigantia [que faro!], é esta a casa do Cardeal Frutuoso, positivo? Chamo-me Comissário-Inspector-Reformado-Cavaco. Hei-de querer falar consigo mais tarde, mas para já abra-me este portão, que venho de mandado passado pelo Comissário-Inspector-Lopes; E traga-me o menino Simão [23=S; 12=I; 88=M; 444=A com til; 11=O].

Ambos tremeram. Ela por ela e pelo menino; ele por causa dela. Cavaco, anjo do céu, t(r)emeu o estranho tremer que cheirou em Brigantia e, contra os seus purgantes e habituais costumes (estamos, não o esqueçamos, perante o mais sério dos homens), palavreou o que um dia houvera visto escrito numa placa duma Igreja herege: – Tende calma, senhora, por vezes Deus deixa a tempestade destruir, outras vezes deixa a criança acalmar a tempestade; Chamai Simão e dizei-lhe apenas que tem Cavaco ao portão. E não me chameis tempestade.

Brigantia nem tugiu. De peito Nobre e cara Alegre, correu que nem Coelho, fazendo de conta que acorria ao apelo do suserano do Lopes.



publicado por Rogério Costa Pereira às 10:00
Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2011

Oliveira meteu-se a observar o amigo cardeal enquanto, numa espécie de halo ou borrifo luminoso purpurado, o visitante deslizava dali. Pela janela, afastando com o indicador a suave cortina, pôde, com um certo gozo, medi-lo enquanto entrava na limusina do Paço Episcopal, dobrando-se todo, ágil, como se fosse rematar uma bola imaginária, logo desaparecendo dentro, com o chauffeur de cabeça servil de fora, aguardando, a luva branca manchada ou desbotada segurando a porta, robusto e grisalho, ali, especado, depois batendo com ela, metálica, seca; depois entrando ele pelo lado da sua competência; depois a ignição; depois o arranque, o deslizar lento, quase contemplativo, pelo macadame. Estava mais velho o douto e viajado clérigo, constatou o santacombadense. Um peso misterioso avultava do seu olhar triste, fatigado por este mundo e pelo outro, mal disfarçadas olheiras, a pele macilenta de níveo círio, marcas de quem se mortifica de vigílias. Suspirou. «Velho peidorrento! Um bom caralho é o que é!, coitado! A velhice já lhe ronda a virtude!» O Presidente do Conselho embrenhava-se meticulosamente nos trâmites da História Nacional, matéria regulada e reguada. Sabia que envelhecer azedara génios políticos e estropiara as melhores esperanças de bem mandar. Por causa disso medrara em Portugal a cizânia do caos, desorganizando-o, adiando o reencontro místico entre o nosso feitio lírico e a nossa bonomia natural, prática, laboriosa, o melhor que nos ficou dos romanos. Este é um Povo que da vida ambiciona só a ociosidade da Ilha dos Amores, escola devassa de um poeta que perdeu as estribeiras: só ele para imaginar uma ilha sexual onde os nossos marinheiros têm coitos com angélicas mulheres, se deitam com ninfas, com deusas. E é isto a dissidência hoje. Querer a Ilha como prémio de absolutamente nada. Haveria por força de domar esta pulsão, ensinar o amor ao trabalho, acostumar esse desejo de ócio nos mares longínquos ao que a terra provê e ao realismo dos gastos, da vida habitual serena e humilde. A república trouxera anacrónicas paixões e contra-paixões, tanto se forcejou copiar e transpor das franças modelos incompatíveis com a velha humildade merceeira com que fomos à Índia e por lá ficámos, quando outros chegados depois de nós de lá já saíram. Voltara a sentar-se no seu cadeirão maciço e retirava agora da gaveta, fechada a duas chaves, ilustrações com mulheres dentro. Babava que se perdia com a inocência das ninfetas. Todas as suas poluções nocturnas e diurnas, todos os seus zelos encaminhava-os para o angélico feminino, sobretudo quando, calado, dava-se contemplar essas meninas que certas senhoras sociais faziam questão de lhe apresentar a fim de que as abençoasse ou as desejasse ou as visse viçosas no caule virginal, esses lírios fecundos sobre os quais haveria de assentar o Portugal com que sonhou. Por dentro bem que emporcalhava de lubricidade essa pureza, mas isso era o seu segredo, a sua fraqueza. Misérias. Soubera a saga romanceada de Dolores Haze. Chegara-lhe às mãos excertos da suculenta narrativa transgressora do escritor russo nos states. «Que transe de génio! Delicioso crime! Pungente verdade!» Verdade sobre a mais contundente das duplicidades! Quem lhe dera esse adentramento na fundura refusiva de uma moça adolescente como Dolores. Sabia que a violência do mando era puro gozo, uso de todas as armas da coacção para adelgaçar recusas, para dobrar caprichos. «Como é que ele se chama?» Isso! Nabokov, lembrava-se. Conversas oficiosas de embaixada! «Não pode, não deve ser comuna! Ah, perverter tenta porque é arte, é o belo interdito. Não é fácil resistir ao ápice do prazer: nada mais que a arte de domar cavalos humanos, constringi-los, confiná-los. Pudesse ensaiar um desvio da norma derramada do confessionário!» Sonhava e dormitava. A tarde caía. Sentia-se mais satisfeito a despachar sem ter de atender aqueles visitantes ponderosos, sem ter de fabricar conversas ou, pior, escutá-las nos monólogos em que se transformavam tantas vezes. Era sempre a mesma coisa. Chegava e sobrava o seu telefone para verificar a magna murmuração correctiva dos costumes e das ideias daninhas, em devido tempo posta a rolar, com a qual, pelo bem e pelo mal, se ceifavam comunas tresmalhados, bombistas, terroristas, boicotadores, apóstolos de uma propaganda ratazana, resistente pachorra de ir andando a minar o País de um minar pequenino, mas também se fabricavam ostracismos cirúrgicos, fontes de desmoralização em espíritos demasiado livres onde ainda havia espaço para o medo e a prudência. Contentava assim os americanos e mantinha são os ares domésticos. Suspirava! «O meu combate é por Deus, os portugueses percebem-no e se não percebem eu ajudo-os. Não foi por acaso ter nascido!» Achava-se bom samaritano de um País a quem faltara pastor por demasiado tempo. Ele, o ungido, anunciado por Bandarra, preparado por Pascoaes, garantido por Vieira, humilde, casto, viril, misterioso, taciturno, mostrara já o caminho e continuaria a mostrá-lo. Um pouco de medo, um pouco de honra incutida, trabalho, simplicidade e bolinha baixa. Não era preciso mais. Pena que no ano da graça de 1955, na flor desbotada do Outono, estas revistas ilustradas de mulheres não sejam ainda revistas com mulheres, mas isso trata-se. Estimulavam-no. Pecado, diziam os padres. «Um pouco de cor e sensualidade, qual seria o mal? Para quem goza da virtude da fortaleza não haveria mal nenhum.» Era dia de consolo por sua mão. Uma saída furtiva à retrete do palácio do Governo e aliviar-se-ia. Era costume. Primeiro, fezes. Depois, sémen. Dava-lhe gozo o secretismo misterioso das duas necessidades justapostas, mas não sobrepostas. «E quem seria, como seria esse Simão?» Estranho o arranjo do cardeal, um sobrinho-afilhado com catorze anos. Catorze perigos. Gostava de conhecê-lo, sentir-lhe o carácter, ver se a têmpera portuguesa, generosa e humilde, desponta nele, se sabia as declinações, ou se, pelo contrário, eram as leituras perversas a moldá-lo. Esses funcionários de Igreja asseguram a virtude da obediência do populacho grunho que a Virgem de Fátima fez o favor de reunir em redil comportado, garantem-lhe as qualidades morais da submissão, respeito, temor bíblico, grande profilaxia do fogo do Inferno dado de graça a quem recuse dar a este César o que a César é devido. Tudo. Deus sempre se contentou com pouco, vidas miseráveis, onde o banho rareia e o ranho é o segundo líquido amniótico, as unhas sujas escriturárias de regos à sachola, ignorando outras escrituras, outras leituras, que semear, colher, fornicar e parir. Comovia-se com a simplicidade do português prático, enfatize-se, ignorante, mas repleto de sabedoria para os gastos e para as fomes, capaz de sobriedade e de fome, no único e sagrado tabernáculo familiar. Adiante do gabinete à esquerda, ao fundo do corredor, Oliveira sentara-se no cubículo por sua higiene. Um odor a sabão comum, verbena e lixívia fundia-se no ar, dando embora lugar ao fedor sólido que mergulhava sonoro, liquidescente, no vaso, digerido pastel de nata, digerida saladinha, o robalinho, certamente os espargos, os grelos, sempre com pressa de sair. Horas de ouro, aquelas no seu cubículo filosófico em homenagem às suas entranhas patrióticas, merdíferas vias. Uma revista na mão, um jornal ao pé. «Os óculos, porra?!» Deixara-os no gabinete. Costumava limpar-se a O Século, um jornal dócil e mais ainda a respectiva emanaçãozinha Ilustração Portugueza. Tinha boas páginas acetinadas para a delicada hemorróida. Não havia melhor nem mais macio. Na alva ceroula esmaecia, em tom cinza leve, caracteres da tinta de impressão. Na grossa cueca, à frente, um halo acastanhado, palimpsesto de urinas, associava-se harmoniosamente ao halo amarelo incolor das suas secreções seminais. Não era de muitos banhos nem de grandes trocas de roupa interior, mas não falhava nas horas mais críticas com uma higiene impecável, o corte correcto e a face sempre escanhoada. Nas outras horas, o asseio era um estado de espírito. Terminara. Limpara-se. Agora, de pé, calças descidas, cuecas em baixo, ceroulas também, faria o gosto à mão. Pernas ligeiramente abertas, sacudiria espasmódico, frenético, o seu bastão solteiro por Portugal. Agitava-se. Mulheres como relâmpagos invadiam-lhe o cérebro, as tidas e as por ter, a pele delas, os rubros lábios. Uma avulta. Tira-lhe a blusa, e esgalha, afaga, corre a pele do prepúcio para trás, estica a glande, desespera com ânsias e pressas, olha e cerra as pálpebras para sentir melhor, agora os seios imaginários, beija-os, dá-lhes língua, desce, toca, o umbigo, imagina as mãos nos quadris túrgidos, nas nádegas que imaginariamente enclavinha, corre imaginariamente os dedos pela seda das carnes docemente interditadas. E pronto. Fora rápido. Nunca soubera mais que preliminares consigo mesmo, mau prenúncio, e poluções nas calças quando com elas, tão requisitado era para roçar-se nelas, nos retiros, nos serões, nas festas sociais, escondido num recanto qualquer e logo entregue a um platonismo repleto de vestuário e de saliva mal drenada. Entretanto, Simão atravessava horas foscas. Passava mais tempo com Brigantia como havia muito não sucedia, instalados à pressa nas faldas e imediações do Paço Episcopal. No vai-e-vem para a Instrução, falava mais vezes com o Padre Leão, ficava extasiado com a sua sabedoria e tinha umas ânsias de santidade à imagem daquele homem simples e intenso, magnético e sólido. Em casa, na solidão daquelas horas com livros, tarefas, sossego, e graças àquela espécie de interrupção que o padrinho fizera às rotinas do velhaco Ortega, uma paz aliviada jorrava novamente. Desejava limpar-se do visco com que o haviam conspurcado tantas vezes. Sonhava por evasão e perfeição. Eram as primeiras brumas do Outono. Interessava-se por tudo o que o padre lhe ensinava, em colóquios de enorme liberdade e espontaneidade: música, liturgia, teologia, filosofia, e com ele adorava aprender e cantar os compositores sacros da liturgia, como César Franck, que lhe limpava as entranhas, lhe desentranhava lágrimas e frémitos de alma nas mãos frementes, peças como o Pannis Angelicus, versos longínquos de São Tomás de Aquino. Leão insistia em que o amor autêntico se baseava em opções ponderadas e realistas feitas de longos e pacientes diálogos e Simão, se bem que se agradasse cada vez mais com as moças da cidade, de passeio com as suas mães, e sentisse calores com os olhares reciprocamente dardejados, do que gostava mesmo era de saber mais, cismar, sonhar. Leão dizia que era necessário distinguir emoções fugazes e passageiras de paixões sólidas que continuam no tempo e resistem a todas as provas e provações. Tinha a ideia de que tais paixões só atingem quem tem uma consciência profunda de Deus, quem O escutou, quem compreendeu o que pensa, o que deseja e que projectos tem. O rapaz pulsava perante aquelas palavras. Latejava-lhe a jugular quando o padre atirava, risonho, que a paixão de Deus pelo homem se manifestava em cada página das Escrituras. Simão, se pudesse, se soubesse, queria ser tão feliz, sabedor e convicto como esse padre sem o menor vestígio de intrusão sexual. «Simão, Simão, tens aqui o teu pão com manteiga e o café com leite.» Brigantia zelava sem falhas pelo seu menino. Interrogava-se acerca de Baltazar, que não via desde aquele dia de súbitas pressas. Quem cortara dessa vez com a sua navalha insaciável? A que safras, vindimas, podas de humanos se entregara com o seu imenso podão, esse imenso português, pegador de touros nos seus sonhos, homem que valia por três?



publicado por joshua às 10:28
Sábado, 15 de Janeiro de 2011

20 de Outubro.

Frutuoso havia solicitado ao seu vizinho de sempre, o sucedimento moderno de Dei Gratia Rex Portugaliae, a antecipação do almoço semanal. Tinha algo de grave para lhe dizer. Temia, porém, que o concílio desse em cisma, tamanhas eram as revelações que levava. Ia, no entanto, imbuído dos seus melhores valores cristãos, como quem vai pela paz. Ia contar-Lhe de Simão e do seu infortúnio. De como não podia deixar à sorte o filho da sua irmã, morta como já nos foi ordenado. Naturalmente, e como não andava nisto há dois dias, esperava do lado de lá um relatório completo, súmula de investigação. Ousava, ainda assim, acreditar ter corrompido (assim mesmo o pensou, enquanto se benzia), libra-aqui, ego te absolvo acolá, o pidesco e fiel relatório. Frutuoso não era um homem qualquer, tinha a sua influência, e, confiemos, ia confiante e à confiança.

Porém, entrou no palácio e tremeu. Que o raio do secretário tinha penteado novo – onde agora o sucedâneo de parafina assegurava o risco à direita, recordava um cabelo sem margem. Mau agoiro, pensava. Pensava...! Ia o pensar a três-quartos e veio-lhe a Maria de Cristo. Dobrou-se diferente do que nela era habitual e beijou-lhe o beatíssimo anel, coisa que só fazia em casos últimos, antes de confissões de coisas graves, como ter olhado de soslaio o rabo do jardineiro. Lá fora ladrava, à tripa-forra, um cão, negócio com o regime que por ali nunca tinha ouvido. Demasiadas coincidências. Oliveira demorava-se. Nisto, veio o penteadinho justificar-se. Que o Senhor andava de volta de um carpinteiro que tinha vindo para lhe calibrar o cadeirão, insistente em chiar. Que eram só mais 5 minutinhos:  Quer vexa reverendíssima eminência uma aguinha? Uma água?, mas que merda, tenho ar de quem está de garganta seca? Um clister te dava eu. E dava! Ia para o mandar à merda mais à aguinha, quando o cão ladrou outra vez:  Manel? Entra, anda sentar-te no meu cadeirão velho. Está como novo. Ora senta-te! Ai, porra, que era o Oliveira. Agora havia confundido o ladrar do cão com a voz do dono. Isto prometia. A puta da bruxa devia de estar a botar feitiço.

Entrou e disse. Oliveira, rapaz, então agora mandas-me esperar? Que segredos há numa cadeira? Até parece que é coisa de vida ou morte. Nem sei porque não compras outra. Que apego insano, pá. É só um pouso para o rabo. De remendo em remendo, ainda acabas por te magoar.

Oliveira passeava-se de charuto aceso. [– Estou fodido!, então agora o beato fuma?] É melhor que incenso, este cubano que a bófia sacou a um comuna. Fedia, o carpinteiro que me veio olear a silha, mas é tipo de confiança. Tenho aqui assento para a vida. Por aqui não me desencadeiram eles. E riram ambos, sabedores de que nunca uma cadeira de deitaria mãos à História. Ainda que se desencadeirasse com o cu do dono em pleno descanso.

Peidou-se de alívio, o Frutuoso. Disfarçadamente, levou a mão ao cu e dali ao nariz. Era coisa que o acalmava.

Precisas então de falar comigo, amigo. Conta coisas. Já sei que tens um sobrinho, que o demónio te levou a irmã. Já pus gente a investigar a acontecimento, como sabes. Os meus sentidos pêsames e condolências por essas coisas todas, mas nunca tinha ouvido falar dessa Cândida. Afastas-te demasiado do século, meu caro. A família também importa, padre, e farei questão em que te redimas com esse teu sobrinho Simão. Não fosses tu quem és e mandava-te confessar.

Peidou-se de conforto, o Frutuoso. E, desta vez, nem disfarçou. O perfume passeou-se pela sala.

Escapou-se-te um, Manel. Cheiras a saúde. Quanto ao Simão, devias tê-lo trazido, há que o mostrar. Olha lá, e quem me aconselhas para o Interior, agora que me mataram o Mello? Ouviste falar dos doze capados? Levaram-me um ministro e dois conselheiros.

Frutuoso desceu à comezinha realidade política. Claro que já sabia que o Mello era um dos doze, e, tendo em conta os interstícios das confissões que lhe ouvia, nem sequer o havia estranhado. Aconselhou-lhe o Vasconcellos; pelo menos tinha em comum com o antecessor a anódina repetição da consoante erecta. Era homem que percebia de interiores e tinha como vantagem ser quase vizinho do capo di tutti capi, pois havia nascido em Santa Comba Dão, perto do Vimioso. Tinha, como defeito de somenos, um aperto de mão à laia de sardinha mole. E assim ficou!, Artur de Vasconcellos ia para o Interior.

Isto assente, embrenharam-se na conversa do K-12 – um modernaço dum jornalista tinha-se saído com essa parangona e a moda havia pegado. Oliveira disse-lhe que já tinha indicado à sua polícia um suspeito. Bem vistas as coisas, e tendo em conta o carácter do sujeito em questão, entre os mais-que-poucos milhares de habitantes de Lisboa, havia de ser um comuna. E em sendo um desses, o capador só podia ser aquele que ambos sabiam. E, em não sendo, azar!, matavam-se dois coelhos duma só cajadada e sempre era menos uma maçada. O cardeal disse que estava a coisa bem vista, sim senhor, mas que, pela saúde dos ministros e da demais gente de bem, a modos que convinha descobrir quem era o verdadeiro capador.

No caminho para casa, Frutuoso ia de cabeça no K-12. Há três-quinze dias que a coisa havia começado. Ficar-se-ia por aí?, pelo simbolismo dos doze?, ou seria o princípio de um escalar à desgarrada? Olhou acima, reparou que estava no capítulo 13, e sentiu um arrepio. Encolheu-se ainda mais no seu sobretudo de caxemira, rezando por abrigo.



publicado por Rogério Costa Pereira às 00:46
Sábado, 08 de Janeiro de 2011

Mulher emaranhada de fantasmas, vozes, mas forte como todas as mulheres herdeiras da antiga Gallaecia romana, ambiciosas, da estirpe de Agripina, a Jovem, em quem poder, manha e tragédia se entrelaçavam, eminências pardas em casa administradoras implícitas do campo, da fazenda, dos filhos, das amantes dos seus homens inúteis , Brigantia desde cedo aprendera a esconjurar o mal, mas a repelir involuntariamente qualquer bem maior. Fugira cedo da amarga terra natal, então a mais mísera da Península, onde os perigos da beligerância fratricida, se não se extremavam como noutros pontos, viam pelo menos as coisas piorar em Ferrol e alhures, sobretudo com o Golpe de Estado de 1936, as súas vítimas, a represión, proceso planificado, totalmente político, e, no grupo das vítimas domiciliadas na bisbarra ferrolá, esses setecentos e quinze executados, esses quinhentos represaliados, aquelas execucións nos cemiterios de Canido e Serantes, aquelas centenas de execucións extraxudiciais, no Arsenal Militar com os seus cento e quarenta e três fusilados, por sentenza de consellos de guerra da Armada, ou no castelo de San Felipe, com os seus setenta e um fusilados. Saberia depois como e quem, que lágrimas, que cadáveres, que covardes, que heróis. Evadira-se a tempo da sua Galiza, após envenenar um capitão, para isso intrometendo-se por duas vezes, duas tentativas, num prostíbulo, fazendo-se escolher por ele, atentando contra o embriagado, embruxado por si, tão certeira e calculada que nem perdeu a virgindade guardada com aquele pré-cadáver e que lá ficou espasmódico, espumando, de órbitas reviradas. Ala para Portugal. Vinte e cinco anos, amados e amores para trás, vingara-se da má hora, vingando pai e irmão mais velho seduzidos pela causa, também apanhados pelo torvelinho franquista clarificador. Com ela, ainda nova e fresca, acoitaram-se em Lisboa dois irmãos moços, poucos dias depois misteriosamente mortos no paquete que os levaria ao Rio de Janeiro ao encontro de parentes de segunda geração, e três irmãs, logo embarcadas para o mesmo destino, prontas ao serviço completo em duas das melhores casas da velha elite colonial fluminense, casas cuja cor de pele nunca escurecera e cujos bens nunca minguaram, na qual a maçonaria e a aristocracia pacientemente se haviam miscigenado em paz. Em Lisboa, cidade virgem para ela, virgem, embarcados os seus, começou bem, mas logo se viu na rua, viveu fomes, horas prenhes de angústia, suspirou nos cais, andou perdida sob o azul celeste da promissão lisboeta, mendigando por dias a paga de um labor doméstico, farejando migalhas, sonhando por uma âncora qualquer. Ainda bela, mas já triste e misteriosa, tão nova e no entanto já velha, já vil e ressentida, definhava de dia para dia. Foi Baltazar a dar com ela numa lividez suicida, esfaimada, entregue a uma solidão mortiça de puro desencanto. Dera-lhe o braço ao desembaraçá-la, com sangue efundido, de um abutre refinado biltre no seu assédio e promessas de chulo. Nessa noite, a galega comeria e acalentaria finalmente o corpo numa cama digna e de gente. O paço senhorial do Ezequiel Teles, nada mais que uma casa grande e buliçosa, abria-se-lhe a ela. Foi ficando e jurando ficar. Recados, limpeza, cozinha. Aprendia as rotinas e o serviço entre as demais. Esperta, ascendera a mandar, gradual depositária de responsabilidades e segredos mais pesados, por uma vez do sémen do Teles, tornara-se sua mãe, zeladora, ocasional aperitivo fornicador antes das cavalgadas novas pela cidade, conquistas, mulheres, amantes, coisas em que o Teles se esmerava e prodigalizava. E agora, ainda mais velha, ainda mais vil e ressentida, somente sublimada no ver-se mãe-avó, seguia ali, no automóvel cardinalício, sob um odor a morte que empapava as palavras do outro. Tinha dele instruções muito claras. Obedeceria à palavra ditada porque o começo de ter poder e exercê-lo consiste muitas vezes em simular imediata submissão, acatamento a mandatos dos machos ainda que desconchavados de espírito ou meros cobridores sem estratégia nem casta. Entre um e outra, Simão parecia nem respirar, nostálgico da lição afável e fecunda do padre doutor Leão, ao contrário dos outros e daquele para seu azar, eis um padre assexual, mas não assexuado. No extremo do assento, taciturno e ainda mais lívido, seguia o lívido Cardeal, espicaçando o motorista por uma rota mais certeira, «pedal a fundo!». Aflito pelo perigo do contágio escandaloso daquelas mortes, interessava-lhe indagar, saber inteiramente se a partir dos próximos aos seus quatro defuntos amados provinha murmuração que lhe roçasse o anel episcopal ou lhe sujasse a estola. Brigantia agenciaria saber e mais alguém. Seria ela, lacrimosa e oculta, num véu de luto, vestida de negritude, a perscrutar os rostos, a vasculhar nas conversas mortuárias pelo nome pronunciado, aludido, pairante: Frutuoso. Sé. Entraria em homenagem pelas casas de cada qual dos degolados, porque dois dias após as notícias efémeras, as exéquias se apressariam, os cadáveres se aprontariam, mal refeitos e limpos da cal aquosa que lhes desfigurara as carnes, grotesca adstringência petrificada de gárgulas por onde ainda um fio de sangue manaria, se revirados. Ei-la, portanto, espetando os olhos na janela com árvores corredoras, mulheres e homens macilentos de sachola ao ombro. Ei-la mergulhando no medo e na manha de lhe escapar. Interiorizava o papel dado, transida de receios apenas de que tivesse sido Baltazar a mão que rasgara aquelas jugulares, recortara aqueles sexos como se fossem escalpes, chegara-lhe o mínimo sobre o que agitava o Cardeal, «Ah, esas goelas empeçonhadas de veleno sodomita. Quen diría que eran quen eran?!». Fidalgos. Certo é que o afilhado dum demónio e filho do Anjo que era a sua mãe, Baltazar saíra assim que saíra Cardeal e menino, antes de inesperadamente regressarem por ela. No seu mutismo ansioso e madrugador, lobo ao encalço da rês ferida, terá pensado «Se não me permite estraçalhar já o monte de estrume desse Ortega do Diabo, há-de saber-se de onde virá o inferno.» Saíra. E ter saído era tudo quanto Brigantia sabia. De Ortega, nada ouvira havia semanas. «Por suposto estará na Capital, na colleita de sodomizar e dar a sodomizar, Saturno lle parta os cornos, lle coma as tripas, lle vare os ósos, lle dea quebrantado ao tesón, mil veces maldito!» Ortega, efectivamente, não estivera longe nem dos doze liquidados nem do paço episcopal nem tampouco do covil de fornicar. Quantas vezes, dois ódios somados e recíprocos cooperam apenas para que um fim útil ainda que provisório seja alcançado? Ortega e Baltazar. Mediam-se. Um ficaria de pé em devida hora, o outro estendido e de olhar vítreo. Entretanto, porventura, nesse armistício de se comerem com os olhos, nessas tréguas por se liquidarem ou devorarem um ao outro, haviam certamente tratado do problema que sabiam constituir ao seu senhor Frutuoso e lho desenharam nitidamente. Antecipando ambos um exílio decretado, um para longe do prazer duramente conquistado, velado e guardado, esses moços, outro para longe da mais subtil familiaridade com um Simão agora crescido, talvez grato nada mais que agir. Doze castrados. Doze mutilados. Doze Judas dignos de requiem nenhum, nenhum sossego para o flácido Cardeal, amador de quatro de tais homens. Doze genitais dispersos, doze impotências flanando sanguíneas, dadas aos cães, e nunca mais erectos, insaciáveis, sobre os quadris estreitos de adolescentes imberbes, pensaria Baltazar. Não pensaria Ortega. Impossível determinar a justeza daquela suposição, sequer de tal acção, conjunta, complementar ou separada. Chegados e instalados. Horas após, entretanto, Brigantia haveria de calcorrear os caminhos da cidade, odiosa babel, rumo às exactas moradas, um por um, dos doze, somente daqueles quatro tidos e tomados pelo Cardeal, coisa que nem sabia nem supunha:

Quero que escutes, mulher, o quanto possas. O menor ciciar do meu nome. A menor alusão ao Paço Episcopal, de alguém do Cabido.

Concluiu ela temer o clérigo nada mais que o escândalo e que para que a desgraça daquele sangue não caísse sobre ele, dispusera remediações, tomara medidas. Apenas isso. E foi assim que chorando ranhos, bradando e rindo, entrou naqueles lares varados pelo opróbrio e repletos de estupor. Sondava aqueles ares pesarosos e aqueles fumos de ócio enlutado como uma sibila. Abria-se toda, espertando os sentidos, a colectar murmúrios, olhares, suspiros.



publicado por joshua às 21:22

Mas, enquanto as coisas iam e vinham e se decidiam, enquanto Brigantia, Baltasar e Ortega ficavam no limbo (na altura ainda não dissolvido), e se tomavam decisões acerca do futuro do Padre Leão, havia que ir a Lisboa. Sobrinho e tio. Padrinho e afilhado. Urgia cumprir o destino há muito traçado e jurado entre sangue de pai matado. Aqui (como em alguns “ali” que não são por ora chamados a esta história), Frutuoso ditava a Palavra, ao invés de a espalhar como havia jurado. E, mais do que a ditar – à Palavra –, delegava-a, em forma de destinos a traçar, no seu filho. Nesta porção do pensar, benze-se três vezes e corrige, no seu sobrinho, no seu sobrinho. No filho da sua irmã. E apertava o cilício de metal que usava na coxa sinistra. Pela irmã nunca tida, pelas demais mentiras que havia decidido proclamar. E um pouco mais, porque sempre tinha querido ter um filho; e mais ainda, porque bem sabia que o bucho dos homens não se enchia como os das mulheres quando emprenham, o que esgotava definitivamente as suas possibilidades de, ainda que em pecado, ser pai – ser Pai! Deste pensar vinha outro e havia que fazer mais do que discretamente apertar a penitência mortificante e redentora. Frutuoso movia-se para um esconso e, despido a nu, antecipando o desvio que se seguia, vergastava-se até sangrar por onde tantos tóraxes hirsutos se haviam encostado. Era, mais uma vez, o fantasma daquele cabrão adúltero do Camilo que, Deus queira, havia de estar a arder nos infernos. Aquela “impressão indelével”, a maldita historieta do demo que mão perversa lhe havia deixado ao olhar. E aquela frase!, aquela maldita frase que se lhe pegava à pele que nem sarna. “Semel sepultus, bis mortuus”. Sepultado uma vez, duas vezes morto. Raios partissem o bastardo, que lhe havia traçado o epitáfio há mais de uma centena de anos.

Feitas as rezas, orada Maria e os demais, eis o Primo Cardeal – alma novamente branca – de volta ao conforto do caramanchão onde, mascarado de bonacheirão, aguardava que as armas e bagagens do petiz se aprontassem para a jornada. Distraidamente, como quem aguarda sem poder apressar, Frutuoso ia folheando o Diário de Notícias. De como o país andava bem, das mais-valias do volfrâmio e da guerra grande que já lá ia, de como fulano havia voltado do Brasil após visita prolongada. Na página doze, benzeu-se. E benzeu-se de novo. Ali se falava de um imundo caso havido em Lisboa. Doze homens haviam sido degolados numa só noite. Doze pais de família. Doze fidalgos. Frutuoso reconheceu o nome de nove. Desses, havia sido apresentado a sete. Dos sete, conhecia cinco e havia amado quatro. A dois, mais renitentes, havia mesmo mandado ajoelhar e absolvido dos pecados passados e futuros, o que os descansou e lubrificou.

Falava-se também da água de cal com que o assassino havia regado os cadáveres. E de como também os havia capado. O primus inter pares estremeceu de cagaço, mijou-se de mijo que lhe soube fresquinho – tal a febre que lhe subia –, orou, fechou os olhos e ergueu-se de estrondo, bravateando de um só fôlego:

– Simão!, Simão! Vem já como estás, desinfeliz, que já tiveste tempo de sobra. Dos miseráveis machos, e desse Leão por quem tanto clamas, tratamos depois. Traz mas é a bruxa, que mulher de jeitos dá sempre jeito; e depois logo se vê. E descansa que não me esqueci que te encomendei o sermão dos destinos desses animais.

Tudo dito de um só fôlego e sem respirar – assevera quem viu e avalizo eu, que o ouvi de quem diz histórias à lareira –, que quem tem cu tem medo e o medo dá destes ventos irracionais que fazem o condenado ter urgência em encarar o verdugo. E lá vieram os dois encomendados.

E lá foram os três. A caminho de Lisboa. Brigantia ia de carpideira – orou e chorou e berrou e temeu a cada légua do caminho. Frutuoso, temente da alma castrexa, não a repreendia. A genica da bruja, o espírito da croucha imperava. Esta, simples simples, temia pelo seu menino e tinha saudades (palavra que já sabia dedicar) da sua Finisterra natal. Sabia que se seguia o inferno. Simples simples, deixava-se conduzir, já de peito minado pelos vermes em forma de gente que dentro das suas infecundas entranhas haviam de largar, entre aflições, o que pudessem.

Entretanto, Babel já se via ao longe. Os três fecharam os olhos e pediram. Cada um a quem quis. Cada um por quem quis. Cada um à sua maneira. Frutuoso, que seguia com o valor acrescentado dos doze homens degolados, ciciou um “ai mãezinha”.



publicado por Rogério Costa Pereira às 03:36
Quarta-feira, 05 de Janeiro de 2011

O aniversário de Simão foi o que sempre fora. Frio. Naquela solidão imensa, sob a velha redoma de arremedo familiar, amparada pela franca maternidade de mãe-avó que Brigantia acrisolara sublimando a bruxa, bafejada pela comparência do padrinho-cardeal de voz maviosa, cruzes de prata e umas moedas como presentes, tolhida pela face taciturna, bisonha, com que Baltazar encarava os dias. Certo é que este monturo-monstro, quando visto de fora, ganhara ao moço um zelo, um solene afecto pesado e desmedido, ainda que oculto por modos muito pouco humanos, todos de lobo. Simão apenas suspeitava ser Baltazar capaz de lhe dar a vida incondicional. No mais, temia-o prudentemente porque o sabia trazer Ortega tão sob o olho, tão bem guardado para uma hora perdida, fitava-o tão desabrido que nunca se saberia se a lâmina com que finalmente o vazasse o não salpicaria de sangue, a ele, em cujo corpo se entranhava a pátina do esperma e demais imundície babantes do outro, pesadelo que tinha. Homem possante, todo nervura e músculo, de manápula temível, Baltazar tratava dos assuntos impossíveis que lhe encomendavam, questões de honra para as quais era contratado por covardes a fim de que, com a sua persuasão firme e violenta, equilibrasse deves e haveres. Numa mão a navalha, na outra o bastão. Fora esses biscates ocasionais, dava também uma ajuda na lavoura se lha pedissem ou requeressem, que era economia. E pediam. Não se oferecia. Sabia-se valer por três e isso chegava e sobejava para a solicitação que aceitava com um orgulho de Golias, vaidoso da sua valia braçal. Não a negava também porque encontrava um secreto apaziguamento nos suores das colheitas, no odor-orgasmo a terra arada e semeada, na bicheza a rastejar ou a saltitar entre os riachos e as talhadas, nas aves de arribação, que abalavam e voltavam. Caçava. Pescava. Aí, sob a canícula, olhando o azul ferrete do Céu, auto-indulgenciava-se finalmente, pensava com nostalgia na mãe que o marcara pela ternura e o excruciara pelo sofrimento com que se foi, cadáver vivo, esvaído em tosses de sangue, mãe terminal como tantas outras caídas na flor dos anos para desvalimento dos filhos indefesos. Não poderia supor ser ela o único Anjo a velar por si, enternecido e paciente, em todas as horas, especialmente quando se derramava contemplativo entre a natureza e a dureza do trabalho. «Minha querida mãezinha! Tuberculose filha da puta...» E um calafrio estranhava-se-lhe na carne com as imagens dela, indeléveis e mudas, a correrem-lhe como numa tela no mais fundo dos cornos. Chorava e transpirava então numa alegria de alívio. Ao longe, vacas mugiam numa prosaica sintonia e um crepitar de galos escarninhos, de repente a estralejar cantadoria, emoldurava-lhe a saudade e o queixume. Calos da sachola, mão nodulosa segurando o duro arado. Semear. Colher. Horas raras. Horas belas. Nas demais, embuçado pelas tavernas e antros, tratava de outras sementeiras. Como bom agente do Diabo que sempre fora, farejava a fome e a sede de outra coisa trazia a vontade de comer outra coisa , em homens mal casados, inclinados a outro gosto, e acabava implorado a dar-lhes o sonho gemente e passento de se oferecerem finalmente em modo fêmeo ao macho final. Final também porque nem sempre estas histórias acabavam bem. Corpo estranho na cidade, arredio de gente, Baltazar fizera umas mortes, forçadas pelo mais pequeno assomo de indiscrição daqueles a quem saciara. Descobrira mesmo nelas, surpreendido pelo próprio talento natural, um prazer tão próximo do estertor de se vir ou fazer vir os que lhe demandavam o serviço empalador. Enigmas da cidade secreta e subterrânea. A avidez gloriosa do amor que se gloria de si mesmo destrói tantas vezes a bênção de um saciar discreto a contento de dois ou três de cada vez. Aí, havia de operar ao bisturi interruptor e a sequência dos eventos levava a limpezas perfeitas. De resto, não eram homens para que os respeitasse um migalho que fosse e muito menos eram homens para ele. Esse papel viril e reprodutor a sociedade impusera-lho, fazendo-lhes o casamento curativo da má estirpe efeminada. Depois suscitara-lhes filhos. Era, porém, a crucifixão das suas mulheres, essas máquinas lúbricas, sem corpo que lhes canse por foder: à noite, madrugada adentro, pela tarde, pela manhã, ao fim da tarde, depois do almoço, a seguir ao jantar, entre a palha, entre o milho, ao pé do lameiro, ao pé do ribeiro, no monte, na arrecadação, na cagadeira, na cozinha, no pinhal, sobre um tufo de trigo, limpando-se, levantando-se e siga com a instrução do dia. Sofriam elas uma castidade ressequida que matava, ora inseguras, conformadas com a secura da procura dos seus corpos, ora sublimando esse rarear varador com chiste e ironia por anos de malditrimónio a fio. Baltazar, amante de homens, dominava-lhes as carnes pelo hábil jogo de mãos compressoras e aquela força de submeter, virar e revirar reses, sem um suspiro de esforço, enquanto arfava decidido, todo intuitivo, eficaz como uma máquina de tear no ir e no voltar. Mas dominava-lhes as mentes também, pelo temor incutido, pelo terror infundido, um olhar de demónio, seguro de si como deus ou quimera, a força, o gosto de magoar sem magoar, e nada mais afrodisíaco que esse enleio. Perante o espectro de qualquer publicidade indesejada, mal Baltazar a farejasse, valia mais morrer e morrer era o pedido que lhe faziam, num acesso de remorso, desespero ou vergonha. Ele abafava essa agonia e também sossegava. Não tinha fé nem religião e até andara nas lides jacobinas colocando umas sotainas na linha. Se entrava em Igrejas, forçado pela tutela que o Frutuoso lhe imputara e à velha, e se ajoelhava era com escárnio e para troçar daquela quinquilharia santeira que não se importara, em tempos, de escaqueirar e escaqueirara. Sob esse enxofre de blasfemo feliz, amara um Padre de aflitiva carência que o cobria de beijos sôfregos, lhe dava galinhas, presentes de um tal requinte que a petrificada coisa arvorada em coração dentro dele não deixava de sorrir o sorriso da lisonja e da vaidade: «Saliva por mim, o padre tolaço!». Um terceiro metido nesse jogo pôs o arranjo em perigo. O Padre negociou. O intruso apertou os dois. Baltazar deu-lhe sumiço para nunca mais. A paz e o ferro frio de fornicarem ficaram com eles porque o terceiro, já cadáver, pairava ainda mais insinuante. Fornicar ou o sublime efémero para almas desenganadas. O século penetrara a Igreja mas agora seguir cada qual o seu caminho. Enfim, Simão. Catorze anos feitos. O poder de sentenciar aquela trindade, dera-o Frutuoso a Simão. Fizera-se gente. Até aí, bebé que se aquecera no meio de dois corpos a frialdade do seu abandono, criança que lançara o pião e papagueara latins de calças novas e cu dolente. Brigantia e Baltazar? Nada mais que uma cumplicidade telepática, sem remoques, sem discussões, fraterna e funcional como se um fosse o cabo e o outro a lâmina. A mão de Frutuoso manejava-os a medo, mas não lhes falava a medo. Legar em Simão a saída daqueles, reformá-los, cumprida a sua missão, mal disfarçava menos o escrúpulo que esse temor difuso:

Deixe-os lá estar, Reverendíssimo Padrinho! Por enquanto...

Lá se empandeirasse o filho da puta do preceptor, sim, era serviço. Era mandá-lo para longe, numa viagem, numa missão. Gramática latina, verbos, declinações e foder sem ponta de brincadeira era muito lindo e logo nas festas misturadas, onde se comiam chocolates, se bebia laranjada da boa, gasosa, empalado por uns e felatio in ore com outros. Merda de latim foederativo! Nunca usar os dentes, para nada. Os dentes são gelados e duros. A glande é sensível e precisa de calor e macieza. Babar é o quanto se possa! Sem medo. Quanto mais a coisa ficar besuntada de cuspo, melhor. Não ter vergonha de babar. Concentrar-se na glande. Engolir o membro todo, isso não, que o verdadeiro trabalho dá-se com os lábios e a língua, não com a garganta, e faz-se sobretudo na cabeça. Filho da puta, o mestre destas merdas. Sabia muito. Mas os caminhos do Todo-Poderoso são insondáveis e o certo é que longe da tartufaria do Cabido e das festas de cu lasso, Simão descobrira milagrosamente no Pe. Leão, homem doutíssimo, viajado, missionário, frequentador de bibliotecas e academias europeias, uma luz compadecida e uma fonte de sapiência inspiradoras. Simão não lhe franqueava o coração inteiramente, mas não escondia a admiração. Ouvi-lo era viajar com ele. Demonstrava com limpidez a sua espiritualidade fraternal. Falava do Cristo com a palpitação de O ter visto, tocado e ouvido. E era bondade pura, uma inocência cândida e desconcertante no trato fosse com quem fosse. Apodavam-no de socialista apenas porque lera as ideias dos franceses e gostava de discutir e debater. Antes que se afundasse na fundura de um ódio guardado e sem remissão, «era o Padrinho dar-me aquele doutor».



publicado por joshua às 05:18
Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010

Já Simão, ciente dos pesares e pensares da mãe Brigantia, mas ainda aprendiz do que viesse, com os seus nove anos de estradas e veredas – escasso eufemismo para quem nasceu das poças do sangue dos seus pais, ainda que aquém da idade onde é suposto as memórias se formarem –, digladiava-se entre ser um discípulo do mestre, a quem já sabia (pudera!) as vidas de Miguelito corcunda, ou lutar pelo pouco-mais-que-nada que ia decifrando nos escassos suspiros enlevados de Brigantia. Nesses sonhos – eram sonhos –, e porque gente que é gente exige uma mãe, Simão via Brigantia em forma de ave grande, de garras afiadas de amparo, arrebatando-o para um ninho sem dores.

O acordar, de cu dormente e pesaroso, ao lado do seu sôfrego mestre, era-lhe aflitivo. À luz do dia, Simão caía no terreno alagadiço de fundo margoso a que a sua realidade se resumia. Existência a que podia dar um nome: Ortega! “ – Miguel Ortega, odeio-te como, em pescador, a peixe ensardinhado, batido pelo mar, mordido pelos caranguejos!”

Passou mais um ano. Ais de um ano. O império de activismo pro-pedófilo de Ortega começava a dar nas vistas e nos ouvidos da capital do império. Ortega não se bastava com o acto, fazia dele uma religião cujo deus morreu empalado em defesa da neutralização social da efebofilia (especializava-se, o arremedo).

Inevitavelmente, das bocas que ouvem do diz-que-sim, a afronta arrimou aos sentidos do Cardeal. Este, lúbrico curioso e indefectível de Ortega; este, protegedor e patrocinador de Simão. Este! que mantinha aquele arriscando o eventual sacrifício deste. A Brigantia e Baltasar, embora à vista de quem vê desconsiderá-los mais fosse impossível, confiava-lhes o não-vá-o-diabo-tecê-las.

E, assim, lá foram os quatro para Cardigal, lugar a meio dia de Lisboa (medida de cavalo-cansado) – urgia afastá-los (afastar Ortega), que havia um sobrinho de catorze anos (e, seguramente, incontaminado de e pelos fundos), órfão de já e de depois, que vinha a caminho.

Cardigal era mato e pouco mais. Tojo, uma casa grande e uma casa pequena e uma igreja e meia dúzia de casebres. O dono da casa menor era o príncipe da casa maior onde se exibe a cruz das súplicas. Na casa grande couberam, por cinco anos, Ortega, Baltasar, Brigantia e Simão. Longe das vistas do tio Cardeal e do regime que haveria de sublimar o sobrinho. Mas perto, demasiado perto, das dores de cu de Simão, e dos ascos e rancores silentes e cobardes de Brigantia e Baltasar.

– É matá-lo, dizia Baltasar; – É ter calma, retorquia Brigantia, que a morte que lhe antevejo é bem mais penosa do que a goela cortada que lhe reservas.

Simão faz hoje 14 anos e o tio vem pelo sobrinho.

Para os outros é o dia do queira-deus-e-a-ver-vamos. Para Simão, já cientista de parentelas cardinalícias, era o dia do cá-calharás. Brigantia, Baltasar e Ortega vão saber o que o Cardeal lhes reserva, embora certos de que o seu fado seria gritado pelas goelas de outro. Não se enganaram, que o Cardeal era criatura justa, homem de designar juízo em quem sabia tê-lo.

– E a estes, Simão, que faço?

– Ouviste, criatura?, que faço a estes?



publicado por Rogério Costa Pereira às 04:40
Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010

Na toca em que Ortega tocava e se fazia tocar, submerso na sinestesia de incensos havaneses e daquele inefável bichanar, forjavam-se friezas novas, mentes capazes de capar, matar em três tempos e no entanto contidas, frias como a espada dos cossacos. Mas também nascia ali o pragmatismo determinado a ter poder com as devidas manhas, decisivas para eclodir triunfante na vida adulta, se lá chegassem. As naturezas moldáveis dos rapazes esgalhavam à mão o por onde começa um Anjo e termina um Demónio com a boca, como ser e fazer uma coisa e outra ao mesmo tempo. Ali, secretamente, o carácter de cada qual dobrava-se à dualidade negra e natural do velho sexo milenar com rapazinhos, cancro ou bênção que ninguém ainda combatera ou perdoara e viv'alma alguma vez denunciara ou condescendera. Não existia. Não tinha chamadoiro a não ser o das maldições de Sodoma e Gomorra, pois era natural vexar homossexuais, maltratá-los torpemente, coisa ou limpeza que não daria em notícia, meter-lhes pelo cu um rabo cortado de porco com as suas cerdas cruéis em farpa impedindo a saída e esperar sentado uma morte infecta e sádica sem remissão a não ser que houvesse coragem para uma hospitalização ainda mais humilhante. A juventude é sádica e demoníaca quando em bando. Na toca, o bando era organizado, hierárquico, e sobretudo divinal na codificação do pecado e da vez de comer. Dos outros rapazinhos Simão não foi diferente, mas o ódio que lhe fermentou até ao mortífero ente que dentro se lhe engendrava, esse foi inteiramente diferente dos demais querubins de quatro. Mesmo estes, na maior parte dos casos, aquiesciam sem relutância ao benefício de se darem em troca de bens para eles tão suculentos quanto perecíveis. Havia ali um desnível de poder, a extrema ignorância aquiesce com tudo, vislumbrava-se a porta para um futuro com estatuto e uma liberdade longe da fome descalça vista e revista especialmente na terrinha, e ninguém pode imaginar a neutralidade do erotismo quando tudo é ainda indefinido e tenro como a placa de cera onde os escravos gregos ensinavam os meninos romanos a cunhar as suas litteras. Nada de novo para Simão. Mesmo na velha Grécia que tresandava a religião e a religiosos, os efebos amavam sobretudo os homens mais álacres e generosos, de cujo espírito fluíam o humor e a leveza dos ditos filosóficos: «Bebe, come à tua vontade...» a prometer mundos e entrando pelos fundos e a cujos corpos a entrega se tornava doce apenas porque cheiravam bem, tinham mão firme e algo a ensinar que libertava. A troca era justa. Os ninguém tornavam-se alguém devidamente fecundados, de sémen e sapiência, por alguém mais alguém e há mais tempo que eles. Mas ali, na toca secreta, lugar frequentado por uma roda viva de poderosos de face petrificada, aves de rapina, um dia eles mesmos cravados de posse e crivados de beijos perfeitamente escanhoados, personalidades acabadas ou arrasados por ninfetas inacessíveis ou submissores de efebos depois de anos submetidos, o segredo estava tão fechado quanto a hermética caixa de Pandora: nasciam de novo para uma vida inteiramente nova todos os iniciados nesse sexo não oficial e no entanto florescente em tantas famílias onde se dormia quatro a quarto ou cinco paralelamente a cinco e nada se interpunha ao endurecimento da natureza, filhas levavam buxo a eito e nada de perguntas quanto a netos e a irmãos tendo por pais irmãos das mães já não tios. A intimidade fazia-se por força da gravidade e amadurecia por força da gravidez. «Mon petit!» As Nações fazem-se nas camas vivas e acabam na recusa procriadora e ninguém é de menos quando a natureza assim ordena. Enfim, Ortega herdara um esconderijo celestial e conservava-o perfeito para negócios e sensações grosseiras que viciavam como álcool e anestesiavam como morfina. Não era estranho cópulas consumadas onde os gemidos pelos desconfortos da penetração se misturavam com o mastigar simultâneo de bolachas, pedaços de chocolate e outras fantásticas dádivas que mãos pródigas prodigalizavam, abrindo disposição a festinhas e festanças. Comer e servir de comida. Simão foi iniciado nestas letras e conformou-se inicialmente com as suas agruras assim como com o leite e o mel inerentes. Tinha as suas armas e as suas aras. Amuava como as moças. Como as moças fazia-se difícil até ser dobrado com qualquer presente certeiro, inteligente. Ortega não pesava com as necessidades corporais comparadas com a leveza de companheiro. Por isso punha a máscara jovial, tinha uma severidade prescritiva, conseguia um ascendente pelo disparar da fala despachada, resposta rápida e assertiva, e não deixava de usar de um bom gosto extraordinário nas gestão dos actos litúrgicos de que o encarregavam: ensinava porque sabia e tinha dilacerações de artista. Sabia calar bispos ignorantes quanto ao dispositivo cerimonial e isso cobria-o de uma aura de prestígio entre os moços mais leais, aspirantes a um poder assim igualmente tão sapiente. Era comum Ortega, Simão e mais um ou dois entrarem n'A Camponeza para um lanche ou uma refeição: era ali, nesses momentos e nessas ocasiões, que as fidelidades mais coesas se forjavam, no matar da fome, no requinte, na sensação de excepção que se atribuíam. Faziam-se homens e lavavam-se muito mais vezes que qualquer mulher conhecida. Quem olhasse para eles nunca descortinaria amantes. Nada a pensar de meros aprendizes da liturgia e de actos amatórios consumados. Conversavam no bichanar das confidências, sabiam e eram postos ao corrente de todas as fragilidades ou anedotas do clero e das respeitabilíssimas entidades da política. Nas antecâmaras da Fé, Ortega, duplamente recto e triplamente erecto, se se visse a sós com algum dos moços, ou no pretexto de se cumprimentarem, tinha uns abraços muito sôfregos e uns beijos muito rentes ao rasgão das bocas resgatadas ao ranho, à cárie e sobretudo às fomes de roedor. Um silêncio meio entontecido tomava conta do moço sob a sua asa de morcego, Quasimodo de Mourão. Contavam-se anedotas, bebia-se vinho do melhor, esqueciam-se avanços e os varar de carnes. Recompunham-se os suores daqueles minutos tão caninos quanto canzanais:

Mestre Ortega, pode vir gente... Oxalá viesse gente...

Que murmuraste?

Era proibido murmurar. Havia pressa em que acabasse. Por isso, a experiência ditava um grito de estilo a estimular uma pressa que se vinha ou haveria por força de se vir:

Fode, fode, fode, filho da puta!

Se não era dito, era pensado, que «Deus não gosta de palavras más, obscenas». Ninguém haveria de interromper aquele frémito habitualmente demorado por falta de estrias naturais onde a natureza as não meteu e onde os óleos e as exiguidades nunca bastavam, mãos postas naqueles pequenos flancos. E as anedotas abençoavam aquela mesa n'A Camponeza, como a do brasileiro e da portuguesa que se apaixonaram e amavam muito. Depois dos coitos, ele perguntava, entre cigarros, se ela não tomaria banho e ela respondia que já havia tomado. Ele insistia. Invariavelmente ela respondia que já tinha tomado. Nessa manhã. Eventualmente, ele perderia todo o interesse. Eles, não. Ali eram muito limpos e o banho uma regra depois daquelas coisas. Brigantia achava o menino um regalo. Zelava por ele como uma fotografia do seu femeeiro senhor. Não era ruívo. Tinha, porém, um cabelo claro, quase loiro, um nariz adunco de judeu morgado do Norte de Portugal, o seu Simão. Já não era uma criança e isso custava-lhe.



publicado por joshua às 01:12
Domingo, 26 de Dezembro de 2010

Isto dito, explicado o Telles pai, desvelada a nobreza da sua desonra, cuida agora contar de Simão, filho de Ezequiel, pai que haveria de ser do João que nunca foi – ou que apenas foi pelos parcos segundos que levaram seu pai a desentranhá-lo e arrebentá-lo de encontro às lajes de pedra que por ali estavam à mão. Simão, o ainda filho da puta (que o Cardeal não arranjara tempo para o desemputanhar com águas exorcizadas, tamanho o atrás descrito), passa a ter Baltasar por pai e Brigantia por mãe.

Isto aqui para nós, que a verdade a dar à história seria bem diferente e já estava traçada. Aos catorze anos seria apresentado ao regime e a Lisboa como sobrinho do Cardeal Manuel Frutuoso. Simão de Frutuoso Telles. Filho de Cândida Frutuoso, irmã de Manuel, e Artur Telles, visconde de Lousado (afidalgado rótulo que o regime republicano haveria de legitimar). Colhidos da vida por uma besta assassina que noite dentro lhes havia irrompido pelo palácio. De Lousado a Lisboa, as léguas eram suficientes para fazer passar por verdade a intrujice. E assim – tio recebe sobrinho órfão –, justificado ficaria o acolhimento que o íntimo da nada parda eminência haveria de dar ao sobrevivente aristocrata. Esta história, a oficial, não vamos mais para aqui chamá-la, mesmo porque a dita se pode ler em qualquer biografia do Patriarca. “A sua bondade ficou também demonstrada quando, em (…) acolheu o visconde de Lousado, seu sobrinho órfão, (…)”

Voltemos ao que realmente sucedeu. Quem criou Simão e lhe limpou as merdas e os ranhos, isso, foram Baltasar e Brigantia. Relegados, porém, ao lugar de criados do menino, que Manuel não era homem de entregar o seu futuro sobrinho social nas mãos sujas de sangue, suor e sémen de serviçais de má-fama – bembonda ter permitido que uma não-sei-quantas sem nome viesse dar a alva teta ao menino (e só essa alva teta, que ele lambia após beijar a testa do menino que mamava, o desviava de lhe dar caminho – à dona da alva teta).

E assim, como se esta história não tivesse já personagens suficientes, eis que se apresenta o enviado de Manuel, preceptor de Simão. Miguel Ortega.

Será suficiente anunciá-lo, para assim justificar o devir de Simão, como o dono da verdade absoluta, aquela da qual todos os outros foram despojados aquando de um infeliz episódio com uma serpente e uma maçã. Total nas convicções - feitas de infâmias, cobardia e despeito –, o mestre Ortega deitava as cartas de forma imponente e ia sempre a jogo, ainda que não lhe conhecesse as regras.

Paradoxalmente, só assim era fora do seu habitat natural. Assim que dobrava as fronteiras de Mourão (uma vez por mês), curvava a espinha e voltava aos seus derreados e arqueados estados naturais (o que lhe aliviava a dor de se fazer passar por gente). Ali, na quasi transmontana aldeia-mãe, Mestre Ortega era o Miguelito corcunda.

Passado o lenitivo fim-de-semana, voltava a Lisboa. À procura de alimento, afastava-se do seu cativeiro redentor. Obrigava a coluna ao estado erecto que copiava dos humanos, censurando as pavorosas dores que tal lhe causava. Passados alguns dias, teso que nem gente – transido de sofrimento –, culpava o único espelho que tinha em casa pela imagem torcida que todas as noites lhe voltava. E, de curtas memórias, ajudado pelo padecimento, confiava cegamente no tamanho e na perpetuidade da sombra que o sol mentiroso lhe afiançava.

Fora de Mourão, Miguelito, feito mestre, vende-se por menos de trinta moedas. Quando alguém não repara nele e se coloca entre si e aquele sol enganador, que o faz ver-se tão grande, sai-se com ameaços entredentes disto e daquilo. Nunca esquece. Morde pela calada, mas quer fazer de conta que tem tomates. Planta opinião como quem ateia as chamas dum auto de fé.

Sempre com fome, Ortega é todo um sistema judicial. Na sua caverna, para além de tocar rapazinhos, faz teatros de marionetas digitais em que os dedos do pirete são os juízes. Ventríloquo manhoso, lança as vozes que decide aos deditos que manipula. No fim, com voz bebida, põe na boca do juiz as palavras que quer: “culpados! sois todos culpados!”

Quando encontra quem o alimente longe daquele maldito espelho que o minimiza, afeiçoa-se. Deixa-se haver. Faz de conta que aceita ser a voz do dono que, longe daquele espelho mentiroso, lhe dá ração.

Ortega (assentemos nesta graça, que Miguelito e mestre já sabemos que também é) tem de provar que é corajoso – só assim lhe dão de comer – e, para isso, faz, apresenta e vende sopa da pedra, aceitando por bons os ingredientes podres que os homens-bons atiram ao lixo. Mas há quem coma daquilo e lamba os beiços, gulosos de putrefacção. E pedem para repetir, que está muito boa, que assim mesmo é que é. País duma merda. E Ortega incha como flato embargado. Fica quase do tamanho da sombra que o engana.

O Ortega que Manuel Frutuoso haveria de escolher era enorme. Levava imensa gente à toca que arranjou, longe do quartinho com espelho. E aplaude. E aplaudem-no. E aplaudem-se uns aos outros. Ali, na toca sem reflexos, de espinhas torcidas e caudas desveladas, decide-se o país. E bichanam, para que ninguém os ouça. Têm esse cuidado. Tem esse cuidado, Ortega.

Acasalada a fome com a vontade de comer, foi neste homem encantador que Manuel decidiu depositar o futuro de Simão.

Oito anos passados, tinha Simão quase nove, Ortega justifica-se perante o seu amado dono, Dom Manuel, a quem odiava. Que se era certo que Simão ainda não reconhecia as letras, ainda menos os números, Ortega via animadores sinais de recuperação. Que o atraso havia de ser por o menino ser filho de puta. Que nesses estados, pese embora o baptismo, as coisas levam mais tempo. Asseverava animadores sinais de recuperação. Apelava à confiança de Dom Manuel e lembrava a determinação que ele, Ortega – vencedor da sua própria paralisia (isto só pensava) –, tinha em vencer o natural estupor de Simão.

Mas se ambos tinham a consciência da realidade de Simão, já fervilhava de podre a aceitação da máscara que haviam de lhe impor. E, diabos o curvassem em Lisboa (tarefa impossível), se não havia de fazer de Simão um seu igual, garantia-se Ortega. “Après moi, le déluge”, como sempre dizia. Se Manuel havia escolhido Ortega, este, sem que aquele o soubesse, havia escolhido Simão como seu sucessor – o seu novo moi. Simão de Frutuoso Telles (y Ortega), o que haveria de arrastar deste Portugal os íntegros e os virtuosos.

E veio este a ser o pai de João.



publicado por Rogério Costa Pereira às 01:54
Domingo, 19 de Dezembro de 2010

Madrugada fria de Novembro. Entre o jantar lá para diante, mais um de tantos, e o oficiar de um baptismo clandestino, isto raro e insólito, a crismante mão cardinalícia esperaria que Telles se persuadisse de um recato novo: um rebento em casa geraria questões de bom governo doméstico e obrigaria a prudências criativas nas velhas rotinas de putanheiro. Havia afinal que empreender com a sua vida o que o catedrático economista firmava em Portugal: austera ordem e exemplar autoridade. Fizesse ele também uma limpeza de contas e do fermento vil dos velhos insurrectos da revolução republicana que mataram Deus e a decência dos costumes, segundo as confidências ezequielianas das quais sabia um terço e logo pelo lado glorioso. Arremedo disso mesmo, de essa moção renovadora, foi o que empreendeu, nesse fim de tarde, o próprio Telles, arreado de reflexões obsessivas pela vida nova em que se via grávido, avó que se sentia do próprio filho. Cão que se traz para casa e lento conquista as afeições da grande frialdade humana, assim o puto entranhava-se-lhe e pedia a frescura de um lar mais escorado. Soterrado de dívidas, porém, aflito de faltas mal disfarçadas e necessitado de recursos que sustentassem os últimos vestígios da opulência antiga, resolveu atalhar conversa com o bando d'A Batalha, homens invisíveis de bombas, sabotagens e corrosões anarcodesesperadas. Fora neles que por várias vezes encontrara os fundos milagrosos para uma liberdade de apertos e uma vida de aparência suficiente. Já no tugúrio, incerto da velha cumplicidade, foi o Urtiga a notar-lhe a lividez, a gaguez de mal intencionado e estendeu-o preventivamente ali mesmo. Haviam tombado cento e noventa centímetros de antiga nobreza renegada. Estava à flor do pó um bigode encorpado, mais ruivo que grisalho, rebrilhando como uma cenoura. Jazia beijando o chão o azul esverdeado eslavo no meio daquelas órbitas brancas a fazer de olhar. Enfim, os reflexos do velho Telles já não eram o que haviam sido. Meio desacordado do arriar de pancada, ainda foi ouvindo: «Estas contas resolvem-se a bem. Pagas e não bufas.» Não lhes interessava, porém, matar a galinha dos ovos de oiro e mesmo a arma que lhe apalparam colada ao corpo, a meio da surra, lha deixaram intacta depois de limpa de munições. Só uma bala permanecera na câmara. Sovaram-no mas não mediram a coça. Encharcado de pancada, teria de concluir o que esses esbirros haviam continuado e ele começado. Cinquenta e quatro anos para acabar aberto e retalhado como um porco e só, como um bicho, sem a dignidade comunitária dos vermes. Esgueirara-se a muito custo para casa e lá se acuara, depois de largado num beco por dois ou três dos d'A Batalha. Algo na sua velha máquina de bombear linfa se descompassara e sabia-se condenado. Não procurou respaldo nem socorro entre os seus. Esgueirou-se discretamente sanguinolento para o quarto. Aos d'A Batalha e demais correlegionários, o economista catedrático no Governo montara-lhes cerco e agora forcejavam por escapar, e, por medida provisória, concebiam os necessários subterfúgios de sobrevivência com financiamento e refinanciamento entre os apertos da velha ambiguidade republicana, que o Telles representava, e a nova ordem ordeira que o casto presidente do Governo ia impondo. Eram os últimos fumos do pífio anarquismo lusitano. O agredido mal se arrastara até à sua câmara íntima, logo se estirara, arrojado para o solo, meio corpo na madeira fria, a outra metade sobre o pêlo ebúrneo e espalmado do urso polar empalhado. De borco, mal respiraria. Por isso, ensaiou voltar-se, virando e revirando, atabalhoado, o próprio corpo e o do urso. Os dentes do empalhado aleatório petrificaram ainda mais o habitual sorriso, encarando o moribundo que ficara sobre o próprio flanco. Ainda achou forças para sorrir de volta, entre tosses e viscosidades sanguíneas cuspilhadas, escarradas:

Grande irmão empalhado dos gelos... Como vais?...

Urso e homem, dois sacos espalmados de vento na ordem vária do cosmos, encaravam-se derradeiramente. O segundo deixou-se ficar. Sacou da arma. Só porque transido de dores e estertores, com ossos prometendo um aleijado a partir daí coxeando indignamente, talvez mendigando fellatios pelos lupanares, a face desfeita num brusco decair do velho brio, velha vaidade num deformado acanhado e monstruoso, decidiu só então dar-se o golpe de piedade. Piedade, nome da puta com pergaminhos na velha nobreza, teve afinal quem a vingasse involuntariamente. Sem dor, nem nostalgia, nem mágoa, dispararia. Brigantia e os outros a dar com ele, logo ali alvoroço ante a desgraça, o bebé entre vagidos, nada mais simples: últimas palavras e um tiro enviesado com a arte fria e ensaguentada de Antero, fora o abismo de alma deste, eis quanto bastou para se dar repouso o grande cobridor de Sete Rios, das Sete Colinas e arredores. Uma vida de gastos, mulheres e seus exigentes requintes fizera do Ezequiel um endividado da má vida, uma vítima do excesso, do luxo e do prazer. Acabar, acabasse com estrondo. Em tempos cativara a bruxa, recrutara-a com a sua silhueta alta e incomum e com o faro que tinha por fragilidade e vulnerável na fêmea mais repleta de fortaleza e, por fim, foder a bruxa virginal – há já tanto tempo! – fizera dela nada mais que uma escrava incondicional, absolutamente leal, adorabunda e submissa do seu senhor, guardiã de qualquer incumbência, cúmplice que sempre fora da soma grosseira de íntimas, tidas e mantidas. Para grandes apertos, grandes acidentes.  Ver um rebento medrar na sua esterilidade de mulherengo miserável, isso não. Careceria, pois, de uma renegociação de juros e dívida com o emprestador. Se a negociação recrudescesse e resvalasse, sabia que havia dívidas que morrem assim que morram os credores. Se o credor morresse, morreria o que o estrangulava nesse começo de sonho. Ainda deitara a mão à arma numa convicção frouxa de primeiro assalto. O que o Urtiga e os outros lhe fizeram já se sabe. Vira a luz num 13 de Junho de 1888, o segundo de três filhos. O parto do Telles ocorrera no quarto andar direito do n.º 7 do Largo de São Carlos, em frente à ópera de Lisboa. No número quatro do mesmo prédio, no mesmo dia, à mesma hora, nascia Pessoa o absoluto platónico vazado em espiritualidade poética, masturbativo e íntimo de si mesmo como um cego enquanto se viu capaz de bom sexo furtivo consigo mesmo sem o ónus de se ser fiel porque se concebia vários , vinha também à existência a par de um bruto fodilhão, rei dos fodilhões. Quanto à puta da Piedade, que história a trouxe? Que história a levou? A Ditadura Militar em 1926 e a subsequente ditadura do virginal catedrático de economia limparam imenso esterco de fermento espanhol, nesses grupos anarquistas ramificados com as suas pretensões anacrónicas. Dispersaram-se. Foi então que uma rede de bufarias se provou de uma eficácia inexcedível na desratização dos últimos resistentes. Jornais e pensadores heterodoxos viram-se de repente clandestinos, alvos de perseguições e o País exíguo exiguou-se ainda mais naquele sossego humilde das verdades simples. Quando em 38 se faz o atentado falhado pelo qual se tentara assassinar o santo emergente e infalível do regime, a incompetência revolucionária dos portugueses dera o último suspiro por longas décadas de modorra. Piedade, espécie de assistente corporal e irmã espiritual de esses homens, e Telles requebraram-se na mais agreste e denodada sofreguidão dos corpos precisamente ao logo de esses três anos. Aliviado o último com o disparo percutido, exare-se dela a gesta que lhe é devida.



publicado por joshua às 02:32
Sábado, 18 de Dezembro de 2010

Toda a vizinhança já sabia. Era dia de Cardeal na casa do Telles. Ainda hoje, não se sabe como se soube. Teria sido a íntima Brigantia?, o fiel Baltasar? Irrelevância ou sinónimo, verdade seja dita. O que conta é que, à chegada da eminência sua, o vulgo amontoava-se para o mirar, mais do que faria em dia de festa de calendário. Brigantia fazia de Guarda Suíça, distribuindo cachamorrada na turba sedenta do beijo na anelar argola do Principal do reino. Sem passar cartão à turba, lá entrou o Manel do Ezequiel na humilde casa  do Telles (são sempre humildes as casas dos ricos anfitriões), assim se anunciando: – Venho para deitar água ao gentio e comer da bruxa. Telles, Telles?

(antes do educado e cuidadoso e estranhamente ausente Telles, porém!) Voltou Brigantia, e entrou Baltasar, e arrimou o choro daquele a quem o capo de tutti capi vinha para dar o nome de Simão (esse mesmo, fala-se do futuro matador do que havia de ser João – não se perca o fio à meada, que isto de escrever estórias vividas ou ouvidas assemelha-se a procurar loiça na casa de estranhos. Tende pois atenção, doravante, e que vos sirva de emenda este responso).

Baltasar sente um arrepio e Brigantia dois. O berreiro do ainda filho da puta (pois se água abençoada não lhe havia escorrido a fronte, nem os sagrados óleos lhe haviam crucificado a testa) ecoa pela casa. O Cardeal, como se a galega e o maricas matador de putas não fossem gente, de Telles gritado, vai subindo as escadas, de encontro ao vagido.

Abriu a porta que o separava do fado e viu o imundo organismo (semelhante na forma às muitas criancinhas que o seu microfone divino absolvia do pecado original) quase sumido numa poça de sangue que jorrava do cobarde e inominável Telles, o Ezequiel. O sacrílego já não pulsava. E deixava-o, a ele, imperador das sacristias, com o menino nas mãos. Pecou o maior dos pecados, o conselheiro civil, excluindo-se da vida que afinal nunca tinha tido, que se Deus nos destina a todos, este Ezequiel-criatura já vinha norteado ab ovo para o inferno dos que, por vontade própria, ousam substituir-se ao que manda e desmanda nos vires e nos ires.

Sacramentou-o logo ali – ao ora Simão, bem entendido. Do blasfemo cadáver sem honra, infame discípulo de Saul, Aitofel, Zinri e Judas Iscariotes, aproveitou o sangue escorrido. É que, não vendo por ali água que pudesse benzer uma vez, benzeu dez vezes o sangue da maldita criatura que cobardemente havia tomado o lugar de quem decide das nossas horas. Persignou-se, apertou o cilício – "quem crer e for baptizado será  salvo; quem, porém, não crer será condenado" –, e eis o nosso Simão livre de pecado.

Com Simão besuntado de cristianismo (untado de sangue dez vezes absolvido) nos braços, desceu em silêncio, e sorrindo, as escadas que, gritando, havia subido.

Dirigindo-se à galega disse: – Este é Simão, filho de Jonas, irmão de André. Dos da Bíblia, de quem passarás a ser beata devota. Daquelas que, ao apito, se sentam, ajoelham e levantam.

A Baltasar, sem lhe dirigir o olhar ou o discurso directo, mandou que ordenasse a desordem do andar de cima e que atirasse as sobras a uma vala comum. Simão Telles, salvo do pecado pelo sangue do pecador, era agora seu valido.

Ezequiel havia fugido aos agiotas a quem se havia vendido para poder dar futuro a Simão, encarregando o padre, a bruxa e o assassino de criarem Simão. Essa era a história dos três. A oficial resumia-se ao Cardeal e a Simão. Tio e sobrinho.

Lá fora, o pé-rapado, exausto pelas desoras, num charivari de fazer estória, fazia claque pelo beijo no anel.

–  Amanhã, tudo estará tratado. Tratai de meu filho Simão. E tu, bruxa seca, arranja-lhe ama-de-leite. Serve-te destes dinheiros.

E, atirado o vil saco, saiu pelas traseiras. Entretanto, Brigantia, definhava. Incapaz de Simão, com os lábios cheios de beijos pelo Telles que já não era. Do seu Ezequiel que haviam matado. Teria os seus defeitos, Ezequiel, que só se vinha de dedo no cu, mas não era homem de se matar. Ó da guarda, que mo mataram, ousou gritar. Sem voz, para ninguém ouvir.



publicado por Rogério Costa Pereira às 01:53
Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

Ezequiel, capaz de seduzir fêmeas ao machio, lhes descobrir insuspeitas delícias das entranhas ignoradas, e capaz de submeter homens embravecidos ao encanto de uma frase de espírito ou duas, já esperava o remoque que depois, como de costume, logo abrandaria na partilha das vivências mundanas, quando, numa naturalidade sorna, o primeiro abria ao outro, com o bisturi de amador batido, a grande, funda e misteriosa fenda feminina, vergada ao hábito de se deitar aberta em cios, derreada de vício ao seu arranque táureo:

– Pelo contrário, Eminência. E pode despachar já.

A liberalidade libertária dos seus costumes bravios fazia justiça à sobriedade seca dos dele, harmonizando-os na paz: o leão deitava-se com o cordeiro. O jacobino, amansado pela efusão estéril do sangue passado e a passada sanha persecutória, irmanava-se com o clérigo austero, legitimado de uma autoridade nova. Alegoria dos tempos! Máxima da Situação. Tinha havido Cova de Iria e o povo redobrava em religiosidades e fervores renovados. Melhor seguir de bem com a torrente fervorosa. A hora repicava por lei, por ordem. Gritava por contas limpas e armas esquecidas por limpar que a Grande Guerra mortificara demasiados jovens e demasiada esperança proles e partos tal como agora a fome racionada desta beligerância gera uma perdição de barrigas pandas como velas e falos hirtos como mastros. Regressava-se, pelo menos na forma, aos velhos cânones do século morto. Telles, em questão de mulheres, não tinha escrúpulos e jamais não mudaria.

– Vá lá, Manel, despacha e condescende!

O Cardeal transmutava-se em Manel assim que o camareiro saía ou a empregada já não pipilava limpezas nem borboleteava as bolachas e o chá por perto. Sentado na sua ampla secretária por trás o retrato grande, impressivo, fresco, de Pio XII , Manel sorria benévolo, a face aureolada de bonomia. Cruzava os dedos sobre o ventre numa antecipação consolada do pecado alheio por narrar. E condescendia. Um hálito grosseiro emanava da cardinalícia boca abrindo à imaginação fronteira o espectro de uma úlcera ansiosa. E a halitose fundia-se ao ar que ali pairava. Naquele gabinete, a santa pestilência somava-se ao odor áspero a décadas de fumo, defumando longos debates de política e filosofia, pira sem fogo a deflagrar nos periódicos, tratados e volumes em estase ou trânsito por aquela biblioteca. Alguma poesia ultra-romântica choramingava ali ainda por vezes e mesmo os toscos frutos literários da república haviam sido por ali digeridos e rebatidos «nos seus pressupostos anticristãos de insídia e dissolução dos costumes.»

– Telles, se te deras ao sigilo, menos mal! O falatório danado que vai pra'aí... Bem sabes o escrúpulo.

Espírito sóbrio, aquele Cardeal! O sigilo, o sigilo... Um espesso secretismo era a alma geral do negócio das almas e bem se sabia quanto daquilo que se encobria na Santa Igreja morria num silêncio estrangulado às mãos do inverosímil, quanto mais as façanhas cobridoras de um alto conselheiro civil. Sob a aura a viscoso colo fêmeo emanada pelo Telles, Manel deixava-se enlanguescer por ali, ao bafo das narrativas facetas e façanhudas daquele. De si, nada saberiam. A castidade afervora o puro intelecto e a extrema racionalidade: era um puro espírito mergulhado em pedagogia e bom exemplo. Não vinha mal nenhum ao mundo se se requebrava de langores pela angelicalidade dos mancebos e o rosto efebo dos efebos, em certas horas de ócio e noite escura. Pregustação do Céu no esconso da fantasia morta que lhe restava. Ternuras platónicas espargidas pelo rebanho fresco de acólitos a aprender a sacra liturgia, insuspeitas moções mortas de tusa que as empregadas haveriam de limpar-poluções. De resto, ninguém o saberia. Nunca. Escondia-o bem, embrutecendo a voz a espaços, na sacristia, impacientando-se, esfregando as mãos em ânsias maceradas. E tudo se sublimava em instrução, catecismo, cartilha e incenso embrulhado em altíssima sapiência e sumo saber. Canto sacro e mistérios da fé. Ardendo de desejos passentos perante os seus arcanjos marmanjos e anjinhos tenrinhos, acordava, sacudia o Tentador afastava da mente Querubins de quatro —, e regressava à santidade casta e austera que as suas responsabilidades pesadamente lhe imputavam hora após hora no túmulo frio da boa moral e a matéria edificante, sobretudo desde a grande hora no ano da graça de 29.

– Diz-me, Telles, a tua bruxa vai de dedo inspirado? Não há cabidela como...

– Bem sei, Eminência, quereis ver o crianço e baptizá-lo. Seja que o vejais.



publicado por joshua às 18:24
Domingo, 12 de Dezembro de 2010

Mas as parecenças entre João, filho de traidores da nossa Trindade, e Ompal, azarado vizinho de traidores da alienígena trimúrti, terminam aqui; na circunstância peculiar da morte de seres a quem não deixaram experimentar o arquejo orgástico de quem ama e é amado. Esta é a verdade. Ainda que isto não levante dúvidas (nem pelo tempo do arder dum fósforo!) do amor que Simão e Ester tinham à semente que germinaram e que, por tanto assim ser, impediram de dar flor. Os amores que João não deu, recebeu em demasia dos pais que o mataram – fica já a sentença lavrada e o dedo apontado: os pais que o mataram. Que nem só por acção se mata; e da omissão já o infanticida Simão vai absolvido. Mas se João (ou a suspeita dele) foi amado, oportunidade não teve de amar. Mulher ou homem.

[João] Por circunstâncias cujas explicações aqui não cabem – por insensitivas –, assumo eu, por instantes e antes que me falte a voz que nunca tive, o narrar da minha (só aparentemente) curta história. O facto de ter morrido-de-morte-matada – realidade manifestamente não exagerada e hoje já provada por aresto transitado – é impedimento que contorno com estas vozes de quem me fiz dono.

Nenhuma vida começa ao choque parideiro com a primeira luz. A minha (convenções genésicas à parte) encetou-se era o meu pai filho mantido de meu avô. Família lisboeta de tradição pré-republicana, nos andares de quarenta do único século que por segundos vivi, os Telles eram já uma instituição secular (de século; que de laicos que se ousassem públicos nada constava). Ezequiel Telles – meu avô –, já homem de amar mulheres e guiar homens, era por esses anos conselheiro civil do cardeal do regime. A sua sombra atrasava dos respectivos afazeres (as vénias prolongavam-se por minuto ou mais) as pessoas por quem passava.

Já meu pai, esse!, a quem doravante se referirão pelo nome de baptismo, foi retirado à bordoada das garras e genicas teimosas da mulher de ocasião que numa noite se deixou emprenhar sem pedir licença. Pela teima inopinada em largar o fruto, por ali se ficou, torcida pelo pescoço.  [/João]

Era então 1941.

Na casa dos Telles passavam a ser quatro. Ezequiel e sua afortunadamente estéril governanta galega, Brigantia (alma castrexa, cujas artes estrangeiras faziam a vizindade alcunhá-la de bruxa), Baltasar, o criado de servir e de matar michelas, e o nosso iniciado Simão.

Ezequiel, fruto maduro e tuitivo, que não era homem de abandonar filho seu, ainda que parido por rameira, era agora o concludente resultado da inoportuna concentração de demasiados acasos desviantes. À bruxa e ao Baltasar, assassino e falado esquineiro amante de homens, juntava-se Simão, o filho da puta.

O seu juízo final chegou em forma de súmula encerrada por lacre de anel cardinalício. Rezava assim: “Telles, amanhã será você o assunto do nosso despacho semanal. Dizem-me que o seu viver me apouca. Que esqueceu quem sou, quem serve e quem sirvo.”.



publicado por Rogério Costa Pereira às 03:33
Sábado, 11 de Dezembro de 2010

Detive-me. Olhar-me, olhando o microhumano falecido no seu nicho. Por 360º de torção, o meu pescoço espectral esfaqueia de paz esse teatro de me chorarem. Roçar-me nele, roçar-me nela, no pai etílico, na mãe côncava, resumir-lhes a década no fulgurante hiato de mim, daqui, da patética hora inicial a enterrar. Odor a químicos, suspiros de sacristia, arfares e bichanares de velório, fui maquilhado e ressurge a fugitiva carnação carmim de João Por Ser: face, lábios, corpo estirado-egípcio, preparado na alvura tupperware do socavão derradeiro. Imobilidade risonha, suspensa. Interrompida no prazer potencial de longamente afagar o Laboreiro não tido. Ah, fitar com olhos de carne o seu fitar-me súplice por carne! Ah, enternecer-me canino da bravia e selectiva mansidão humana do bicho! Ardem pais por ser pais e outros por não ser, tolhidos se o são. Pairo e vejo: estes dois da recusa de mim singram costas com costas doutros casais ressequidos, casais de brutezas inanes na desesperação das entranhas estéreis, ainda que mil vezes mais miseráveis. Índia. No seio intangível do negro vácuo, contíguo aos entes que são, vejo nítido esse duo que sacrificou num templo um menino de três anos, filho de vizinhos, cerimónia de bruxaria, ritual de fertilidade, paroxismo de loucura. Creram que, pela morte de menino alheio, outro conceberiam próprio, filho negado e renegado pelas próprias vísceras. Kanshiram Nagar, terra ainda verde, no Uttar, já vira de tudo, mas quando Ompal, aborto póstumo, foi encontrado decapitado num templo, com uma de suas mãozitas cortada em pedaços, muitos concluíram ser a vida demasiado curta para todo o asco disponível e todo o encanto suportável. O par seguira o conselho de um homem que se dizia deus, certamente temível e sabedor, carregado de bênçãos e maldições, quando agachado comia ofertado chakli com a ponta dos dedos e, arregalando os olhos, dava a receita. Homem que se anuncie deus e assim passeie pelo Uttar, «só pode ser o último recurso à nossa casta, com os mais piolhosos e ostracizados dos seres, sem acesso à educação para ganhar a vida nem autorização para pensar por nós mesmos». Ompal e eu, João Por Ser, teríamos um belo futuro. Gerado, quisera ser parido pelo desejo destes dois. Parido por obra e graça da natureza, seria já doce continuar ignorante dos seus mistérios à flor do meu merecido colostro. Mas nem um minuto.



publicado por joshua às 12:14

Voltei da escuridão.

Belisquei-me com cuidado ao reentrar – ainda me lembrava como tinha sido, havia pouco mais de dez anos. O cheiro e o sabor da morte. Agora já não. Havia de estar toda a gente a rir. Havia de ter sido só um sonho mau. Dez anos são um flato num elevador vazio. Que seria feito do meu pai? Fígado marinado, morto por certo. O meu bom carrasco. E a mãe, agarrada ao caixão, sem vida própria, feliz por ser a escolhida pelo casamento que já não era – entre as teúdas e manteúdas, pobres delas, herança em vida, deserdadas na morte.

Bati na madeira da porta. Na porta de madeira. Ao de leve. Sempre eram dez anos. Morto e enterrado. Já tinha passado tempo que chegasse para descerem esta podridão às entranhas fecundas da terra. Para que florescesse em cardos e malmequeres. Bati. E bati outra vez. Ouvi passos. Morto recuei, morto de medo.

Abriu-se a porta para a escuridão. A minha luz. Entra, meu filho, estamos todos à tua espera. Dez anos dela.

Carpideiras em cada canto. As mesmas de há dez anos. Algumas já cadáveres. Choram por dinheiros. Centavos por lágrima, pintos por gritos de pesar. O mesmo cheiro nauseabundo; que a morte, ainda que empalhada no tempo dos rigores literários, cheira sempre igual. O caixão estava ao canto, branco e pálido. De cor e de pesar. E era de meio metro, o meu.

Esta é a minha a história. Nado vivo por segundos – morto à luz da lei e dos costumes de antanho.

Minto!, que esta é a história da minha mãe e do meu pai.Portas adentro, lá estava eu. Eu e todos eles. Nós todos. Os mortos e os vivos, parados no tempo. Mortos por enterrar. Fugiram-me da morte. Da minha. Aquelas pessoas paradas no tempo. À espera do seu morto por chorar. À minha espera.

A dele, que das entranhas dela me arrancou e me lançou à sorte do chão de pedra. E a dela.

Nasci e morri em 1971.

Era para me ter chamado João.



publicado por Rogério Costa Pereira às 00:11

POR ORDEM DE (A)PARIÇÃO

João: o nosso protagonista

Ompal: aborto póstumo; encontrado decapitado num templo em Kanshiram Nagar

Simão de Frutuoso Telles: pai de João

Ester: mãe de João

Ezequiel Telles: avô de João; conselheiro de Frutuoso

Mãe de Simão: puta

Brigantia: governanta galega de Ezequiel Telles; parece que é bruxa

Baltasar: criado de Ezequiel Telles; matador da mãe de Simão; esquineiro amante de homens

Manuel Frutuoso: cardeal do regime, íntimo d’O Homem

Urtiga: do bando d'A Batalha

Cândida Frutuoso: irmã de Manuel Frutuoso

Artur Telles: marido de Cândida; visconde de Lousado

Miguel Ortega: preceptor de Simão; Miguelito de Mourão

Padre Leão: homem doutíssimo

K-12: matou e capou doze fidalgos

Maria de Cristo: Governanta de Oliveira

Oliveira: o sucedimento moderno de Dei Gratia Rex Portugaliae; O Homem

"O carpinteiro": parece que arranjou a cadeira de Oliveira

"O penteadinho": secretário de Oliveira



publicado por PERSONAGENS às 00:10
um blogue que não é um blogue; uma história a duas mãos; um conto pari passu, trocando o passo; a história de João

Cadáveres esquisitos

de XIII em XIII
do Amor
Google Groups
Adira à mailing list e receba os capítulos antes de eles serem escritos
Email:
Veja o grupo por dentro